sexta-feira, 13 de junho de 2008

Bolívia parte IV: Salar de Uyuni

A excursão ao Salar de Uyuni foi uma das melhores, senão a melhor, excursões da minha vida. A Bolívia está parada no tempo e ainda não está muito preparada para receber turismo. Embora não tenhamos sido propriamente "pioneiros a desbravar um destino novo", o facto de o país não ter boas estradas, por exemplo, faz com que haja menos turismo. Havendo menos turismo, há menos contaminação com hábitos menos simpáticos de outros países. Ora vejamos: cá na Argentina (e provavelmente também em Portugal), há um hábito de, no meio de uma excursão, impingir restaurantes aos viajantes, daqueles com ementa única e preço único (geralmente alto). Na Bolívia, não: entradas em parques, refeições e bilhetes já estavam todos incluídos e realmente não tivemos despesas imprevistas. Além disso, em quase todos os passeios tivemos uma guia exclusivo para nós, o que permitiu sempre ter um contacto um pouco mais fundo com as pessoas.

Todo este preâmbulo para chegar aqui: a excursão ao salar foi maravilhosa. Passámos a maior parte do dia sem ver absolutamente ninguém e, só chegados à Ilha Incahuasi, uma ilha no meio do salar que serve como ponto de reabastecimento ali no meio do nada, encontrámos outros turistas. Tivemos a companhia constante de um guia fantástico e do motorista do todo-o-terreno indispensável para o trajecto.

Saímos de manhã de Uyuni e fomos ao cemitério das locomotivas.



Aqui descansam em absoluta paz as locomotivas que transportavam as mercadorias para o Chile, ou seja, para o Pacífico, e daí para o resto do mundo. Uyuni era o ponto de encontro de algumas das linhas e, por isso, nasceu ali o pueblo mais abandonado e isolado do altiplano andino (não tenho factos para suportar esta afirmação, apenas a minha observação). O sal que vem do salar corrói a chapa e, aos poucos, só se vêem os seus esqueletos. Mas esta foi só a primeira paragem deste dia cheio de surpresas e emoções.

Dali seguimos para Colchani, uma mini-aldeia à beira da entrada do salar, que vive exclusivamente da produção de sal e de lembranças feitas de sal. Vimos como se faz a produção (artesanal, difícil e sofrida) e depois o artesanato local. A coisa boa, mais uma vez, é que ninguém nos impingiu nada.

Paragem seguinte, já perto da entrada do salar, foi o hotel de sal. Um dos hotéis mais insólitos do mundo, está construído com tijolos de sal e o chão está revestido de sal grosso, que tapa todos os canos e tubos que por lá passam. Excepto as partes que contactam com água, tudo o resto é feito de sal. O hotel tem todos os confortos que alguém pode desejar ali naquele lugar, incluindo aquecimento central (que não estava ligado), uma piscina, espreguiçadeiras e solário e ainda gabinetes para massagens. Tanto conforto ali parece deslocado.

A sala de estar do hotel de sal

A piscina, numa zona de estufa, com as espreguiçadeiras.

O interior de um dos quartos.

Até aqui só tínhamos visto o salar mais ou menos ao longe. Mas depois de entrar lá dentro, a sensação muda radicalmente: entramos num deserto branco onde as únicas referências são as montanhas que se erguem ao longe, a mais de 70 quilómetros de distância. É grande. E branco.



O salar é o que resta de um gigante lago que preenchia todo o altiplano, que se assemelha, visto de cima, a uma enorme bacia. A água foi evaporando ao longo dos anos, deixando o Lago Titicaca, os lagos mais pequenos e menos profundos que vimos na viagem de comboio entre Oruro e Uyuni e vários salares. Apesar de a água deste grande lago ser doce, arrastou os minerais das montanhas, que se acumulam nas zonas mais baixas, formando os salares. Abaixo da superfície de sal (que tem, pelo menos, 11 metros de espessura), existem lençóis de água muito mineralizada, que brota aqui e ali, formando pequenas bolinhas. Dir-se-ia que a água estava a ferver, mas não.



Esta água é muito rica em lítio e estas "borbulhas" são de oxigénio.

