segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Buenos Aires by night (dia 7)

Para retirar as dúvidas surgidas há uns dias atrás sobre o ramo de negócio desta montra, aqui vai a resposta:


Lingerie...


...mais lingerie...


...mais lingerie.

Mas adorei que fizessem a montra com a temática chá das cinco. Adorei.

Buenos Aires by night (dia 6)


Um fenómeno local (talvez regional, porque aparentemente isto também acontece no Rio de Janeiro) é o quiosque de flores aberto durante as 24h.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Para quem acha(va) que eu era fundamentalista...

...ora aqui está a prova de que não sou a mais fundamentalista, há gente bem mais motivada a defender a sua saúde e a do ambiente: a autora deste blog está a abandonar todos os produtos de plástico e conta as suas experiências aqui.

Não sei bem até que ponto tenho vontade ou paciência para lutar contra os plásticos na minha vida (estão por todos os lados, eu seja santa), sobretudo tendo em conta a insistência em lojas (em todas!) em dar-me saquinhos e mais saquinhos e a reacção de surpresa (às vezes negativa) na cara das pessoas quando digo que no hace falta, la bolsa. Por cá, o saquinho de plástico ainda é visto como o supra-sumo da higiene (pão dentro de saco de plástico, perinhas da mercearia dentro de um plástico e de esferovite, garrafas envoltas em dois sacos de plástico "para proteger melhor"... será que nunca ninguém ouviu falar no bom e velho papel de jornal para este efeito?) e não me parece que o paradigma mude tão depressa.

Por coincidência hoje falei com uma amiga (a viver em Portugal) que me contava como nas notícias desse lado do Atlântico se fala nos lacticínios contaminados com plástico. Acreditam que cá isso não é notícia? Não. Cá é a história da carrinha de transporte de crianças que bateu (ligeiramente) noutro carro que, por sua vez, bateu numa árvore. Saldo? Arranhões e carros um bocado amolgados. Mas mesmo assim esta foi uma notícia urgente de abertura de jornal das nove da manhã, com direito a uns dez minutos de antena. Haja paciência.

Buenos Aires by night (dia 5)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Eu, triste

Quando chegámos a casa depois das férias recebemos a notícia de que uma amiga está internada, com um prognóstico bastante reservado. Ainda não tinha escrito nada aqui no "Entre" sobre o assunto, mas hoje estive a escrever-lhe uma carta para ser entregue por uma das poucas visitas que pode receber e decidi-me. O beijinho do I. veio mesmo a jeito para fazer o contraponto. Felizmente nem tudo são más notícias.

Eu, contente


Hoje, na aula de alemão, a minha professora tinha um desenho do filho para me dar.

Nota: gosto especialmente da forma como tenho andado a espalhar o "vírus-beijinhos" e de como os meus amigos estrangeiros já usam essa expressão!

Para quem não conseguir ler, aqui vai: "Um beijinho para a Ana de Portugal".

A "Ana de Portugal" sou eu. :)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O que fiz no fim-de-semana

Avancei o puzzle:

Não parece assim tão avançado, pois não? Mas são 3000 peças, gente, 3000 peças!!! E sem ajuda - até ao momento!

E tricotei:
Estou verdadeiramente a adorar tricotar este cachecol, é lindo e fácil! Tipo "barato e bom", só que lindo e fácil. E a receita é à borla, portanto "barato e bom", de facto. Aliás, "bom, bonito e barato", como pregão de loja do chinês.

Receita, gratuita, aqui.

Mais fotografias do cachecol, aqui.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Día de la Primavera

Foi ontem. E pareceu um dia de Inverno.

Mas este post é para comentar uma publicidade que vi no canal argentino "Todo Notícias" e que consistia em imagens de momentos marcantes da história recente argentina: os agricultores a festejar no fim da crise com o governo (em Julho passado), um concerto da Shakira (em Maio, creio), claques de uma equipa a celebrar a vitória no jogo, a Presidenta a ser cumprimentada por uma personalidade qualquer e mais algumas imagens deste calibre. Em cada uma, aparecia a respectiva data. Depois, ecrã todo escuro e o seguinte texto: "21 de Setembro. Dia da Primavera". Pausa dramática, ecrã todo negro. Novamente texto: "finalmente um dia que todos podemos celebrar em conjunto".

(nota: é possível que não esteja a decalcar palavra por palavra, mas a ideia era claramente esta)

Que dizer? O marketinero da casa diz que a ideia é boa, a execução é má. Para quem não consegue separar assim tão bem as coisas, como eu, é uma publicidade negativa e a roçar o mau gosto. Já para não falar desta coisa de celebrar imensos dias, o do Amigo, o da Criança, o da Primavera, o da Maestra, o da Secretária, o do Jabonero e mais trinta mil efemérides que os argentinos inventaram e que já se tornam irritantes. É impossível lembrar-me de todos e ainda mais lembrar-me de comprar lembranças relativas a cada um deles.

Ironia das ironias, ontem, o tal de dia da Primavera que todos podíamos celebrar, foi um dia frio, triste e chuvoso, em que o que fizemos foi mesmo ficar no quentinho de casa.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

"Pachienchia"...

...diz a minha sobrinha, e com muita razão. O regresso ao ritmo de trabalho tem sido difícil: nos primeiros dias, imensa energia; depois foi decaindo até ao final da semana e nem o fim-de-semana de descanso conseguiu inverter esta tendência. Paciência, portanto, e pode ser que entretanto as coisas melhorem.

