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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Entre o Panamá e as memórias de Buenos Aires

Hoje estive a fazer tempo num lugar onde estava um piano de semi-cauda a ser tocado. Um lugar de passagem, o pianista já devia estar habituado a não receber a menor atenção porque, como estratégia, pegava as canções umas às outras, como se de um comboio se tratasse. Quem não estivesse atento, ouviria uma única canção, lá ao fundo.

Enquanto o ouvia lembrei-me de uma episódio ainda em Buenos Aires, mesmo antes de nos mudarmos para o Panamá.

Certa noite, por um passeio de uma qualquer rua da cidade, olhei para baixo - precaução imprescindível para não pisar "minas" nem tropeçar em lajes levantadas - e vi uma nota de cinquenta pesos (a taxa de conversão aponta para os dez euros, mas naquela altura equivaleriam em termos de poder de compra a uns vinte e cinco euros). Olho para todos os lados, porque cinquenta pesos a menos iria fazer muita diferença à pessoa que os tivesse perdido. Não vi ninguém, de maneira que peguei na nota e levei-a na mão, determinada a entregá-la ao primeiro sem-abrigo que encontrasse. Afinal de contas, aqueles cinquenta pesos não eram meus.

Por acaso do destino, não me encontrei com nenhum; nem com malabarista de semáforo, nem senhora com o filho ao colo a pedir comida. Não encontrei ninguém.

Os dias foram passando e a nota de cinquenta pesos continuava dobradinha à espera de ser entregue, até que na última noite em Buenos Aires, já a achar que não íamos encontrar ninguém, decidimos que o que tinha que ser tinha muita força. Aqueles pesos não eram nossos, tínhamos de nos decidir.

Fomos jantar a um restaurante muito bonito, num palácio que pertencia ao clube dos franceses. Entrámos e parecia que estávamos noutro tempo e noutro lugar, a viver um daqueles ambientes vagamente coloniais, vagamente Hemingway, com bar de cocktails e cadeirões de cana num pátio interior.

A sala de jantar tinha uma lareira grande onde pousavam as garrafas de vinho; a ementa do dia era declamada pelo cozinheiro. O jantar foi uma delícia, claro está, e o ambiente completado com um piano tocado ao vivo, numa sala ao lado, por um pianista que não recebeu uma única palma durante toda a noite.

No fim do serão, o músico veio às mesas recolher as suas gratificações: já tínhamos decidido que era aquela a pessoa que ia receber os cinquenta pesos. O pianista recebeu a nota, teve um momento de hesitação e espanto, depois olhou-nos emocionado. Não era preciso, não era preciso...

Ele não sabia, mas naquela noite calhou-lhe a ele receber o agradecimento que devemos a tantos pianistas de tantos lugares de passagem e que nunca recebem um olhar sequer de reconhecimento.

O senhor de hoje, surpreendido com as palmas, veio-me perguntar se gostava de música. Sim, gosto, e ainda mais tocada ao vivo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Esqueci-me!

Ontem esqueci-me completamente de assinalar o dia em que festejei os quatro anos de vida na América Latina, três deles em Buenos Aires e quase a celebrar o primeiro aniversário de vida panamenha.

Quatro? Já?!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Entre o Panamá e Buenos Aires

Floralis Generica, Buenos Aires

Seis meses depois da partida, voltei a Buenos Aires para cinco dias de jacarandás em flor, muitos passeios a pé e muitos, muitos mimos das amizades que fiz nos meus anos por lá. Não visitei nenhum museu (e olá se tenho um déficit de cultura) nem conheci lugares novos, mas revi os meus preferidos (como a flor, acima) e, sobretudo, sentei-me à sombra lilás que agora inunda a cidade. Novembro é o meu mês preferido em Buenos Aires, e tive a sorte de lá poder ir.

Passei pela minha antiga rua e falei com a minha querida porteira - e amiga; visitei o ginásio e falei com as companheiras de sofrimento na aula de pilates. Revi tricotadeiras e partilhei chazinho e bolo; visitei a minha antiga aula de pintura, cheguei no intervalo e daí passámos ao chá, do primeiro chá ao segundo, e do segundo ao jantar.

Visiting my former painting class

Notei a louca inflação, que duplicou preços entre Maio e Novembro; vi as mudanças na demografia da noite, alguns restaurantes fechados e muito menos gente nos restaurantes da moda. Jantar fora está muito caro.

Iglesia del Pilar, Buenos Aires

Adorei não ter calor de noite nem sentir humidade no ar. E sobretudo - ou apesar de tudo - adorei a sensação de voltar a casa, uma casa que já foi minha, já não é minha, mas sempre estará no meu coração.