Ao longe vimos montículos de sal, prontos para serem carregados nas camionetas a caminho de Colchani.



E depois foi altura de nos adentrarmos no Salar. Ao longe, um vulcão adormecido. Para lá nos dirigimos, por cima das marcas deixadas pelas rodas de outros veículos. A isso eles chamam "estrada". E vem marcada no mapa. Quase uma centena de quilómetros mais tarde (deu para fazer uma mini-sesta no caminho), chegámos a "terra". Na encosta do vulcão existe uma necrópole, que visitámos. Não é a necrópole que é particularmente interessante, mas sim o facto de ela existir ali: a severidade do clima obrigou a uma intensa adaptação das pessoas e dos animais. À beira daquele deserto de sal, singra a vida. Existem umas poças de água, suficientes para as lamas (os animais) se hidratarem e os flamingos sobreviverem. A paisagem surreal que é o salar fica ainda mais surreal com aquelas manchas de verde pintalgadas do rosa estridente das suas plumagens.

O indispensável saltinho, inspirado na , na Prainha e na Sónia. Aquelas migalhitas que se vêem ao longe são os flamingos. E, gente, a minha câmara não apanhou a intensidade de todas aquelas cores: naquele ar tão rarefeito ficam estridentes.

Naquele cenário paradisíaco, fizemos um piquenique, aquele que não pude ter nos anos. Fingi que era o meu aniversário e aproveitei-o ao máximo. A comida estava boa, sim, mas o melhor de tudo foi o sol, o salar, o vulcão e os amigos flamingos. Foi um momento insuperável, cuja emoção é difícil de relatar. Em "duas" palavras: a-mei.



Com o sol já em rota descendente fomos em direcção à Ilha Incahuasi. Subimos ao seu ponto mais alto e esta era a vista de lá de cima:

Sal, cactos, terra. Lindo.

A superfície do salar tem uma textura curiosa:



Chegou a hora de voltar a Uyuni, com óculos, cabelo, pele e roupa cobertos de sal.



E aqui passámos um mau bocado com o frio. Tanto até que fomos para a cama às oito da noite, o único lugar onde eventualmente poderíamos estar a salvo do ambiente agreste. E, convenhamos, há melhores razões para ir para a cama.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Bolívia parte III: Oruro e Uyuni

Depois da vista ao Lago Titicaca chegou a altura de deixar La Paz para trás e partir em direcção ao sul do país. Mantendo-nos sempre no "altiplano", fomos de autocarro até Oruro e daí de comboio para Uyuni, a terra no meio do nada.

O passageiro da frente reclinou-se tanto que pude contar-lhe os cabelos na cabeça. Só que não quis.

O comboio que parte de Oruro em direcção ao sul. Pára em Uyuni umas sete ou oito horas mais tarde e continua o seu caminho noite dentro, Bolívia fora.

A viagem de autocarro foi feita sem história: gente em pé, sentada no chão dos corredores, uma casa de banho no autocarro que não funcionava, a estrada em linha recta a cortar o deserto andino. Às vezes o autocarro parava para deixar passageiros no meio do nada. Passámos por povoações que não tinham electricidade nem água. E tudo isto a poucos quilómetros de La Paz.

Oruro é uma terra tirada de um western, com vento e pó no ar. Dizem que se desperta nos dias do Carnaval com umas festividades de fazer espantar o demo, mas no resto do ano é uma terra tranquila - e a única cidade em muitos, muitos quilómetros. A nossa paragem lá foi para reabastecer: almoçámos num restaurante onde o Paulo comeu o "melhor cordeiro da América Latina" (creio que foi isto que disse). Eu fiquei no "prato vegetariano mais bem guarnecido da América Latina", uma imensa travessa com legumes, leguminosas, tofus e seitans. Delicioso.

Daí fomos para o comboio. Instalámo-nos e preparámo-nos para uma viagem longa, sem saber exactamente quanto tempo duraria nem relógio para estimar quanto tempo teríamos pela frente. Enquanto houve luz diurna, a paisagem consistia espectáculo mais que suficiente para nos entreter. O que resta do grande lago do altiplano faz uns lagos extensos mas pouco profundos que povoam a paisagem de flamingos em cima de um espelho de água. Naqueles lagos morre o rio que drena o Lago Titicaca.



