quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dias de chuva

Cá, os dias de chuva são assim:

Dias de chuva I

Cinco minutos depois:

Dias de chuva II

Vejam a vista da varanda: felizes e contentes com uma nesguinha de céu azul...

Cinco minutos antes

...e cinco minutos depois é este o panorama:

Cinco minutos depois

Entre Abril e Dezembro, este espectáculo é diário, às vezes com mais que uma sessão por dia.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Há sempre "alguito" que contar

Cada vez que necessito recorrer aos correios panamenhos saio da estação com material para mais um episódio da grande, recorrente e repetitiva telenovela subordinada ao tema "podia ser fácil mas por que não ser difícil".

Precisava enviar duas cartas. Duas. Não precisava de pagar o apartado, nem pagar contas, nem levantar a minha reforma, nem nenhuma remessa de dinheiro. Duas cartas, nada mais. Quando cheguei, às onze da manhã, tinha oito pessoas à minha frente. Já sei que cada pessoa leva, mais coisa menos coisa, dez minutos a ser atendida. Prometia.

Apesar das oito pessoas à espera, em pé, só havia um balcão a funcionar. No fundo, vários funcionários trabalhavam (ou não) e atrás das caixas de apartado ouvia-se muita converseta. Esperei e esperei; a fila ia-se movendo, muito lentamente. No Panamá, os reformados têm prioridade no atendimento público, por isso, quando chegou um senhor de cabelo branco (que seria atendido depois de mim), foi atendido à frente dos restantes clientes, que continuavam pacientemente à espera.

Às tantas, apareceu um senhor semi-executivo, cheio de pressa. Amigo da chefe de estação, de agora em diante conhecida como generala, chamou-a e ela veio, toda querida e simpática. O senhor precisava de pagar o apartado, e não tinha muito tempo, ao que ela prontamente respondeu que não se preocupasse. Foi buscar a ficha dele ao arquivo, recebeu o dinheiro, prometeu-lhe o recibo entregue no respectivo apartado e que não se preocupasse. O homem, recado despachado, abalou.

E nós à espera.

Fui ao balcão e dirigi-me à generala, para com muito respeito dizer que não era justo que atendesse o senhor quando nós estávamos ali todos à espera havia vinte e cinco minutos, já para nem falar do facto de haver só uma pessoa a atender e tantas no trabalho de bastidores.

A generala, que não gosta de ver a sua liderança contestada, ficou uma fera: que não tinha atendido o senhor coisa nenhuma, mi amor, que não podia ter mais gente ao balcão porque a estação estava em remodelações, mi amor, eu que lesse os letreirinhos todos (ela usou o diminutivo), que sempre que lá ia tinha "alguito" que dizer, que eles até me tinham oferecido o apartado, mi amor.

Na fila, ninguém dizia nada. Eu, se há coisa que deveras aprecio é que me tratem com condescendência e me façam de parva: que ninguém me oferecia absolutamente nada e que eu pagava o apartado; que via o funcionário a atender em mais que um balcão, só que só havia um funcionário para três guichets, e que finalmente se eu tinha "alguito" que dizer era porque ela estava ali para me prestar um serviço que eu pagava e que se o serviço não era bom eu tinha todo o direito de fazer uma reclamação.

A troca durou uns minutos mas depois tive de me ir embora porque tinha outro compromisso. Quando voltei, o funcionário que me atendeu foi ainda mais amável do que é habitualmente. Acho que lá na estação alguém ficou contente por ver a déspota a ser posta no seu lugar.

Chego à conclusão de que cá no Panamá o que importa é quem fala mais alto. E que muito pouca gente ousa falar.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Encontros e ervilhas

Desde que nos mudámos para este prédio onde vivemos que os elevadores têm sido palco de muitos encontros curiosos. Um deles, num dia em que levava a bicicleta comigo, foi com um senhor muito castiço, seguramente com idade para ser meu pai, de cabelinho muito branco, muito magrito e muito bem disposto.

Com uma bicicleta no meio, a conversa de circunstância andou à volta desse assunto. Assim me contou ser holandês, dividir o ano entre o Panamá e a Holanda e ter saudades de ser ciclista durante as suas estadias tropicais.

E, a partir daí, sempre nos cumprimentámos e trocámos umas palavras, ou em inglês ou em espanhol. O tempo, a bicicleta, o café do lado, tudo servia de assunto para a nossa curta converseta.