Para que este post não seja o mais deprimente da história aqui do "Entre", ora aqui vai a reportagem fotográfica do nosso novo entretém:


Não sei bem se na fotografia dá para ler o número de peças. Não dá? Pois. São 3000.

Eu sou uma puzzleira inveterada e gosto de um bom desafio, mas acho que este aqui foi o verdadeiro "mais olhos que barriga". Alguém cujo nome não vou mencionar insistiu muito para que comprássemos este, grande (ocupa a mesa da sala toda) e com muitas peças. Dado que nesta casa somos só dois e essa determinada pessoa de nome incógnito não fui eu (já estou a dar pistas demais...), adivinhem quem é que tem estado a deslindar o mistério do "onde é que andará o magano do biquinho do A, eu seja santa"?

Buenos Aires by night (dia 3)


Ganha um prémio quem adivinhar o que vende esta loja...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

11 de Setembro de 2008

Escrevi agora um post em inglês no meu outro blog sobre o aniversário que hoje se comemora e acho que acabei de esgotar o que dizer sobre este ataque desproporcionado. Não há palavras que descrevam a estupefacção e o medo com que os que lá não estiveram olharam para os ecrãs de televisão. Não queria, no entanto, deixar passar em branco a data e, também, deixar aqui os meus votos (irreais?) de que o mundo não se transforme num lugar horrível e que continue a ser feito de nuvens brancas e fofas.

Buenos Aires by night (dia 2)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Encuentro de bloggeras tejedoras este Sábado

Há sempre uma primeira vez na vida e esta é a primeira (acho que sim, que é mesmo) que escrevo neste blog em castelhano:


Celes está organizando un encuentro de bloggeras tejedoras este Sábado a las 12h en el Shopping Abasto, acá en Buenos Aires.

Yo voy a ir! Ahora solo tengo que ir a buscar que tejer porque todavía no he comenzado nada nuevo desde el suéter que terminé el Sábado pasado.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Buenos Aires by night (dia 1)

Buenos Aires by night


Uma das ideias que trago para pôr em prática na minha pequena "rentrée" é a de captar e publicar aqui uma série de trinta imagens da cidade de Buenos Aires à noite.

A minha ideia não é original. Outros bloggers fazem séries semelhantes (lembro-me particularmente da SouleMama e do FotoBen) e a ideia parece-me tão interessante que a vou usar aqui com a expressão empregue pelo homem do marketing cá de casa: "share and reapply". Gosto da ideia, gosto do compromisso, gosto de procurar imagens bonitas, gosto do efeito inesperado do erro na fotografia nocturna e quero partilhar tudo isso.

Espero que também gostem.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

De volta


Acabaram-se as férias. Não se pode realmente falar da "rentrée" como em Portugal dado que aqui não houve a tão badalada "silly season" portuguesa, aquela que termina em Setembro quando toda a gente se volta a concentrar nas tarefas habituais. Estamos a voltar ao ritmo de trabalho, a uma "rentrée" pequenininha e só nossa, já que por cá as férias de Inverno já foram nos idos de Julho.

Por agora, estou a elaborar o plano de trabalho para os próximos dias, mais concretamente numa lista de afazeres bem analógica para ter o prazer de riscar as tarefas concluídas. Mais posts sobre as férias, só mais tarde, porque agora a ordem dos trabalhos é outra.

É bom estar em casa. Mas é pena que esteja tão longe.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Quase, quase!

Adeus masmorra!



Olá férias!

Está quase!



Hoje é o último dia de trabalho antes das férias. E o que quer isso dizer? Que tenho uma lista de afazeres que vai daqui até à cozinha e volta. Desbravo diligentemente cada item e ponho-lhe um vistozinho no final, com uma satisfação jamais vista. Cada tarefa cumprida significa um passo mais próxima das férias. Está quase.

Na lista ainda tenho o trabalho de casa do alemão (ui, e isso é coisa para demorar), o que me faz lembrar que recebi o resultado do exame e fiquei muito contente. Este semestre temos um novo projecto: consiste em escolher um tipo de programa num canal alemão e compará-lo a programa análogo na TV argentina. Isto coloca-me sérios problemas, porque:

1. não vejo TV argentina. O mais que vejo são os títulos no canal Todo Notícias. Nos primeiros cinco minutos após a hora certa e os trinta minutos dão os títulos. É o canal menos sensacionalista que está disponível e, citando a I.: "isto não é ler uma notícia". Não. Muitos dos pivôs parece estarem a ler a notícia (mesmo que se trate da matéria mais importante para o país ou o mundo) como se contassem uma fofoca no café.

2. os meus comentários relativamente ao pouco que vejo da TV argentina não são bons. Ou seja, lá vem a (ler depressa) burguesa-capitalista-europeia-paternalista dar as suas opiniões, e, claro está, que do outro lado do Atlântico Norte é tudo muito melhor.

(nota: não acho que a televisão portuguesa seja "muito melhor" mas não tenho dúvidas de que, pelo menos, há opção. E não é tudo "muito mau", como cá. Mas lá estou eu a dizer mal...)

3. o meu alemão não é suficientemente fluente para poder fazer comentários particularmente subtis. O que significa que vou ter de ter cuidado extra para não me transformar num - ainda que simpático - elefante em loja de cristais. Seria chato, "na medida em que se torna maçador", como diz outro amigo.