Para nossa distracção, tínhamos uma televisão e, em algum lugar desconhecido, um leitor de DVD que nos proporcionou muita distracção e entretenimento. Não necessariamente pelos filmes em si (não vimos nenhum até ao fim) mas sim pelo modo de reprodução do filme (lá está, não vimos nenhum até ao fim). Entre a loucura da dobragem em castelhano e a legenda em inglês (hmmm... e que tal ao contrário?), uma certa falta de habilidade para lidar com tanto botão fez com que o senhor operador do aparelho nos deixasse a morrer na praia, ou seja, a um capítulo de (re)ver o final do filme Shawshank redemption. Baralhou-se com os comandos, pôs para a frente, pôs para trás, repetiu um capítulo umas três vezes na primeira tentativa e, a seguir, repetiu o primeiro segundo do capítulo umas dez vezes, o que pôs todo o comboio a fazer o mesmo gesto de arrancar o cartaz da parede, com banda sonora e tudo. Desconfio que isto não deve ter muita graça para quem lê. Serve o relato para mais tarde (eu) recordar.

Chegados a Uyuni, o frio era cortante. Não sei se já disse, mas o frio era cortante. E tenho a sensação de que, por mais que repita que o frio era cortante, não vai dar para transmitir a verdadeira sensação do frio cortante. "Nossa", exclamaria a minha amiga carioca. Em Uyuni tive frio como nunca tinha tido na minha vida. As orelhas só não me caíram da cabeça porque tinha o gorro posto. E o cabelo. Esta terra está tão desprotegida pelas montanhas que o vento que ali corre (e bem) vem tão seco e tão frio que o cieiro corta quase imediatamente os lábios. Mas o pior, pior mesmo, é que não existe aquecimento. Nunca tinha visto o interior de um restaurante cheio de gente de roupa de ski e gorros na cabeça. Excepto em estâncias de ski, claro. Em Uyuni só não há neve porque não há precipitação. Durante a noite, a temperatura desce aos 10 ou 15 graus negativos. E as casas não têm aquecimento. Convenhamos: é muito frio. Durante o dia, em contrapartida, a temperatura sobe a uns confortáveis 10 a 15 graus, o que transforma aquela paisagem surrealista num mundo confortável e quase cálido.

O Salar está a alguns quilómetros da vila (vila?). Antes disso, passamos por Colchani, uma aldeia que vive da exploração do sal. Lá perto há alguns hotéis de sal. Juntamente com o de gelo da Suécia e mais uns quantos espalhados por vários continentes, perfaz o grupo de "hotéis insólitos" do mundo.

A entrada do hotel e respectiva sala de estar

A piscina e zona de spa: há massagens, solário e uns quantos confortos que não se imagina serem proporcionados num sítio feito de sal

Os quartos. Com camas de verdade!

Depois, finalmente, a entrada no Salar.

sábado, 7 de junho de 2008

Preparativos

Sem tremoço nem amendoim mas com bandeira e cachecol, estamos a preparar-nos para o jogo desta tarde. Espero que seja divertido, bom de ver na televisão e que Portugal ganhe, claro está!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Bolívia parte II: Lago Titicaca

O Lago Titicaca - enorme do género "não-se-vê-a-outra-margem" - é o que resta de um lago antigo alojado numa depressão entre duas franjas da cordilheira dos Andes. Esse antigo lago primitivo secou e deixou lagos mais pequenos e fenómenos como os salares, entre eles o de Uyuni. Na Bolívia, a crista da cordilheira divide-se em duas e o que fica no meio é uma forma vagamente parecida com uma bacia. Agora que a sua grande maioria está seca, chamam-lhe o "altiplano", que já aqui falei.

O Lago Titicaca é então uma enorme reserva de água doce no meio da aridez desértica dos Andes nesta zona do continente. À beira do lago está Copacabana, a nossa primeira paragem. Tal como a do Rio de Janeiro, também tem uma praia. Ao contrário dela, a água é fria, o ar também, e há um cheiro omnipresente a urina no ar.