Nos vemos!

sábado, 29 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (15)

15_BsAs bye bye

Confesso aqui que não sou particular fã de futebol. Não sou. Gosto de acompanhar os jogos da selecção e, obviamente, fiquei muito contente com a vitória do nosso Benfica no campeonato nacional. E por aí fica o meu entusiasmo futebolístico.

Agora, convenhamos, não há melhor disparador de conversa que a simples menção de um clube de futebol, seja ele qual for. Explico: se há coisa de que gosto (e desconfio que herdei isso do meu pai) é de uma bela converseta com taxistas. Não há nada antropologicamente mais divertido que isso, tenho para mim, apesar de conhecer muita gente que não imagina tortura pior que a de ter de ir a falar enquanto não chega ao destino. Eu gosto, e muito.

Da próxima vez que entrarem num táxi proponho que olhem para o galhardete pendurado no retrovisor. E depois experimentem dizer o nome do clube.

(Num parêntesis, aproveito para revelar as minhas estratégias. Recorro principalmente a duas variantes: "então e o nosso Benfica, hã?" e a "como é que ficou o jogo do Boca?". Quem diz Boca, diz Sporting, Porto, Belenenses, Independientes ou River. Não importa. Fecho parêntesis e sigo para bingo.)

E assim, estratégia infalível, têm conversa garantida até ao final da viagem.

Buenos Aires bye bye (14)

14_BsAs bye bye

Cidade de cultura, em Buenos Aires há sempre qualquer coisa a acontecer: entre teatros, cinemas, museus, galerias de arte, centros culturais e espectáculos de rua, não há dia que passe sem actividades. A dificuldade, de facto, está na escolha.

Por isso, um dos nossos passatempos favoritos de fim-de-semana era ir ver o que havia lá perto de casa. Íamos ao Centro Cultural da Recoleta ou ao Museu de Belas Artes, ao Palais de Glace ou a alguma galeria, e havia sempre, mas sempre, qualquer coisa interessante para ver.

Uma das modalidades que a mim mais me impressionou foi a dos espectáculos de rua "a la gorra", ou seja, em que no final da apresentação é passado um chapéu para que as pessoas depositem a contribuição que entendam corresponder à qualidade do espectáculo. E não é que as pessoas colaboram, ainda por cima sem avareza?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (13)

13_BsAs bye bye

Novembro é o mês dos jacarandás em flor. É também o meu mês preferido para estar em Buenos Aires: não só há uma histérica nuvem lilás por toda a cidade, há também um ambiente de alegria pela chegada do bom tempo, do fim do ano, da proximidade das festas a marcarem o início do Verão e das férias.

É verdade que as ruas ficam um bocadinho pegajosas com as flores que caem, mas tudo vale a pena só para termos aquele espectáculo durante um par de semanas.

Buenos Aires bye bye (12)

12_BsAs bye bye

Algumas esquinas de Buenos Aires emanam uma aura de charme decadente. Talvez seja pela grandiloquência desta arquitectura estilo parisiense, aparentemente fora de lugar, mas tão bonita, neste ponto da América Latina. Esta é uma cidade cheia de encantos, e os edifícios que resistiram à construção dos arranha-céus são disso testemunho.

O centro, contudo, está degradado. Seja pela poluição que aí se faz sentir, seja porque agora já não é o lugar da moda para se ver e ser visto, na Calle Florida há um certo charme decadente no ar. Os antigos armazéns Harrod´s, hoje vazios, são disso exemplo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (11)

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Um dos meus espaços predilectos em Buenos Aires, a flor é... a flor. É uma flor de metal, artificial, portanto, que mimetiza a natureza ao abrir e fechar conforme a intensidade da luz: à noite fecha-se, durante o dia está aberta. Curiosamente é também um pouso habitual para aves, o que faz com que quase todas as fotografias que tirei tenham um passarinho empoleirado numa das pétalas.

Mesmo ao lado passa uma avenida muito circulada, a Figueiroa Alcorta. Mas neste parque não se sente nada do movimento louco da estrada: há calma, espaço, verde, alguma sombra e a imponência da flor no seu espelho de água. Quando me treinei para correr os 10km, frequentava muito este jardim porque podia fazer um caminho bonito com algumas subidas e descidas, com uma gravilha macia ao impacto de cada passo e, sobretudo, sem cheiro a cocó de cão. Na Primavera, levávamos uma mantinha e o jornal do dia e íamos para lá apanhar um bocadinho de sol. Enfim, a flor é um espaço de muitas e boas memórias porteñas e continua a ser a imagem de fundo do meu computador. Vou ter saudades!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye?