Na sexta passada, após um ano e meio de encontros de elevador, este senhor conta-me que em Abril volta à sua Holanda natal para um casamento de um familiar, e também para aproveitar o Verão europeu.

Como eu desconheço Verão europeu mais bonito que o português (sei que a minha idoneidade na matéria é absolutamente discutível, mas obviemos isso), disse-lhe exactamente isso. Ele achou curioso que eu soubesse como era o tempo em Portugal... até que lhe contei que era portuguesa.

Foi uma alegria! Não é que o senhor viveu onze anos em Lisboa, no mesmo bairro e tudo? E viemos nós cruzar-nos no Panamá.

O mundo é uma ervilha, está visto.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

E agora, algo totalmente diferente

Quilt top

O meu primeiro quilt! Ainda não está terminado, mas tem sido a minha diversão de fim-de-semana (isto é, depois da praia).

Quilt top, up close and personal

Digamos que não tornei a minha vida mais fácil ao escolher, para primeira tentativa, um esquema que pede alinhamento horizontal e vertical, mas, apesar de todos os seus pequenos defeitos, amo de paixão esta colcha linda que está a nascer. É a minha primogénita, e dizem que não há amor como o primeiro!

Quilt top

Ainda o quilt não está terminado e já fica tão lindo no sofá! Não que seja o objecto mais necessário num país tropical, convenhamos, mas um dia destes havemos de nos mudar para uma latitude mais alta e aí, sim, será usado.

The back

Gosto tanto dele, que até o avesso me parece interessante - algo reptiliano, talvez? Ou como escamas de peixe... enfim, desvarios de uma "costureira"* apaixonada, é o que é.

(*"Costureira" merece umas enormes aspas, porque eu não sou mais que uma principiante. Que gosto, gosto sim senhores. Agora daí a ser costureira... falta.)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Desenvolvimentos

Antes de mais, quero agradecer todos os comentários ao post anterior. Respondi a todos, lá mesmo ao lado. Também já fiz reclamações junto da recepção (sim, o edifício tem-na) e da administração (idem).

A conversa na administração foi interessante. A senhora, muito compungida, disse-me que estava de acordo comigo mas que tinham ordens da Junta (a comissão de moradores) para não autorizar a utilização dos elevadores principais por "empregadas e animais". Claro, perguntei-lhe se não achava ligeiramente idiota manter as pessoas à espera, no rés-do-chão, só porque a dita Junta não autoriza. "Es que después nos regañan, señora", explicou-me.

Aqui, tive de lhe dizer que me parecia muito estranho que eles tivessem medo de receber uma reprimenda por fazer uma coisa justa e normal. Continuo sem entender isso, mas a discussão aqui sai sempre no mesmo: a ordem vem de cima e que depois recebem uma repreensão. Não entendo: não pensam? Correm o risco de despedimento? Que será?

A nossa empregada, que se tem revelado um autêntico braço direito, uma colaboradora fantástica, já está instruída: da próxima, usa o intercomunicador para me chamar. Quem ousar proibir que ela suba comigo no elevador vai ter a vida bem difícil.

Haja paciência...!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Coisas às quais não me consigo adaptar

No fim-de-semana passado estivemos a ver o filme "The Help", que conta as muitas histórias de como as empregadas de limpeza - negras - eram tratadas pelos seus empregadores brancos nos Estados Unidos. Os episódios contados pelas empregadas são o retrato de uma realidade que existiu até há pouco tempo nos Estados Unidos e que, infelizmente, continua a existir no Panamá.

Ontem, esperávamos a chegada da empregada às sete e meia da manhã. Contrariamente ao que é habitual neste país, ela é do mais pontual que existe: chega sempre antes, e depois faz tempo para tocar à campainha à hora certa. Por isso estranhei terem passado dez, quinze, vinte minutos. Nada.

Chegou trinta minutos depois e explicou-nos que no rés-do-chão a tinham retido, bem como às outras empregadas que entretanto se foram juntando. Confesso que não estava a entender porquê, mas sei que para alguns dos meus vizinhos a entrada no prédio deve ser mais vigiada que uma alfândega. Aqui, já espero tudo, por razones de seguridad.