A questão da falta de casas de banho públicas na América Latina agrava-se bastante na Bolívia e é quase um desporto-barra-piada fazer chichi onde quer que seja, sobretudo onde diz "prohibido orinar".

Voltando a Copacabana, a sua atracção principal, à parte o lago, claro está, é ter uma igreja do estilo mudéjar com uma estátua da Virgem de Copacabana lá dentro, que se diz ser muito milagrosa. A igreja é mais bonita por fora que por dentro, apesar de estar toda restaurada. Mas, para mim, o mais bonito é mesmo as portas de madeira esculpidas que contam a história do escultor da estátua da Virgem, em modo de banda desenhada.






A igreja de Copacabana...



...com suas portas de madeira trabalhada. Gosto especialmente das nuvens!

Depois de visitarmos a Igreja tivemos uma espera valente pelos companheiros da etapa seguinte da viagem: um passeio de barco até à Ilha do Sol, onde infelizmente ficámos tão pouco tempo que não deu para ver quase nada. Mas o que vimos é lindo:





E como não podia faltar o disparate:

Alguém cuja identidade não vou revelar obrigou-me a mascarar-me e pôr-me a remar. O dito remo era tão pesado que o rapaz que estava mesmo a remar não o pôde largar o tempo todo, não fosse ser necessário mergulhar nas águas bem frias do lago para o recuperar.

E numa das muitas esperas do dia:



Não houve falta de oxigénio que detivesse o saltinho!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Bolívia parte I: La Paz

Não consigo imaginar um nome mais bonito para uma cidade: La Paz. Não consigo. Acho que se pode tratar da cidade mais feia do mundo e ainda assim ser bonita, só pelo nome.

Realmente, é disso que se trata. La Paz não é uma cidade bonita, bem longe disso. Mas tem um nome poético e um cume nevado por detrás, a enquadrá-la, e a dar-lhe o resto de beleza que cronicamente lhe falta.

A isto acresce a sua altitude: o aeroporto, na cidade de El Alto, que lá do alto vigia a paz, está a 4000m sobre o nível do mar. Descendo 400m por uma vertiginosa auto-estrada (atenção, "auto-estrada" aqui tem um significado diferente de "auto-estrada" em Portugal), entramos finalmente no burgo. E que há aqui? Um centro histórico mínimo mas relativamente bem conservado e um emaranhado de caos, trânsito e confusão generalizada. Vêem-se muitas mulheres vestidas com as roupas tradicionais, as cholas, muitas mulheres de jeans modernos, muita gente, muita confusão. O que há aqui que sublinhar é que se vê "muito". Muito, muito, muita gente, muitos carros, muitos miúdos, muitas barraquinhas a vender fetos de lama e bebidas e talismãs e roupas de alpaca e roupas sintéticas a imitar alpaca. Ou seja: muito. E muito com tão pouco oxigénio é realmente fatigante. E atravessar estradas a correr com o ar tão rarefeito é ainda mais cansativo.

Quando chegámos já sabíamos que nos íamos sentir "cansados, com dores de cabeça e talvez também dores no peito", dizia o guia. Mas sentir a dor de cabeça e o nariz que não se habitua ao ar seco, isso sim, é outra conversa. Comprámos logo os fantásticos comprimidos para o "soroche", ou "mal de altura", e foi realmente o que nos valeu. Irriguei o nariz com meia garrafa de soro fisiológico e levei a loção corporal mais gorda e hidratante que por cá tinha. E assim passámos uma semana, entre os 2800m e os 4200m e temperaturas entre os muitos graus negativos (-10º? -15º? Ao certo não sabemos) e os 25ºC.

Em La Paz, para além do centro histórico, há o mercado das bruxas - lugar de visita obrigatória - e a prisão - lugar agora de vista proibida, dizem. Mas, mais do que um lugar de visita, a cidade é um ponto de partida para outros lugares. Para nós, para o lago Titicaca.



Centro histórico de La Paz: a Plaza de Armas e o "El Prado", o passeio público (que designação tão queirosiana!).