Vamos lá ver, vamos lá ver...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Hoje é dia 8 do 8 de 2008

Um pequeno apontamento sobre o dia de hoje: começaram os Jogos Olímpicos em Pequim. Sou grande fã dos Jogos, mas pouco fã da censura e repressão das autoridades chinesas. Já não é mistério nenhum para ninguém de que há algo de "podre" lá para aquelas bandas. Mas, para quem quiser, aqui vai um relato bem completo do que se tem passado, num blog da responsabilidade do grupo "Students for Free Tibet". Há muitos outros sites para visitar, entre eles o "Free Tibet".

Uma nota: para quem achar que a informação que estes sites disponibilizam pode ser exagerada, aconselho vivamente a fazer o que já faço há algum tempo, que é ler a mesma notícia em jornais diferentes. Aconselho a Deutsche Welle, a Sky, a CNN e a Al-Jazeera. Vale a pena fazer a experiência.

Boininha para a sobrinha!

Beret_02

Esta semana tem sido muito preenchida com trabalho, portanto nem tenho energia para muitas reflexões nem apontamentos caricatos sobre o que quer que seja.

Mais fotografias da boina aqui.

sábado, 2 de agosto de 2008

Dúvida metódica

Será que há neve?

(vou ver todos os dias!)

Ufa, finalmente é Sábado!

Que semanas têm sido estas! E eu que pensei que por ser Verão no hemisfério norte (onde estão quase todos os meus clientes) teria um mês de Julho mais tranquilo. Não. Aliás: felizmente, não! Tenho tido muito trabalho e muitas horas de computador, daí não andar a ligar grande coisa aqui ao "Entre".

Mas este post é mesmo sobre as coisinhas que tenho andado a fazer quando me afasto do computador... e isso é que é divertido!



Puzzle terminado. O Paulo colocou a última peça (e a maioria das outras peças antes da última, há que dizê-lo). Este puzzle deve ser dos meus preferidos de todos os tempos e já foi a terceira vez que o armei. As outras duas foram com a Bau, que teve a mega-amabilidade de o mandar para cá para preencher os nossos serões de Inverno! O puzzle é o "life of the party", marca Springbok. As peças são totalmente malucas, com formas completamente diferentes. Com o puzzle terminado, podemos pegar por uma ponta e ele não se desfaz. Uma maravilha da técnica!

(E, para quem possa estar a estranhar a terceira montagem do puzzle, a tradição por cá é a seguinte: fazer o puzzle; para o arrumar, parcelá-lo em "folhas" do tamanho da caixa, ou seja, não o desmontando; quando apetece voltar a fazer, desmancha-se todo e volta-se a montar. Maluquices nossas!)

Outra coisa terminada é a camisola verde.

Green sweater_07

http://flickr.com/photos/airdesignstudio/2725573527/sizes/s/in/set-72157606507923291/

Green sweater_06A camisola verde foi feita com esta receita: Purl Soho´s Child Placket Sweater. Tenho ali ainda um rosa velho e um amarelo, para mais duas camisolas iguais.

Esta camisola serviu de treino para várias coisas: primeiro, para fazer camisolas em agulhas circulares e não ter de coser os lados. Estas agulhas, para além de pesarem muito menos, distribuem o peso da camisola e cansam muito menos os pulsos, particularmente útil para quem passa dias a fio sentada ao computador e tem tendência para arranjar as detestadas "ratites". Por serem pequeninas, estas agulhas também são práticas para viajar, ir a cafés e restaurantes (enquanto espero pela mesa).

A camisola também serviu de treino para a camisola que hei-de fazer para o meu/a minha sobrinho/a que está para nascer. É verdade, sim senhores, vou ser tia pela segunda vez e estou a adorar! Ainda por cima porque para a Carolina não tricotei nada em pequenina (tricoto-lhe agora!); mas para o segundo já me encomendei uma camisolinha a mim mesma. Estou, portanto, a aperfeiçoar a minha técnica.

Se, de repente, der a algum leitor deste blog a macacoa e tiverem uma vontade súbita de ver mais fotografias desta camisola (quem souber quantas lhe tirei ainda acha que é um monumento, mas não!!), ora faça o favor de se dirigir aqui.

Mas nem só de tricô se fizeram estes dias. Também frequentei um workshop de Encadernação sem adesivos na Papelera Palermo. Hoje estive alegremente a tirar fotografias aos livros e sou capaz de me ter entusiasmado um pouquinho no processo. Ora vejam: há fotografias do primeiro livro, aqui; do segundo, aqui; do terceiro, aqui; do quarto, aqui e de todos juntinhos, aqui.

E estas, só para aguçar o apetite:

All books_01

All books_04Mnham, mnham! Parece uma salada de frutas!

Enfim, posto isto, acho que posso despedir-me com a sensação de dever cumprido (impingi fotografias que não interessam a ninguém!).

Hmmm.... obrigada? Voltem sempre?

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Workshop de estampagem oriental: técnicas batik, shibori e tritik

"Megamendun é um Batik Tradicional de Cirebon, cidade costeira de Java, que tem fortes influências chinesas, indianas e árabes. Como fui criada na China, escolhi o Batik que dizia respeito a China", disse-me a Leonor, justificando-me a escolha deste trabalho, feito por ela.

A minha amiga Leonor (é tão bom puxar dos galões e dizer que a formadora deste workshop é minha amiga!) vai dar este workshop de estampagem oriental no novo Museu do Oriente, nos dias 19, 20, 27 de Setembro e 4 e 11 de Outubro. O workshop compreende sessões teóricas e práticas e podem ver mais detalhes do programa aqui.