Tudo, tudo, não: impediram-lhes o acesso porque àquela hora os funcionários do edifício estavam em plena recolha do lixo, usando o elevador de serviço. Ora a torre em que vivemos dispõe, para além deste elevador, de dois elevadores "principais" (ou seja, para os residentes). Concluindo, estas mulheres tiveram de esperar lá em baixo porque os funcionários da recepção, a mando da administração do condomínio, não as autorizaram a usar estes dois elevadores, que estavam desocupados. Porquê? Porque "empregadas e animais" (e, aparentemente, os próprios funcionários) não os podem usar.

Há dias em que não tenho palavras para expressar o desprezo que sinto por aquelas pessoas que, ao sentir que têm um dedinho de poder, o usam da forma mais autoritária, imbecil e dominadora possível.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Olha a zine sequinha!

Ora aí está o número da zine que não fala nem de chuva nem de humidade:

We´re in Panama, issue 20

Ah, estação seca, que bom ver-te de novo!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bombons

Love in the air

Sometimes love is difficult to express

Estes tios estão sempre, sempre, sempre a pensar nos seus bombons lindos e crescidos.

(C1, já pediste à Mãe que vos imprimisse a última zine?)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Cantigas

Vail Interfaith Chapel, Colorado

Vail Interfaith Chapel, Colorado

Um dia, entrámos no autocarro público (e gratuito!) de Vail e deparámo-nos com um cenário inverosímil: todos os passageiros que lá estavam traziam cartola e fraque; as passageiras, vestidos, capinhas e umas bolsinhas em jeito de carteira.

Confesso ter tido um instante de perplexidade e até (pigarreio) de confusão. Entreolhávamo-nos, o Príncipe e eu, sem saber muito bem que pensar, até que a conversa foi inevitável:

"Que casacos tão estranhos, os vossos!"

E que curioso, que dentro do contexto, fossem os nossos casacos de esqui os intrusos!

Contaram-nos que pertenciam a um coro dickensiano e que dariam um concerto de canções de Natal, no dia seguinte, na Capela "Interfé".

No dia seguinte, lá estávamos nós, pontualíssimos, não só para ver o coro mas também para visitar a capela por dentro. Por ser multiusos, tem uma estrutura linda, em madeira, mas carece de todo e qualquer adorno; em lugar de um altar, tem uma janela, também bonita. A abóbada parece o casco de um navio, e todo o ambiente é de conforto, como se fosse a sala de amigo.

À hora certa, o coro deu entrada e começou o seu espectáculo, que foi lindo. Várias vezes convidaram a plateia a acompanhá-los nos refrões, e eu conheço dois meninos que não se fizeram rogados.

(Dois meninos que, por sinal, se conheceram num coro.)

No final do espectáculo, de coração quentinho e cheios de saudades de cantar, despedimo-nos do reverendo, que, à porta, desejou boas festas a toda a assistência. Entre o surreal e o espectacular, diga-se, e tudo porque metemos conversa com aquela gente de roupagem estranha no autocarro!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Denver em Dezembro

Denver vista do quarto de hotel

Este Natal, a sorte levou-nos às montanhas do Colorado para esquiar, com uma paragem para reabastecimento (de cultura visual) em Denver. Depois de dois voos, várias horas e 30º menos, chegámos ao nosso destino.

Denver Capitol

Denver

Denver Fire Dept. Truck

Denver não é uma cidade imensamente palpitante que nunca dorme, como Nova Iorque, e seria inútil (e frustrante) querer que o fosse. É uma cidade universitária, que serve de base para as montanhas do Colorado. Na verdade, é a última paragem nas Grandes Planícies antes de entrar na cordilheira das Rocky Mountains, a prima setentrional dos Andes.

Está a 1600m acima do nível médio do mar e constitui a paragem perfeita para a aclimatação necessária para nós: de 30ºC, com 90% de humidade relativa, passámos aos 0ºC, com 30% de humidade. Resultado: pele em escamas, boca coberta de película aderente e nariz constantemente a sangrar.

A cidade é ampla e limpa; tem uma Baixa pedonal, com um autocarro gratuito que percorre a Rua 16. Aqui encontram-se lojas, cinemas e muitos hotéis. Para quem vai de visita, é a referência a procurar.

Denver

Denver

Union Station, Denver

O que mais nos interessava, contudo, não eram as lojas: eram os museus. Decidimos ir visitar o Denver Art Museum, onde pudemos ver várias excelentes exposições temporárias e uma colecção talvez demasiado ecléctica de arte contemporânea. Estávamos sedentos de cultura visual, por isso nada nos desiludiu.