Não cheguei a perceber se o parque automóvel da cidade era "velho" ou "antiquado". Quem andar à procura de exemplares antigos bem estimados, já sabe onde os procurar.



Emaranhado de ruas e fios na zona do Mercado de las Brujas, onde se compra de tudo para a adoração à Pachamama, a Mãe-Terra.


Como não podia deixar de ser, a secção "comida e bebida": um ceviche que foi devorado antes de o conseguir fotografar e o imprescindível mate de coca, para ajudar a combater o mal de altura.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Já cá estamos

Hoje a alvorada nem sequer foi com as galinhas: foi antes delas. Não sou pessoa de me levantar assim tão cedo e, surpreendentemente, acordei exactamente um minuto antes de tocar o despertador: 5h29. Fiquei na cama mais dez minutos e depois foi a chamada correria para chegarmos às 6h00 à recepção do hotel.

A história seguinte é a normal: esperas nos aeroportos. Mas chegámos bem a Buenos Aires e voltar a casa soube bem.

Sobre a Bolívia, algum dia desta semana. Agora não.

sábado, 24 de maio de 2008

Até logo!


Duche. Trabalho que ainda falta. Mala. Decisões difíceis tipo "que máquina fotográfica levamos". Perguntas repetidas como "tens o guia?" ou "viste que esta noite prometem neve?". Farmácia. "Chamamos um táxi para o aeroporto?".

Desconfio que deve ser igual em todo o lado.

P.S. Tempo cortesia do www.weather.com.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Mais um...

...restaurante bom da cena porteña.



Chama-se Sucre e é aqui em Buenos Aires. Fomos lá no último dia de visitas e tivemos a imensa sorte de nos terem sentado ao balcão, que é a divisória com a cozinha. Vimos o cozinheiro preparar os nossos pratos (e os dos outros) e só foi pena termos tido que sair à pressa para chegarem a horas ao show de tango (que, disseram as nossas visitas, também valeu a pena).

Resumindo: mnham.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sem título

Tarefas do dia despachadas e obrigações fiscais e sociais cumpridas, vou agora enfrentar a confusão habitual do supermercado para comprar os víveres que faltam para confeccionar a refeição de logo à noite. Temos convidados para o jantar e, como sempre, o objectivo é preparar uns pratinhos deliciosos (o risotto de espargos do Paulinho, o "meu" pudim de espinafres - hoje, de acelga; para sobremesa um fondant de chocolate) para nos deleitarmos e sairmos do regime de "à noite, sopa e fruta" das últimas semanas.

Para sair do regime da sopa e da fruta vai também ser a viagem à Bolívia, já daqui a pouco tempo. Ontem, enquanto tricotava a gola da minha camisola (tricoto devagar, o que querem?), o Paulo esteve a ler o que dizia o guia de viagens. Confesso que o que me ficou foi mesmo a comida: já me tinham mencionado que o ceviche é omnipresente à mesa e ontem fiquei a saber que uma refeição boliviana tem sopa, prato principal e sobremesa! Que saudades de sopa, prato principal e sobremesa! Aqui sopa é sinónimo ou de água com coisas a boiar ou então de sopa a saber a natas. O prato principal por cá é só carne. Ou só peixe. Nada de acompanhamento (tem de ser pedido à parte...). Como será lá? Sopa verdadeira? Prato verdadeiro? Sobremesas com fruta, talvez? Hmmm... Estou curiosa.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Pós-visitas

Os dias pós-visitas são sempre dias esquisitos: por um lado, vai-se toda a animação vivida nos últimos dias; por outro, a casa e o tempo voltam a ser completamente nossos, com tudo o que isso tem de bom e de mau.

Na semana passada negligenciei o mais possível o trabalho e as minhas actividades locais para poder estar com as amigas e pôr a conversa em dia. Esta semana, pago a negligência com muitas mensagens para ler e responder e mais trabalho acumulado. Mas valeu a pena. Quando quiserem encontrar amigas que não viam há anos numa cidade longínqua, não combinem nada! Foi essa a "estratégia"...