Tenho pena de não estar em Portugal porque senão lá estaria! A Leonor sabe muito das técnicas (estudou-as na Indonésia), explica-as muito bem e faz uns trabalhos lindos.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Leituras

Em matéria de leituras ando muito preguiçosa. Não sei qual a razão (hmmm... cansaço?), mas quando chego à cama, lugar privilegiado para as minhas leituras quando não estou de férias (quando estou de férias, é sempre e em toda a parte), estou tão exausta que a única coisa que consigo fazer é apagar a luz e adormecer. Por isso, não tenho lido praticamente nada, nem sequer revistas. Muito atípico.

Por isso, coloco aqui um link para algo que vou experimentar para contrariar a tendência da não leitura: é um sítio onde há ficheiros de música com a leitura de livros (audiobooks; há palavra em português?) cujos textos já estão no domínio público. A leitura é feita por voluntários e, como tal, os ficheiros são gratuitos. Vou começar a ouvir "Little Women", de Louisa May Alcott, enquanto trabalho ou tricoto. Depois falarei da minha experiência. Não espero que se estabeleça uma relação como quando há um livro entre mãos, mas não nego à partida uma ciência que desconheço.

Encontrado via Sticks and Strings.

Mais sobre o acordo ortográfico

A Ahimsa, comentadora habitual deste blog, deixou um link que me parece ser útil e que no comentário não está a funcionar. Por isso, ponho-o aqui. Trata-se de uma explicação sobre as principais alterações previstas pelo acordo e contém também uma hiperligação ao documento completo e está aqui.

Faltou-me o agradecimento necessário: obrigada, Ahimsa!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A tal coisa da pátria ser a nossa língua

Recebi um mail curioso com o título "A minha pátria é a língua portuguesa". É um desses emails que convidam a ir assinar uma petição que protesta contra qualquer coisa, desta vez sobre a implementação do novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Não sendo linguista nem especialista no assunto, tenho uma opinião. Bem, é óbvio que é uma opinião e mais nada, mas quem aqui vem já sabe que lê as minhas opiniões e que elas podem ser tão palermas como outras quaisquer. Ou não, sabe-se lá.

Pois bem, sobre esta matéria, devo dizer que acho um perfeito disparate de repente o português de Portugal (chamemos-lhe "europeu", como também lhe podemos chamar "lusitano"; esta distinção só serve mesmo para isso, para o distinguir) se transformar-se em português do Brasil.

Atenção, não estou aqui a advogar a superioridade do português europeu (que, curiosamente, para mim está do "outro lado do Atlântico") nem da inferioridade do português do Brasil. E sim, bem sei que é um acordo entre todos os países da CPLP, mas chamemos os bois pelos nomes: a questão cinge-se a - praticamente - só estas duas variantes, a portuguesa e a brasileira. Retomando, não estou a advogar a superioridade de uma em relação à outra variante. Apenas acho que não é por de repente em Portugal termos de escrever "úmido" sem "h" ou "fato" sem o "c" que os brasileiros nos vão entender melhor.

Separemos aqui as águas: um brasileiro que leia palavras como "adopção" sabe perfeitamente do que se trata, tal como um português que leia a palavra "adoção". O que um brasileiro, regra geral, não entende é quando um português fala com o seu sotaque habitual: fechado e sibilante. Ora o acordo não prevê a alteração da fonética, ou prevê? Ainda que preveja, lamento, mas não vou dizer "fato" quando quero dizer "facto". Para mim são coisas bem diferentes.

A questão prende-se com a grafia (dado que é um acordo ortográfico). Hoje em dia há editoras em Portugal que escolhem "adaptar" para português europeu livros escritos originalmente em português brasileiro. No Brasil, o caso é igual. Para quê, se a grafia também confere carácter ao texto? Sobretudo sabendo que os falantes de cada uma das variantes nacionais reconhece a outra e entende perfeitamente o seu significado.

No fundo, tudo isto me parece apenas uma questão política: enquanto que Portugal tem pouco mais de 10 milhões de habitantes, o Brasil tem mais de 186 (dados da wikipedia; mesmo que não estejam correctos, o que não me parece, a diferença é sempre substancial). Que Portugal queira assinar um acordo ortográfico que muda a sua grafia para ficar igual à brasileira, para mim não passa de uma manobra política: assim todos falamos a mesma grande língua, sem variantes nacionais, dado que todos vamos escrever (oficialmente) da mesma maneira. É como ter um pequeno Portugal à frente de todos os outros países de língua oficial portuguesa. E não há muita paciência para revivalismos! A língua já é a mesma, com as variantes nacionais e regionais de todos os países que a partilham. A meu ver, estas variantes enriquecem a língua e estar a unificá-la, pelo contrário, empobrece-a.

Para mim, Portugal fazia bem melhor em aumentar a sua presença no Brasil, para deixarmos de ser todos Marias, Manéis, padeiros e parolos. E para ver se os brasileiros passavam a entender-nos quando falamos, tal como nós os entendemos a eles. E atenção: esta não é uma crítica à falta de ouvido dos brasileiros. É, sim, à incapacidade de Portugal de se representar culturalmente com força no estrangeiro, nomeadamente no Brasil.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Tanto e tão pouco que contar

Nesta terra ao sul do sol posto passam-se muitas coisas. E, no fundo, é sempre a mesma. O ambiente está quente: literal e metaforicamente. Hoje tivemos um dia de fim de Primavera, com a temperatura a chegar aos 26º. Talvez mais, não controlei. Aproveitei para pôr o estendal lá fora e ver se a roupa seca.