Denver Art Museum

Inside the DAM

Denver Art Museum

Denver Art Museum

Denver Art Museum

Denver Art Museum

Na véspera de Natal assistimos à peça "A Christmas Carol", adaptada do texto de Dickens, no Denver Center for the Performing Arts. A sala estava cheia, a apresentação foi fantástica, com dança, música, figurinos e cenários fantásticos. Gostei particularmente de como a transição entre cenas foi integrada na peça, tendo os actores, em exímia coreografia, mudado eles próprios os cenários. A única coisa que não adorei foi a tentativa (algo frustrada) de imitação do sotaque inglês!

Denver Center for the Performing Arts

Denver at dusk

Entre Denver e Vail, onde ficámos durante a semana, há uma viagem de cerca de 2h30. Ainda considerámos alugar um carro, mas depois optámos pelo serviço da Colorado Mountain Express que, pasmem, até tem wi-fi nas carrinhas! Foi a escolha certa, já que em Vail o estacionamento é difícil e extremamente caro e o transporte colectivo dentro da vila é gratuito.

Mais fotos aqui.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Balanço anual: leituras

2011 in books: non-fiction

Estes balanços habitualmente são feitos no fim de um ano, não no início do seguinte. Mas como não houve tempo na semana passada, e porque mais vale tarde que nunca, vamos lá.

2011 foi o ano da minha "descoberta" da não-ficção. Até este ano, preferi sempre ler ficção. Porquê, exactamente, não sei dizer. Este ano, ouvi num episódio do Fresh Air, podcast que assino e consumo com muito prazer, a entrevista feita à autora do livro "The Immortal Life of Henrietta Lacks", Rebecca Skloot. Fiquei muito curiosa, e assim que tive oportunidade comprei-o e li-o. O que mais me surpreendeu foi tê-lo lido com o interesse que em mim desperta um romance apaixonante, sabendo que o que ali se contava eram factos reais da vida das pessoas mencionadas, e aquilo que ia retendo na memória era da mais finamente escrita divulgação científica. Aprendi que as experiências científicas usam linhas celulares e que uma das primeiras a ser produzida e das mais usadas actualmente é a HeLa (de HEnrietta LAcks).

Não posso dizer que gostei, porque, na verdade, amei e recomendo vivamente.

(Um parêntesis para contar que daqui parti para as dúvidas tiradas com a prima cientista - olá C.! - e fiquei a saber que, dentro da Drosophila (mosca da fruta, se não me engano), a linha celular com que trabalha também foi descoberta por acidente. E viva o Maio de 68!)

Ganhei-lhe o gosto e continuei com "What the Dog Saw", de Malcolm Gladwell. Já tinha lido vários livros deste autor de que muito gostei e vivamente recomendo, como "Blink", "Outliers" e "Tipping point", portanto já sabia que deste também haveria de gostar. Contrariamente aos que tinha lido antes, este é uma compilação de textos mais curtos publicados anteriormente na revista "The New Yorker", onde trabalha. Como costuma acontecer, houve textos que me agradaram mais, outros que me agarraram menos. Mas a verdade é que este jornalista consegue fazer da menstruação um tópico interessante, e só por isso já vale a pena ler.

Tal como o primeiro livro que mencionei, o interesse por "Born to Run", de Christopher McDougall, foi despertado por uma entrevista ao autor (talvez também no Fresh Air, mas agora não recordo com exactidão). O bichinho da curiosidade foi inoculado com a ideia extremamente subversiva de que as lesões dos corredores, maioritariamente nas articulações dos pés, joelhos e coluna vertebral, se devem ao impacto provocado por correr... calçados. A hipótese que o autor propõe é que precisamente por terem tanta protecção no calcanhar, os sapatos actuais induzem o corredor em erro motor, que acaba por assentar primeiro o calcanhar. Segundo o autor, correndo descalço (ou com sapatos de sola fina), automaticamente se corrige o passo para pisar primeiro com a "almofada" do pé (como outros animais que correm, como os cavalos ou as zebras), fazendo com que a articulação do tornozelo funcione como mola e absorva o choque. Subversivo? Sem dúvida!

Daqui, o jornalista parte para a investigação e descobre uma tribo mexicana conhecida por correr como forma de vida... e deixo o resto por contar. É um texto documental, é uma aventura, é também uma imensa fonte de informação. Posso-vos dizer que, desde que li este livro, sonho muitas, muitas vezes que estou a correr e não me canso nunca.