Podia ser um post da série "Buenos Aires bye bye", mas não é.

Na semana passada, a nossa última na Argentina, ficámos instalados num hotel de executivos, bem no centro. É um hotel de uma cadeia internacional, onde maioritariamente se instalam homens de negócios, tripulações de cabina em trânsito pela cidade, enfim, estão a ver o género. Não é propriamente o vão de escada ali do prédio dos fundos.

Ora precisamente neste hotel, fui interceptada duas vezes pelos seguranças para saber se era "acompanhante".

Acontece que o Sheraton Retiro, pelos vistos, é frequentemente visitado por profissionais desta área de negócio, também conhecidas como prostitutas de luxo. E aparentemente - uma pessoa está sempre a aprender - os seguranças cobram uma comissão nas tarifas das ditas profissionais para as deixarem subir aos quartos dos ditos executivos. E quem era eu para entrar por ali adentro sem pagar o que lhes era devido?

No final da estadia fui fazer a devida reclamação na recepção. Preambulei avisando que era um assunto delicado, mas nem mesmo assim consegui evitar que a recepcionista emudecesse de vergonha, acompanhado do inevitável rubor facial. "Representando el hotel, pero sobre todo como mujer, le pido mil disculpas. Hablaré con los chicos de seguridad."

E esta, hein?

Buenos Aires bye bye (9)

09_BsAs bye bye

Uma das (minhas) descobertas porteñas foi a pintura. Comecei a frequentar as aulas de pintura da Asociación de Amigos del Museo de Bellas Artes, com modelo vivo, e a minha vida foi mudando, aos poucos.

Penso que a minha profissão, a de designer de comunicação, é muito desgastante em termos criativos. A páginas tantas, no meio do turbilhão dos trabalhos, há pouco tempo para testar, experimentar novas soluções para resolver os problemas (de comunicação) propostos pelos clientes. E isso acaba por, paulatinamente, opacificar a nossa estrelinha brilhante, aquela a que podemos chamar de criatividade.

A pintura, portanto, apareceu-me como um terreno de teste, onde tudo, mas tudo mesmo era permitido. Em cada exercício que fiz predispus-me para o erro, para o teste, para tentar uma coisa diferente - tudo experiências que no trabalho como designer, a maior parte das vezes, não tenho tempo para fazer.

O tricot e as lãs também foram, curiosamente, uma forma de teste criativo e, paralelamente, de integração na cidade. Através do ravelry, comunidade tricotadeira virtual (e mundial), encontrei pessoas muito diferentes com uma coisa em comum: o gosto pelo tilintar das agulhas.

Uma coisa levou a outra e hoje tenho uma marca de roupa para pequenitos tricotada à mão, a abbrigate*. Como a necessidade aguça o engenho, um dia destes tive de arregaçar mangas e tingir lãs. Com a ajuda de um catálogo escolhi cores e fios e fui comprar as anilinas, só que, quando cheguei a casa e deitei mãos à obra, descobri que também nas lãs havia repetido o meu universo cromático da pintura, fugindo um pouco das cores que inicialmente tinha previsto obter!

Parece-me que a conclusão a retirar é que não podemos mesmo fugir à nossa natureza.

Nota: quem tiver vontade de ver o que andei a pintar durante estes dois anos, clique aqui e comente abaixo!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (8): Feliz Bicentenário!

08_BsAs bye bye

No dia 25 de Maio de 2010, este jovem país que é a Argentina celebra 200 anos de existência independente da coroa espanhola. A todos os argentinos eu desejo um feliz dia de aniversário da sua pátria: não é todos os dias que um país completa dois séculos de existência. Desejo-lhes que todos os sonhos argentinos se cumpram e que o país se transforme na casa sonhada de tantas gerações de locais e de imigrantes.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (7)

07_BsAs bye bye

Uma das boas descobertas argentinas (descoberta para mim, claro, para os outros já não era novidade) foi o trabalho de artista Liniers. A primeira coisa que vi dele foram umas páginas com reproduções do seu diário de viagem (que mais tarde se transformariam em livro) e de aí em diante foi um caminho só de ida. Gosto muito da sua técnica, mas o que realmente me chama é o humor tipo "nuvem cor-de-rosa": um humor positivo, que não rebaixa ninguém. Parte de episódios quotidianos, coisas aparentemente sem importância e que, através da caneta dele, se revelam situações hilariantes em que todos nos reconhecemos.