O estendal é, pois, o fio condutor: pu-lo na varanda porque hoje, ao contrário de quase todos os outros dias, não há muito trânsito. E porquê? Porque hoje, mais uma vez, houve manifestações. Fecharam ruas (artérias principais da cidade) e lojas, bancos e serviços fecharam ao meio-dia.

E sim, tudo isto por mais manifestações. Desta vez, duas. E grandes. Uma convocada pelo governo. Outra pelos produtores agro-pecuários. Também vos parece que se trata de uma medição de forças? Como quem diz: uma comparação de comprimentos de certos apêndices? Ou quem tem o carro mais veloz?

Pois.

Já lá vão quatro meses de conflito entre uns e outros, com greves, faltas intermitentes de abastecimento de alimentos, tendas em frente ao congresso, muitos cartazes, muita propaganda, muita demagogia, muita tinta, muita conversa e muita discussão. Ardente. Acalorada. Nunca vi ninguém polarizar-se desta forma só por o interlocutor pensar diferente. Quem não pensa igual é imediatamente "energúmeno". Para mim, esta situação roça o inacreditável num país que, como a Argentina, tem tudo: gente, capacidade, terra.

Não sei que contas se vão fazer no fim do ano mas acho que o PIB argentino vai sofrer um duro golpe. E tudo isto por teimosia.

Custa.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Bolívia parte VII: Sucre



Este relato da viagem à Bolívia tem-se estendido demasiado, mas hoje termino-o contando a nossa visita à cidade de Sucre, a capital judicial do país.

Sucre está a "apenas" 2800m sobre o nível do mar, o que lhe confere um clima muito mais aprazível que nos anteriores pontos de viagem: a temperatura esteve entre os 7ºC e os 27ºC, mais coisa, menos coisa, e pudemos finalmente andar de T-shirt, pelo menos algumas horas durante o dia. Senti-me feliz por não ter frio, sobretudo ao ler nas notícias que a Argentina estava debaixo de uma onda de frio polar com temperaturas negativas até em Buenos Aires. Brrrr. Depois de Uyuni, acho que fiquei com alguma aversão ao frio.

Plaza 25 de Mayo em Sucre, província de Chuquisaca, Bolívia.

Em Sucre, tal como o tempo mais ameno, também a cidade é mais cálida. No centro histórico os edifícios são quase todos brancos e estão bem cuidados. Foi lá que Simón Bolívar deu o grito da Liberdade e manifestou a vontade de independência das colónias espanholas na América Latina. Por esta razão, Sucre é conhecida como sendo o Berço da Liberdade, embora a independência da Bolívia só tenha chegado uns quantos anos mais tarde, já depois da Argentina, pelo menos.

É uma cidade muito bonita, sobretudo tendo em conta que as cidades que visitámos não são propriamente exemplos de um urbanismo bem conseguido; Sucre, em contrapartida, e apesar de algumas favelas nos seus arredores, tem uma atmosfera mais democrática e aparenta ter uma riqueza mais bem distribuída que, por exemplo, em La Paz. Se tudo isto não contribuísse para que a cidade fosse já bastante atraente, esta é também a capital boliviana do chocolate e por isso há chocolatarias em todas as esquinas. Não é chocolate suíço, mas dá para alimentar a alma (e a gula).

Na praça principal, a 25 de Mayo, está a casa da Independência, edifício onde, em 1825, foi assinada a Declaração da Independência. Tal como tantas outras casas coloniais, tem pátios, vários, todos bonitos. Aqui neste edifício está também a primeira bandeira argentina.

O nosso hotel, também localizado na praça principal, tem esta sala de refeições. E ninguém acreditaria se eu falasse sobre o pé direito do nosso quarto!

Mas esta foi a última visita desta manhã; antes disso havíamos estado no Museu da Recoleta, alojado num convento, e no Museu Têxtil ASUR. A visita ao convento foi feita em contra-relógio, dado que as horas das visitas regem-se em função do horário dos frades que ali vivem. Embora hoje as suas funções sejam a religiosa e de museu, este edifício já foi também caserna e prisão, e aqui foi assassinado um dos (muitos) presidentes bolivianos, ao segundo ou terceiro dia a exercer funções. É caso para dizer que ser presidente na Bolívia é uma profissão de risco, pois foram vários os presidenticídios na história do país (existe a palavra "regicídio", porque não há-de existir a esta também?). Os claustros deste convento não mostram quaisquer indícios desta história atribulada: têm fontes no centro e canteiros com flores bem cuidadas, lindas, coloridas e perfumadas. Naquela atmosfera silenciosa, estes jardins são edénicos.

O Cedro Milenario, à beira da horta dos frades.



As flores nos claustros do convento.

Saindo do convento dirigimo-nos ao ponto alto de Sucre: o Museu ASUR, de artes têxteis, um museu absolutamente imperdível. Mais uma vez, uma casa do estilo colonial, com pátios, onde oferecem mates de coca e água aos visitantes. Lá dentro estão as peças produzidas por duas tribos indígenas que vivem na província de Chuquisaca, da qual Sucre é a capital. A lenta agonia da tradição têxtil andina foi contrariada com um projecto de uma equipa de antropólogos, que aos poucos soube reavivar as práticas têxteis e fazer com que as mulheres voltassem a ter um papel na estrutura da tribo. Com a modernização dos anos 80, as tribos aymarás e quíchuas foram perdendo as suas características próprias e as tradições foram morrendo com as gerações mais velhas. Este grupo centrou-se em duas tribos com características distintas e hoje o museu tem uma importante mostra - com as devidas explicações - de peças produzidas por elas. São peças absolutamente magníficas, tecidas em teares especiais, por dedos que parecem dançar em cima das linhas da trama.