Também li "Happiness Project", de Gretchen Rubin. Tal como o nome indica, a autora dedicou-se, durante um ano, ao projecto de ser mais feliz. Explica a sua metodologia, dá ideias e sugestões aos leitores e conta-nos os seus progressos durante esse ano.

Este livro interessou-me mais pelas ferramentas que sugere que pela leitura em si; não obstante, vale a pena ler, quanto mais não seja para ver como outros tentam viver melhor e também para ousar colocar-me novos objectivos desafiantes e cumpri-los.

Os três livros seguintes pertencem ao género de literatura de viagem. Publicados pela Tinta da China, a colecção é coordenada por Carlos Vaz Marques (que também conduz as deliciosas entrevistas da série "Pessoal e Transmissível" e o hilariante debate semanal do "Governo Sombra") e os livros entram na categoria livro-objecto: boa encadernação, design cuidado, papel espesso, tipografia pensada e até um marcador de página em tecido. Quem quer livros electrónicos quando pode sentir o prazer de ler um livro assim?

O primeiro título que li, recomendado pela Prainha, foi "Disse-me um adivinho", de Tiziano Terzani. A história começa com a premonição de um adivinho, que lhe diz que em determinado ano não deve andar de avião. A viver na Ásia, Terzani decide levar a informação a peito e transformá-la num projecto de trabalho. Daí nascem os relatos deste livro, de muitas viagens por esta nossa Terra.

Já em Outubro, talvez Novembro, li "Caderno Afegão", de Alexandra Lucas Coelho. Ao início, confesso, a escrita parecia-me um pouco entrecortada, dando assim um ritmo que mais tarde percebi que seria o ritmo afegão da viagem cheia de sobressaltos (literais e figurados). Com estradas esburacadas e cheias de obstáculos, entendi mais tarde que o ritmo era, naturalmente, esse. Ao início, estranhei. Depois, também se entranhou, qual pó que vemos sempre no ar das imagens que desse país tenho.

Através das palavras da jornalista, viajei por terra e por avião, conheci militares portugueses lá, comi melhor e pior e ouvi muitos tiros.

(Novo parêntesis: coincidentemente, tinha lido pouco tempo antes "Kite Runner", de Khaled Hosseini, cuja primeira parte se passa nos tempos áureos da Cabul dos anos 60 e 70; na última parte, várias décadas mais tarde, o narrador volta ao seu país e descreve uma cidade parecida com a descrita em "Caderno Afegão". Parecia-me, ao ler este livro, que já lá tinha estado e que lia sobre uma cidade que, de facto, tinha visitado, como quem lê sobre um lugar onde já foi feliz. Curioso!)

No final, gostei tanto, mas tanto do livro que não hesitei e atirei-me logo para o segundo, da mesma autora, desta vez intitulado "Viva México".

Há que dizer que a América Latina é um conjunto de muitas Américas Latinas, e que entre a Argentina e o Panamá há uma enorme distância (física e metafórica) e que o México e o Panamá, apesar de relativamente próximos, estão a anos-luz de distância. Não obstante, há coisas em comum, talvez por aqui se consumirem telenovelas mexicanas ou por haver muitos mexicanos. Por isso, desta vez a minha "viagem" foi um misto de descoberta e de identificação: ao mesmo tempo que sentia que eram as minhas pernas - não as da autora - a percorrerem aquelas ruas, também sentia que uma amiga me contava, em segredo, a sua viagem por uma terra mágica, estranha, hostil, bela, cruel e colorida, as suas sensações ao deparar-se com o indescritível ou até ao sentir o sabor da tortilha.

Para viajar sem sair de casa, estes três títulos são o melhor que li em muito tempo.

Finalmente, o último livro (terminado já em 2012): "Necessary Losses" de Judith Viorst. A autora explora, do ponto de vista da experiência psicanalítica, as perdas e os lutos que todo o ser humano tem de fazer ao longo da vida para poder crescer. A escrita, apesar de ligeira, é excelente e muitíssimo informativa, com recurso a referências a outros investigadores e também ao relato de exemplos retirados da sua experiência profissional.

Que ninguém se assuste com a catalogação de "auto-ajuda", porque este livro é de "auto-conhecimento". Durante a leitura houve, em diversos momentos, o famoso "a-ha!" do reconhecimento daquilo que a autora contava como tendo sido uma experiência minha.