Um dia, Liniers começou a pintar nos concertos de Kevin Johansen e os The Nada e eu lá fui. Descobri uma banda sonora com o mesmo tipo de humor e fiquei fã.

Na fotografia, uma exposição de vinhetas do Liniers, sobre oceanos e ecologia, na cidade de Puerto Madryn, onde fomos em Outubro passado para ver baleias.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (5)

06_BsAs bye bye

Se há coisa que esta cidade tem de espectacular são os jardins públicos e parques que salpicam de verde a malha quadriculada. Os Bosques de Palermo são um conjunto de vários espaços que constituem um corredor verde pela cidade. A maioria dos jardins é de acesso livre e gratuito, à excepção do Jardim Japonês, com entrada paga. Alguns jardins têm horário controlado, como o meu favorito, o Rosedal de Palermo.

06_BsAs bye bye: Rosedal de Palermo

O Rosedal é um enorme jardim só com rosas, tal como indica o nome. Na Primavera, quando as flores estão a desabrochar, forma-se um festival histérico de luz e cor só comparado com o violeta dos jacarandás. É um espaço lindo, lindo, aonde se acede através de uma ponte estilo jardim romântico inglês, que atravessa o lago que limita o jardim. É um favorito dos porteños em dias de sol - e como poderia ser de outra maneira? É lindo, lindo e grátis, que mais se pode pedir?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (6)

05_BsAs bye bye

Não há visita a Buenos Aires sem uma ida ao tango. Seja ele show do dito, armado especialmente para turista ver, seja ele de rua ou até uma versão mais alternativa, esta cidade sem o tango não seria a mesma coisa.

Não posso dizer que as minhas habilidades tanguísticas se tenham desenvolvido muito durante a minha estadia cá. O que posso dizer é que vi alguns shows de tango e em todos, todos eles, mais ou menos pirosos, fiquei hipnotizada pela liquidez dos movimentos. Em alguns momentos, fiquei na dúvida sobre se eram bailarinos ou artistas de circo, hipnotizadores ou prestidigitadores.

O código do tango é uma depuração da corte à maneira latina: o homem olha; se a mulher corresponde, ele levanta-se, atravessa a sala e vai buscá-la para dançar. Se ele já lá está à beira dela, fica difícil dizer que não; a vontade feminina manifesta-se a montante, não cruzando o olhar, ou mirar especificamente o parceiro desejado. Esta dança de olhares, prévia à dança na pista, é sempre, sempre um espectáculo digno de ser observado, exclusivo das milongas mais tradicionais.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (4)

04_BsAs bye bye

Estar longe do meu país deu-me - talvez mais do que esperava - um ataque de patriotismo agudo. Durante estes anos aqui em Buenos Aires, onde assumem sempre (mas sempre!) que sou brasileira, encontrar coisas que me façam lembrar de Portugal deu-me muita alegria.

(Abro aqui um pequeno parêntesis para explicar que não tenho absolutamente nada contra o Brasil ou os brasileiros e não considero minimamente ofensivo que pensem que sou brasileira. Não é nada disso. É só a coisa de "assumir", ou seja, para um argentino, só porque falo português, sou brasileira. E não, juro que no mundo há outros lugares onde também se fala português, nomeadamente... em Portugal.)

Todos sabemos que a distância nos dá uma perspectiva mais clara do panorama, seja ele uma situação familiar ou até a de um país. E estar aqui na Argentina trouxe-me talvez uma maior apreciação pela vida que Portugal proporciona aos seus habitantes. Não vou dizer que é um país nórdico no que toca a salários ou à altíssima eficiência do serviço nacional de saúde, mas também não é a desgraça de que os meus compatriotas tanto falam. Viajar - e viver no estrangeiro - dá-nos ferramentas de comparação entre a nossa e a de outro lugar. Em todo o lado há coisas melhores e outras piores; faz-nos falta a nós, portugueses, apreciar mais as coisas que temos e valorizar-nos mais perante o exterior. E esta também foi uma aprendizagem com os argentinos, que têm de si próprios uma imagem muito boa (talvez exagerada) mas que lhes dá uma confiança imensa e um espírito de iniciativa invejável.

A distância também nos faz entender até que ponto somos de um certo lugar: nunca me tinha sentido tão portuguesa quanto aqui, na Argentina. Mas também sei que, um dia quando voltar a Portugal, me vou sentir mais estrangeira que nunca.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (3)

03_BsAs bye bye

Árvores, árvores, árvores. Buenos Aires tem muitas árvores. Aliás, uma daquelas estatísticas que os argentinos em geral e os porteños em particular gostam de fazer é que é a cidade da América Latina com mais árvores.