Deste Museu saímos de carteiras mais leves, mas felizes com a compra de um obra de cada uma das tribos. Resta saber onde vamos ter parede para as pôr, mas isso é absolutamente secundário... algum dia teremos uma casa linda e grande (não enorme, apenas grande o suficiente para pendurar estas obras que vamos juntando) onde poderemos mostrar tudo.

Pátio do Museu ASUR, com a fonte no centro.

No centro, depois da visita à Casa de la Libertad, fomos ainda ao Parque Bolívar, uma zona que antigamente era privada mas que foi doada à cidade e aberta ao público. Está mesmo em frente ao Tribunal Superior de Justiça do país e é mais um dos muitos encantos locais.

Parque Bolívar, um oásis verde numa cidade branca.

O resto do tempo passado em Sucre foi a explorar bons cafés e restaurantes (El Huerto é o lugar para o almoço de Domingo) e a vaguear pelas ruas brancas. Com o pôr do Sol vem também o frio, que nos levou a beber um copo de Glühwein no bar alemão, o Kulturcafé Berlin.

Autocarros na Bolívia: o paraíso da designer gráfica e ilustradora que vivem dentro de mim.

Foi já com a sensação de fim de férias que fomos para o aeroporto de Sucre, prestes a apanhar o voo para La Paz. Na madrugada do dia seguinte, levantámo-nos antes das galinhas e regressámos a casa, em Buenos Aires.

Sábado de Alegria



Temos tido uns dias cheios de eventos sociais. Já diz o ditado: não há fome que não dê em fartura! Depois de tanto tempo de isolamento e quase reclusão por estas bandas, agora a nossa vida social anda muito mais rápida do que eu. Entre casamentos em Santos e jantares com portugueses cá em Buenos Aires, temos também o "casamento-no-mesmo-dia-que-o-Cirque-du-Soleil". Foi no passado Sábado: mascarámo-nos de gala e fomos à Igreja ver os noivos trocar as alianças; saímos e fomos para a tenda do Cirque, na Costanera Sur. Vimos o espectáculo (e que espectáculo!) e saímos para jantar, dado que no casamento a refeição já tinha sido servida. Depois de jantar (e com isto já passava da uma da manhã - e lembrem-se de que à noite tenho menos energia que uma aposentada depois de uma vida inteira de trabalho) fomos para a festa do casamento, onde estivemos a dançar até não dar mais.

E não deu mais pouco tempo depois.

O dia seguinte, tal qual um epílogo pós-desenlace, foi passado em absoluta vegetação entre sofá e chaise-longue, a tricotar e a ver televisão.

E assim pude terminar a minha primeira meia tricotada:

O problema de tricotar meias é que é preciso fazer outra igual...

O primeiro já está!



E não é que nos entusiasmámos mesmo? Numa semana terminámos o puzzle! E devo dizer que foi bem engraçado de se fazer: peças bem cortadas e com um acabamento pouco brilhante (especialmente aconselhável quando se trabalha com luz artificial), uma pintura não só bonita mas também cheia de detalhes interessantes para transformar em puzzle.

Venha o próximo!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Com o Inverno vêm os puzzles!

Diz que o Inverno chegou para ficar (pelo menos uns 3 meses, talvez mais), de maneira que chegou a altura de nos dedicarmos alegremente a fazer os puzzles que cá temos. Primeiro, este, oferecido pelo M.

Entusiasmamo-nos de tal forma que, em apenas uma sessão de "trabalho puzzlístico" ficou assim.

O próximo já está na calha...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Bolívia parte VI: visita às minas de Potosí



A visita a uma das minas do Cerro Rico, em Potosí, não foi uma experiência feliz. Que não pensem que não gostei: gostei. Mas é algo verdadeiramente impressionante: a pobreza, a falta de higiene básica, as condições de trabalho, a qualidade do ar, tudo é extremo e miserável naquela vida de mina. Aos sete anos de trabalho da mina, quase invariavelmente as pessoas adoecem e em todas as famílias há alguém que está acamado ou já morreu por complicações daí derivadas.

A visita começa com o juntar do material: impermeáveis para pôr em cima da roupa, botas, capacetes e a luz. Daí, vamos para o mercado. Para que serve esta ida ao mercado? Para comprar presentes para dar aos mineiros.

A mina é explorada por cooperativas e cada mineiro vende aquilo que extrai. Uma das formas que encontraram para aumentar os seus (magros) rendimentos é abrir a mina ao turismo, coisa que se transformou numa indústria paralela à extractiva.

Qualquer pessoa em seu juízo completo vê aquelas condições de trabalho e pensa duas vezes: por isso mesmo vamos ao mercado comprar folhas de coca, que serve de combustível geral - e, paradoxalmente, para entorpecer - quem lá trabalha.