As minhas secções favoritas foram aquelas que se relacionam com a minha vida actual: amigos, família, a nova família formada por mim, a mudança da auto-imagem, a separação, a doença e a morte. Este é daqueles livros que vou recomendar a toda, mas toda a gente. Ou então talvez tenha de refrear um pouco o entusiasmo...

O ano de 2011 também teve muita leitura de ficção, de que talvez venha aqui a falar no futuro, mas o importante, o que me mudou como leitora e como pessoa foram os livros que aqui vos mostrei.

Que venha 2012!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A última zine do ano!

Custa crer que este blogue esteve caladinho mais de um mês. Dezembro foi tão, mas tão agitado que praticamente não houve tempo para nada, daí o silêncio.

"We´re in Panama!", issue 19

Para terminar o ano em grande estilo, aqui fica a notícia de que a última zine do ano, que já é a 19.ª!, está no ar e pode ser descarregada precisamente aqui.

Espero que gostem, que determinado público se divirta a colorir (eu conheço duas meninas pertencentes a este grupo) e que depois sigam para o facebook para fazer o like da página.

Vemo-nos em 2012!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Está no ar!

We´re in Panama, issue 18

A zine de Novembro está no ar e disponível aqui. Este mês, versa sobre a temática festas pátrias e os muitos feriados com que os panamenhos celebram as efemérides da sua história.

Vão ler, vão! E depois, só mais um saltinho ao facebook para fazer like da página da zine e acompanhar as novidades.

Espero que gostem!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Houston, digo, Panamá: we have a problem



Quando uma universidade não sabe conjugar o presente do indicativo do verbo "tener" (ter), claramente temos um problema.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uma mantinha muito especial

"Hugo" baby blanket

"Hugo" baby blanket

"Hugo" baby blanket

Esta mantinha, para mim muito especial, foi feito para o bebé de uma amiga que fiz cá no Panamá. Este "pequeno humano", que chegará em meados de Dezembro, vai ter uma manta luso-panamenha, tal como ele próprio, à sua espera. Espero que ele goste tanto dela quanto eu gostei de a escrever, bordar e coser. Foi feita com muito:

"Hugo" baby blanket

(A mantinha é abbrigate*, claro. Para quem quiser encomendar uma, é só dizer.)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Panamagusto

Panamagusto

Ontem, Domingo, celebrámos o São Martinho (com algum atraso, é certo) aqui no Panamá com um magusto muito peculiar. Graças a uma das nossas convidadas, tivemos direito a castanhas cozidas e assadas (oba, oba!); mas o cardápio de iguarias portuguesas não se ficou por aí. Tivemos pastéis ("bolinhos, bolinhos!") de bacalhau, salada de polvo, feijoada, tremoços e azeitonas, cerveja e vinhos; entre eles, vinho português, em representação da jeropiga. De doces, tivemos um pudim e chocolates com vinho do Porto.

Uma das descobertas da data foi a de uma semente de palmeira chamada pixbae e que tem o nome científico de Bactris gasipaes. Tem uma polpa fibrosa e um gosto que faz lembrar o da castanha, talvez misturado com o da abóbora; é endémica desta zona e por isso foi uma excelente descoberta. Já imagino purés de pixbae tanto em doces como acompanhamento de salgados.

Foi um excelente convívio e desde já agradeço a todos terem vindo e participado com tanto entusiasmo. Fica, contudo, a dúvida: com tanta cadeira e sofá, porque é que falámos horas e horas em pé?

Manhã sebastianesca

Manhã sebastianesca
Uma manhã sebastianesca.

Esta manhã, o panorama ao acordar era o de vivermos nas nuvens (confere, claro, dado que vivemos no 49.º andar e muitas vezes termos as nuvens ao lado, não acima). Mas hoje a nuvem era diferente, porque se foi retirando, paulatinamente, descobrindo aos poucos os prédios que vemos daqui da janela. Será que o céu azul que se vê é sinal que a estação seca se aproxima? E que estas chuvas diluvianas vão dar tréguas? Será?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

De Istambul para o Panamá

Baklavas, directly from Istanbul

Baklavas, directly from Istanbul

Setembro e Outubro foram meses de muitas viagens de trabalho para o Príncipe, ao ponto de não conseguir chegar a desentupir os ouvidos entre descolagens e aterragens. Já estávamos os dois um pouco cansados da situação. O Príncipe, que já me conhece e sabe como me alegrar (comida, claro!), trouxe-me de uma das suas viagens - a Istambul, para ser mais precisa - uma caixa de baklavas deliciosos. Conta ele que foram embalados ainda quentes e selados em vácuo; no dia seguinte, chegaram ao Panamá, lindos, fantásticos, deliciosos e ainda estaladiços.