Soube-me especialmente bem ter amigas com quem conversar, amigas que já me conhecem há anos e anos, com histórias de adolescência pelo meio (creio que o Paulo e o Pedro se sentiram um bocado perdidos nesta fase da conversa...) e muitos episódios cómicos das nossas maluquices de outros tempos (e deste também).

Agora este acampamento que era a nossa casa está vazio. A mesa voltou a ficar pequena (já lhe retirámos a extensão), a mesa do escritório voltou para a posição correcta, as camas já se desfizeram e o sofá já voltou a ter gente sentada (e deitada de vez em quando, mas só para a sesta).

Foi muito bom ter-vos cá. Onde é o próximo encontro, mesmo?

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Passeios

Ter visitas é sempre uma óptima desculpa para passear pela cidade, sobretudo pela Feira de San Telmo, aos Domingos, e ver pares a dançar tango.


(mas não só)

Numa fase em que me encontro um pouco impaciente com as idiossincrasias argentinas, voltar a ver a cidade com olhos de turista, mas de turista que já é familiar, é mesmo muito bom. Aos poucos, parece que há coisas da cidade que já me pertencem, como os inúmeros cafezinhos agradáveis, um pouco por todo o lado,


ou os pedacinhos de padrões que vão polvilhando o pavimento.


Não é calçada portuguesa, mas é bonito.

(Não liguem, isto são as saudades a falar.)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Dia da Liberdade

Já se passaram uns dias largos sobre o dia 25 mas só hoje realmente soube o que escrever sobre o assunto.

Por cá o dia passou-se sem notícia. Não foi feriado nem fim-de-semana prolongado e as únicas celebrações foram através dos parágrafos nos blogs que visito regularmente.

Só hoje, ao escutar o podcast das notícias em português da Deutsche Welle desse dia, é que me arrepiei ao ouvir uma pausa na narração e depois a batida da Grândola Vila Morena.

Se é certo que não vivi o "antes", só o "depois", a vivência argentina tem sido muito útil para imaginar como terá sido o passado. Não que aqui se viva em ditadura, porque não é verdade. Mas vive-se num ambiente de desinformação (o lápis azul cá mudou de tom, mas funciona na mesma, umas vezes a favor de uns, outra a favor de outros), de propagandismo, de convocação coerciva de (algumas) massas a alguns actos públicos de apoio ao governo, e assim por diante.

Não querendo estar a cuspir na sopa - porque a Argentina lá me vai acolhendo - a democracia por cá ainda é uma criança. E esse facto deixa-me muito grata por ter havido um 25 de Abril no meu país, quatro anos antes de eu nascer.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Abençoados sejam os narigudos...


...com um bom olfacto para cheirar a sopinha da Mamã.

Ontem já falei da hortelã na canja; hoje salivo a pensar nos cozinhados da minha Mãe. Em Portugal "abriu" a época de favas...

(É a ilustração para o Illustration Friday, cujo tema esta semana é "primitive".)




P.S. Há que adicionar aqui um detalhe deveras importante: o Paulinho faz uns cozinhados muito bons e até consegue aproximar-se bastante da sopinha da minha Mãe. Mas ele também entende que Mãe é Mãe, e cozinha da Mãe... é mesmo assim, exclusiva.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Hortelã

Pôr menta na canja não é o mesmo que pôr hortelã na canja. É parecido. Até é bom. Mas não é a mesma coisa.

Estas diferenças, ainda que pequenas, a esta distância revestem-se de toda uma importância vagamente desproporcionada. Mas é através dos cheirinhos e sabores (e do Skype, naturalmente) que vamos matando as saudades de Portugal e da comida da Mamã.

Como tal, deixo aqui o registo do transplante de hortelã (aparentemente bem sucedido) que começou em Lisboa e terminou algum tempo depois, do outro lado do lago Atlântico. Em três vasos diferentes, pelo sim, pelo não.

Hortelã...

...mais hortelã...

...e o "folhudo" manjericão, que pega em todo o lado.

Feiras do Livro

Não deve faltar muito para a Feira do Livro de Lisboa, de que tanto gosto, abrir as suas portas. Ou melhor, as suas barraquinhas Parque Eduardo VII acima.