(Claro que esta afirmação não tem absolutamente nada de científico e denota até uma pequenina ironia da minha parte, já que uma das características locais é que os próprios são sempre os "mais" de alguma coisa. Alguns exemplos: o terceiro maior relógio do mundo, com figurinhas a sair e tudo, está numa terrinha perdida no planalto andino, na província de Jujuy, e vem a seguir ao de Bariloche e ao Glockenspiel de Munique! A avenida mais longa está, obviamente, aqui na Argentina, e é uma avenida que começa em Buenos Aires, se transforma em estrada nacional e chega até Mendoza, a mais de mil quilómetros daqui. Claro, este recorde é disputado entre as duas cidades, já que ambas se orgulham do mesmo... Enfim, já deu para ver o exagero da coisa, não?)

Voltando às árvores em Buenos Aires, realmente são numerosas e fazem muita, muita diferença. Esta é uma cidade que de ares bons tem muito pouco, já que o parque automóvel tem uma idade média muito alta. É decrépito, ruidoso, fumarento, enfim, responsável pela maioria da poluição urbana. As árvores, essas, para além de ajudarem a limpar o ar, constituem também um isolante acústico significativo. Caminhar num passeio com árvores não tem absolutamente nada que ver com a situação análoga numa rua desprovida de verde.

E por isso, adoro as árvores nesta cidade. São lindas todo o ano, cada uma em seu momento.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Boas notícias

Quero aqui fazer um post pequenino para alegrar as hostes, ou talvez para contrariar todos os "Velhos do Restelo" deprimidos que só falam da crise em Portugal e da desgraceira em que o país se encontra. Hoje, na minha visita ao jornal Público online, encontrei duas notícias que me parecem realmente boas: a primeira dá conta de que Portugal teve o maior crescimento dentro da UE, no primeiro trimestre do ano. Não digo que o crescimento seja enorme, mas contraria realmente todos os pessimistas que teimam em colar-nos à Grécia. A segunda notícia, também muito boa mas noutro campo totalmente diferente, conta que pela primeira vez há colónias de flamingos a nidificar em Portugal, a saber, na Lagoa dos Salgados, no Algarve.

O resultado destas notícias foi claramente verbalizado pelo dono de um quiosque ali na esquina, que disse, à boa maneira do piropo argentino, con una sonrisa así ya me alegraste el día!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (1)

01_BsAs bye bye

Um dos meus espaços favoritos em Buenos Aires é, sem dúvida, o Malba, o Museu de Arte Latino-Americana. Tem uma planta quase triangular - ou pelo menos o átrio é triangular - o que o transforma imediatamente num edifício invulgar. O espaço é luminoso e cheio de reflexos, mesmo nos dias cinzentos. E na Primavera, os jacarandás em flor da rua ao lado enchem a vista do visitante.

A colecção permanente é interessante, mas vale sobretudo pelas exposições temporárias e pela animação cultural. A cafetaria era muito boa e acessível, agora é boa e muito cara.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Recuando no tempo*

*e voltando aos tempos da colónia de férias. E sim, é um grande retro-salto!

Quem é que daqui participou em colónias de férias de Verão? E quem daqui tinha as refeições embrulhadas em película aderente?

Pois eu tinha. E não havia maior diversão que fazer estalar pequenos balõezinhos peliculeiros e delirar com o barulho. Não havia. É que às vezes apanhávamos trânsito, a viagem demorava e as cantorias esgotavam-se. E ao final da tarde já estávamos todos demasiado cansados para passatempos construtivos.

O mesmo fenómeno se dá nos voos entre Buenos Aires e o Panamá. São sete horas de viagem desgastante feitas dentro de um avião para viagens curtinhas, muitas vezes sem uma televisãozinha sequer para passar o tempo. A Copa, valha-nos isso, é super pontual, mas não há volta a dar-lhe aos 5334km entre os dois pontos. É mesmo assim e pronto. A páginas tantas, já não há tricot, leitura ou podcasts que me salvem do tédio total e aí entra a parte dos estalidos com o plástico.

Na última viagem, o Príncipe, rapaz de reconhecida paciência, ria-se e documentava fotograficamente a cena. Os demais passageiros davam pequeninos saltos nos seus assentos a cada um dos estalidos. Divertido, mas durou pouco - não quero ser considerada uma ameaça à segurança aeronáutica. Era só um bocadinho de película aderente, mas nunca se sabe.