São diferentes dos que encontro cá; não sabem a água de rosas, mas são leves, levezinhos, e doces na medida certa.

Para mim, abrir esta caixa e encontrar um pequeno exército de baklavas de terracota, quero dizer, de massa filo, todos alinhados e lindos; pensar que cada um correspondia a largos minutos de prazer gastronómico... ah, foi maravilhoso.

E sim, Príncipe, a tua missão foi cumprida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Torre Trump no Panamá

Esta é uma cidade de contrastes, uma aldeia que ser grande metrópole, onde o dinheiro abunda. Numa cidade onde a rede de esgotos continua a ter falhas e a expelir fantásticas ribeiras de cocó na via pública, erguem-se arranha-céus residenciais e, desde Julho, também hoteleiros, com o empreendimento Trump Tower.

Trump Tower in Panama City

Abriu em Julho, num dia de dilúvio bíblico, e como é aqui mesmo, mesmo ao lado, fomos logo visitar. No rés-do-chão tem uma arcada comercial praticamente vazia, com a excepção de uma pastelaria que me faz sentir em Portugal, e uma enoteca, que também serve refeições ligeiras e tem música ao vivo.

A recepção do hotel localiza-se uns 14 ou 15 andares acima, bem como alguns restaurantes já devidamente explorados: no Barcelona, bar de tapas, encontramos sempre caras conhecidas entre os empregados que lá trabalham, o que me faz pensar que este empregador deve ser excelente.

Trump Tower in Panama City

Trump Tower in Panama City

(Um pequeno parêntesis: Mãe, lembras-te daquele senhor no Don Patacón que nos serviu tão bem? Aquele cuja cor dos olhos era mais clara que o tom de pele? Pois com esse nos cruzámos da última vez...!)

Também há o restaurante Tejas, devidamente provado. A comida é correcta, as porções francesas (ou seja, mínimas) e o serviço é lento. Mudou a carta na semana passada, por isso talvez lá voltemos.

A oferta gastronómica é completada pelo bar da piscina, onde o ambiente é muito, muito giro, mas a oferta é muito restrita. É um bar de piscina que, à noite, em vez de se metamorfosear num restaurante com um ambiente muito especial, continua a servir as bebidas em copos de plástico e a ter um par de saladas e hambúrgueres. Na minha opinião, não chega.

Trump Tower in Panama City

Mas o espaço? O espaço é muito bonito, mesmo; mesmo tendo em conta que as varandas dos vizinhos se encontram a escassos 3 ou 4 metros, conseguiram criar uma atmosfera elegante e sofisticada, coisa que cá não abunda.

Trump Tower in Panama City

Nos primeiros dias, ainda tudo cheirava a novo, a tinta e a reboco. Hoje, a máquina já está mais oleada e a funcionar melhor; talvez o serviço não seja tão cerimonioso como no início, mas continua a ser acima da média local.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Excelente notícia!

Esta excelente notícia tem-me com um sorriso há algumas horas:

In Uppercase!

In Uppercase!

Estou tão, mas tão contente e orgulhosa por ter o meu trabalho incluído na Uppercase, uma revista que assino e de que tanto gosto. Para quem trabalha como freelancer e sozinha, esta é uma validação de que o que faço tem interesse e valor. E isso deixa-me muito feliz.

E agora vou ali fazer festinhas ao meu exemplar da revista enquanto dou mais uns passinhos de dança.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Logo eu

new friend

Hoje, enquanto esperava pelos meus companheiros de reunião (bendita pontualidade caribenha), este amiguito ignorou pacificamente as minhas reticências em relação a bichos em geral e aninhou-se nas minhas pernas. Fiz-lhe umas festas, meio sem saber onde tocar (afinal de contas, ele tinha as garras sobre as minhas pernas destapadas), e o danadinho começou imediatamente a ronronar. Um bombom cheio de pêlo, essa é que é essa.

Quem precisa de leitura de feriado?

We´re in Panama, issue 17

Ora aqui está ela, a zine número 17! Este mês versa sobre a temática da criativa onomástica caribenha e respectivas influências. Leiam, leiam, e a seguir carreguem no botãozinho "gosto" do facebook.

Espero que gostem!