Sem nougat nem cheiro a sardinha assada a anunciar o Verão, começa amanhã a 34.ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. É num pavilhão fechado (Outono oblige) e não há a alegria dos vendedores ambulantes. Mas é o que há e é bem bom.

Este ano não quero deixar passar ao meu lado alguma da programação cultural paralela. E a ver se descubro em que dia é o dia de Portugal para ir lá ver o autor deste ano (que ainda não sei quem é).

Fim-de-semana em Colonia del Sacramento, no Uruguay

Tínhamos de ir ao Uruguay e a história de Buenos Aires estar praticamente soterrada ("sofumada"?) em fumos (alegadamente não-tóxicos) foi um incentivo extra para irmos.

Cruzamos o rio no meio de uma atmosfera branca e chegámos à margem oriental do Río de la Plata. Uma inspiração mais profunda de algum alívio revelou-se muito frustrante: já cheirava a fumo.

Mas o Uruguay é um paraíso aqui ao lado da poluída Buenos Aires: os carros andam devagar, param nas passadeiras, bebe-se mate por todo o lado... o ritmo é consideravelmente mais lento e a pausa sabe bem. Buenos Aires tem muitas vantagens, mas um abrandamento de quando em vez sabe sempre bem. Dormir sem barulho de autocarros, apesar de o nosso hotel ser numa das ruas principais de Colónia, foi uma novidade também muito bem-vinda.

No dia seguinte acordámos e já cheirava a fumo. Como é que estes vizinhos podem gostar uns dos outros se se tratam assim? Uns queixam-se das fábricas papeleiras, vai daí respondem com um manto de fumo impenetrável... o ar que se respirava no Sábado passado em Colonia arruma as picardias entre Portugal e Espanha num chinelo.

Ainda assim, passeámos. Que podíamos fazer? Dentro do hotel cheirava a fumo; fora também. Então, fora. Vamos lá. E fomos.











terça-feira, 22 de abril de 2008

O vento mudou de direcção...

...e por isso não temos tido fumo por cá. Mas os incêndios continuam activos e o fumo, misturado com o nevoeiro, hoje provocou mais uma série de acidentes nas estradas do norte da província de Buenos Aires.

Este post é curtinho: da incredulidade já passámos à resignação e da resignação a uma certa tristeza.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Porcos a voar

Ok. Vamos lá pôr os pontos nos ii . Quem dizia que em Macau só faltava ver porcos a voar que tente viajar para a Argentina. Agora. Quero ver.

Porque é absolutamente inacreditável, aqui vão as fotografias:

Olhando para a direita...

...olhando para a esquerda.

E não. Não é "neblina matinal". É fumo.

Fumo de quê, será que há aqui algum incêndio? Mas não acabou já o Verão? Pois é, acabou o Verão e não há um, mas muitos incêndios. E não são incêndios quaisquer: são queimadas, "quemas de pastizales".

Nas notícias só se fala da interdição das estradas, da visibilidade reduzida a alguns metros, das partículas de dióxido de carbono. Já se insinuou ligeiramente a polarização que se abriu com o conflito entre produtores agro-pecuários e governo. Depois deita-se água na fervura e diz-se que muitos produtores também são contra esta prática. E assim por diante.

A questão fundamental para mim é que as "queimadas" são fogos controlados e pequenos, não são incêndios com emissão de fumo capaz de cobrir uma cidade do tamanho de Buenos Aires. E não é só a cidade, é também uma grande parte da província de Buenos Aires, que, para se ter uma ideia, tem uma superfície semelhante à da Península Ibérica. Imaginem que há um incêndio em Madrid e que se sente o fumo em Lisboa: surrealista, não é?

Pois. Não. Não é surrealista. Aqui acontece.

Quero acrescentar mais uma coisa: o aeroporto internacional de Ezeiza está praticamente encerrado (no ano passado a falta de radares sofreu com o nevoeiro do Inverno; este ano o sofrimento começa já no Outono, com a fumarada! O Aeroparque está encerrado, ou seja, não se sai por via áerea da cidade. Por estrada, também não. Esperemos que não nos estraguem os planos de evasão de barco.