Para além da coca, compramos também álcool e um refrigerante. O álcool é a 96º, ou seja, álcool de desinfectar feridas, só que potável e com um ligeiro sabor açucarado. Há quem o beba assim, directamente da garrafa. Mas com a ajuda do guia (aliás, o guia, perante o nosso olhar atónito), lá se faz uma mistura com refrigerante, que vamos distribuindo aos mineiros que vamos encontrando.

Antes de entrarmos na galeria da mina, conversamos um pouco com quem está a descansar ao sol, a mascar coca e a beber (claramente para esquecer). Têm vinte anos ou menos e todos aparentam ser mais velhos que eu. Provavelmente não chegarão aos 30, certamente não chegarão aos 40, segurissimamente não terão nunca 50 anos.

E entramos no buraco escuro.



Os olhos habituam-se progressivamente à fraca luminosidade proporcionada pelo candeeiro empoleirado no capacete e lá vamos progredindo, umas vezes de pé, outras quase de joelhos, com muitas cabeçadas ("capacetadas") nas paredes e no tecto das galerias. Aos nossos pés, às vezes há rios de uma água laranja que só pode ser tóxica. Do tecto pendem cristais de arsénico, responsável por muitas das doenças dos mineiros. Tirar fotografias é quase inútil: as partículas de pó em suspensão reflectem a luz do flash. Para quê tirar fotografias se aquelas imagens nunca vão conseguir sair da minha cabeça?

Quando encontramos mineiros, sentamo-nos a conversar com eles, damos-lhe folhas de coca e também mascamos folhas de coca. A seguir, fazemos o inevitável brinde com a bebida carregada de álcool a 96º: o primeiro sorvo é para a Pachamama, e por isso devemos entorná-lo para o chão (deixem-me acrescentar aqui que a Pachamama bebeu sempre grandes quantidades do meu copo, já que eu tratava sempre de entornar mais que de beber).



Se cá fora está Deus, lá dentro está o Diabo. E é ao Diabo que é consagrado o altar mais imponente. Chamam-lhe "Tio", para não atrair a má sorte, e tratam-no como se de um deus se tratasse: tem direito a brinde, a cigarros e a folhas de coca. Tem forma antropomórfica, botas e luvas de mineiro, e um descomunal pénis erecto, para que ninguém esqueça a sua condição humana.

A claustrofóbica que vive em mim já estava desejosa de rever a luz de dia, de beber água e de lavar as mãos e foi com alívio que vi o guia encaminhar-se no sentido que eu pensava ser o da saída.

Cá fora, respirei com imensa alegria o ar rarefeito dos 4200m acima do nível do mar.

Bolívia parte V: Potosí

O relato da viagem à Bolívia tem-se prolongado mais do que devia mas tudo se deve a muito boas causas: não só tivemos visitas cá em Buenos Aires, como também tivemos o casamento dos nossos amigos no Brasil. E, claro, muito trabalho. Nem por sombras me estou a queixar, já que convívio é sempre agradável (ainda por cima, deu para "praticar" português!), mas como consequência o relato da Bolívia tem-se arrastado mais do que devia.

E, para atacar directamente o "problema", ao relato regresso, no ponto em que estávamos: Salar de Uyuni, frio, terra no meio do nada, muito vento, paisagem maravilhosa, piquenique à beira do salar, na encosta de um vulcão, flamingos no cenário, melhor excursão da minha vida.

No dia seguinte deixámos Uyuni para trás, no mesmo jipe da viagem ao Salar, pela estrada que estava marcada no mapa. Sim, no mapa, mas, no terreno, de estrada tinha muito pouco. Era o sítio onde um dia irá estar a estrada, para sermos mais rigorosos. Uma viagem de 200km até Potosí levou cerca de 6 horas a fazer. Fez-me lembrar, em alguns momentos, aquelas longas, longas viagens até ao Algarve ou até à Capinha, em que subíamos e descíamos serras, vencendo infinitas curvas e moendo a paciência aos nossos pais com o inevitável Ainda falta muito?



Nesta viagem, só por vergonha não perguntei mais vezes se ainda faltava muito, sobretudo porque aquela futura-estrada não era a melhor amiga da bexiga mais robusta do mundo. Sem estrada, é claro que estação de serviço também não havia; em contrapartida, havia hectares e hectares de casa de banho, protegidas por biombos de cactos, árvores de flores vermelhas e a ocasional llama mais curiosa.

A paisagem à beira do caminho era de cortar a respiração: pequenos regatos congelados pelo frio da noite, llamas com flores nas orelhas (servem de identificação), montanhas de cacau, pó no ar e vento, sempre o vento. No meio do nada, erguia-se uma pequena aldeia construída com tijolos de adobe, mimetizando-se totalmente com a paisagem. Quem viveria ali no meio do nada? À beira daquele caminho que nem sequer era estrada? Onde haveria água para os abastecer?







A exploração mineira é a fonte de riqueza daquela zona e a razão para o estabelecimento daqueles povoados. Os maiores, mais perto das minas, são também muito completos com cinemas e campos de pelota basca (nem sequer sabia que se jogava pelota basca na Bolívia, mas parece que sim. E aqui na Argentina também há o ocasional campo!). Numa das curvas do caminho, o guia aponta-nos para uma montanha, igual em aspecto a todas as outras, e diz-nos: "esa montaña es Cerro Rico y atrás está Potosí". Não mais tirei os olhos da montanha: detrás, tinha o aspecto de todas as outras, cacau que voa com o vento. Quando vemos a encosta onde se estende Potosí, aí sim: a montanha está totalmente esburacada e desfigurada. A única coisa que eles não alteram é o contorno exterior que se vê da cidade. Fora isso, são estradas, acessos, caminhos, casas, tudo ao serviço da extracção do minério.

Potosí é uma cidade colonial com um centro histórico muito bonito e muito bem separado da parte onde viviam os locais. A cidade espanhola tem muralhas e entradas e o acesso era restrito: entravam espanhóis e crioulos; os nativos só durante o dia, penso eu, e para ir fazer comércio. De resto, tudo separado. Em Potosí, mais que em qualquer outro lugar que visitámos, nota-se bem a pirâmide social do tempo da colónia: os espanhóis no topo, a seguir crioulos, depois as pessoas separadas de Espanha por mais gerações, as llamas e, no finalzinho, os aymará e restantes tribos nativas. Sim, estavam abaixo das llamas... Depois dos aymará - ou seria ao mesmo nível? - os escravos importados de África para explorar a mina.

Toda a cidade gira à volta da mina, de onde se extrai prata. Hoje em dia tem uma universidade e uma grande população estudantil que consegue fugir ao destino de mineiro, destino certo para quem não tem posses ou outra alternativa para alimentar a família.

Na cidade colonial visitámos a Casa da Moeda, uma construção enorme (para a escala local) que serviu de fábrica de cunhagem de moeda e que hoje alberga um museu multidisciplinar. Lá há de tudo, como na feira. Tivemos algo de azar com a pessoa que nos fez a visita guiada lá: parecia zangada com toda a gente em geral e com os turistas em particular. Não se cansou de repetir, como se a culpa fosse especificamente de quem a ouvia, que o mundo ocidental (a Espanha, principalmente) tinha vivido e enriquecido à custa da prata de Potosí, extraída à custa de muito sofrimento humano. É claro que ela tem toda a razão no que diz, mas a forma como o diz pareceu-me um pouco fora de tudo. Desubicada é o novo termo oficial.

Segundo pátio da Casa da Moeda de Potosí.

Portão de entrada para uma das "casonas" coloniais, hoje divididas em muitas pequenas casas que funcionam como um condomínio quase fechado, só que de gente sem dinheiro.



Ruas e esquinas de Potosí.

Mercado de Potosí.

Quando perguntámos ao "nosso" guia, o que nos tinha levado ao Salar, se havia muita animosidade dos bolivianos em relação a Espanha, respondeu-nos de forma muito clara: "Com Espanha? Não. Com o Chile, que nos tirou o acesso ao mar." E isto fez-me pensar em quando tenho uma dor de cabeça que passa quando a dor de barriga é muito maior e me distrai da primeira dor.

Em Potosí sentimo-nos num hotel de luxo, de vinte e quatro estrelas, pelo menos, porque tinha aquecimento central. E sim, era bem necessário, porque o gelo que se forma durante a noite nas ruas não chega a descongelar durante o dia, apesar de as temperaturas subirem até aos 15ºC. Ao jantar, pudemos comer num restaurante aquecido e entrar na internet sem gorro na cabeça.

Um dos três pátios do nosso hotel. Estão a ver a fonte no meio? Lá dentro, a água está congelada!

Mas a grande experiência de Potosí seria no dia seguinte: a visita à mina.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Pé-de-moleque

Na revista da companhia aérea em que viajámos vinha um artigo sobre o "pé-de-moleque". Eu nunca na vida iria adivinhar o que era, nem vendo a lista de ingredientes (certo, poderia desconfiar, mas certezas não teria): raspadura, amendoim e mais qualquer coisa que não recordo. Felizmente havia fotografia.

Ora bem, agora enuncio os ingredientes em português lusitano: mel e amendoim (e talvez mais qualquer coisa mas realmente não sei).

Mais dicas: em Lisboa, como este doce na Feira do Livro, subindo e descendo os passeios do Parque Eduardo VII. Ainda não? Hmmm... comê-lo é uma prova de resistência dentária - e é certo que alguma pelinha do amendoim fica agarrada aos dentes.

Ainda não? Ora bolas, é o nosso nougat!!!! (e digo esta palavra francesa bem à portuguesa: "nôgá")

O que é curioso nisto tudo é que já tinha tentado explicar à minha amiga carioca o que é que era típico em Portugal nesta altura do ano, a par da sardinha assada e do cheiro a manjerico. Com nougat não chegámos lá. Agora já sei que o pé-de-moleque é típico das festas juninas (a que nós chamamos "os Santos") e que tem variações conforme a zona do Brasil em questão.

Afinal sempre se aprendem coisas novas nas revistas de avião!

Atrasos

Estou claramente atrasada no meu relato da viagem à Bolívia. Entretanto, já fomos a Santos, uma cidade no litoral do estado de São Paulo, no Brasil. Foi uma visita de médico, uma viagem-relâmpago, para assistir ao casamento de um amigo. Foi muito bom voltar ao Brasil, ainda que por pouco tempo, e ver casas à portuguesa, com telhados à portuguesa, calçada portuguesa, comer croquetes e eles saberem a Portugal e falar português o tempo todo. É certo que nem sempre nos entendem e que temos de forçar um pouco a abertura das vogais nas palavras, mas a língua continua a ser a mesma.

Que bom é estar no Brasil.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Telegrama

Uma mensagem bem curtinha:

Nunca estive em África, mas neste post a minha amiga F. conseguiu ser bastante colorida nas suas memórias da viagem à Guiné-Bissau. Dicforte, não queres ir ler?