quarta-feira, 5 de maio de 2010

Noutro dia

Noutro dia fui despedir-me das minhas colegas da pintura, um grupo heterogéneo em termos etários. Há de tudo, como na feira, mas a maioria é mais velha que eu. E algumas, bem jovens por sinal, são ainda mais velhas que as mais velhas que eu.

Isto para contar que uma delas, ao saber que eu ia para o Panamá, me contou a experiência de viagem que lá teve. Pois que certo dia tinha visto uma carteira bonita numa loja e queria sair do hotel, tranquilamente, para a ir comprar. Na recepção, não a deixaram sair sozinha, assim sem mais nem menos, e chamaram-lhe um táxi para a levar, para a esperar e para a trazer de volta sã e salva.

Eu disse-lhe que agora já não era assim, que me tinha parecido um lugar pacato, tranquilo, com um ambiente de cidade pequena, e que os relatos dos conhecidos que lá viviam há algum tempo eram coincidentes com esta minha opinião. Ela então conta que isto já se tinha passado há coisa de quinze anos, que nessa altura era assim. Não neguei, óbvio, há quinze anos estava muito longe de pensar que algum dia iria viver no istmo.

Aí a minha colega fez contas, fez contas e depois mencionou, assim como quem menciona qualquer coisa que aconteceu "noutro dia", que tinha sido em 1978.

Foi há 32 anos, portanto. No ano em que eu nasci. Diz que agora é diferente.

(E quão diferente é o Portugal de 2010 do de 1978?)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

De avião

Lembro-me de quando era mais miúda que as viagens de avião eram, para mim, uma festa. A viagem, em boa verdade, já era parte das férias. O aeroporto, os destinos longínquos e exóticos, o check-in e as etiquetas, os cartões de embarque e os passaportes, tudo isso era uma antecipação da euforia das férias.

Hoje, confesso, cada vez me custa mais entrar num avião. Talvez seja porque o faço com mais frequência, mas suponho que a minha idade e o cada vez menor conforto da viagem também sejam factores a contabilizar. Lembro-me dos tempos em que levava uma garrafa de água de litro e meio, comprada no supermercado (e não com o preço pornográfico a que é vendida nos aeroportos), e isso não fazer nenhum guarda levantar o sobrolho. Lembro-me de talheres de metal (ainda os há, bem sei, mas já começam a ser espécie rara) e de jogos distribuídos às crianças. E agora, só conheço o desconforto, o pouco espaço, a falta de posição na cadeira. Às vezes calha-nos um daqueles Airbus maravilhosos com ecrã individual e cabine com redução de ruído; às vezes calha-nos ter o lugar do lado vazio; outras vezes, não.

Pois desta feita vinha eu entalada entre a janela e um senhor obeso. Sim, obeso, ao ponto de não conseguir baixar a mesinha e de ter de se levantar para poder carregar em qualquer dos comandos colocados no apoio de braços. Foi quase dramático: o senhor, super incomodado com a falta de espaço, nem sabia o que fazer. A páginas tantas deixou cair qualquer coisa e foi um sarilho para a recuperarmos. Eu não tinha apoio de braços (o senhor precisava dele como espaço vital, temos de nos lembrar que, afinal de contas, ele mal cabia na cadeira) e praticamente não alcançava o espaço à frente do meu lugar. Tinha mesmo pouca margem de manobra.

Com o jantar e o tabuleiro que não chegava a assentar na horizontal - o volume ventral não o permitia - comecei a sentir claustrofobia. A verdade é que não estava a ver bem como íamos fazer uma viagem de treze horas naquelas condições.

E aqui entra a questão: as pessoas mais volumosas devem ou não comprar dois lugares?

Vou falar da minha experiência: por favor, sim.

Sabem aqueles bebés que estão tão incomodados com o voo que choram as tais treze horas sem parar? Os pobres pais já não sabem o que fazer e as pessoas à volta já bufam de impaciência? Pois estar ao lado de um passageiro volumoso, para mim, é pior. É pior porque fico sem espaço. Com barulho enfio uns tampões nos ouvidos e sigo para bingo; sem espaço, dá-me uma sensação de estar fechada (que estou) que me deixa à beira do pânico.

Como é evidente, isto é uma discriminação das pessoas mais volumosas. Eu sei, eu sei. Mas também sei que nem elas, nem eu viajamos com um mínimo de conforto quando temos de estar de coud-à-coud (fica mais bonito assim) por um bocadinho de apoio de braço.

Em jeito de conclusão, e só para descansar as leitoras mais preocupadas (aham... suponho que vocês sabem quem são), mudei de lugar para outra fila mais atrás, com direito a pernas na coxia e lugar livre ao lado. Muito, muito melhor.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Recuando no tempo*

*e voltando aos tempos da colónia de férias. E sim, é um grande retro-salto!

Quem é que daqui participou em colónias de férias de Verão? E quem daqui tinha as refeições embrulhadas em película aderente?

Pois eu tinha. E não havia maior diversão que fazer estalar pequenos balõezinhos peliculeiros e delirar com o barulho. Não havia. É que às vezes apanhávamos trânsito, a viagem demorava e as cantorias esgotavam-se. E ao final da tarde já estávamos todos demasiado cansados para passatempos construtivos.

O mesmo fenómeno se dá nos voos entre Buenos Aires e o Panamá. São sete horas de viagem desgastante feitas dentro de um avião para viagens curtinhas, muitas vezes sem uma televisãozinha sequer para passar o tempo. A Copa, valha-nos isso, é super pontual, mas não há volta a dar-lhe aos 5334km entre os dois pontos. É mesmo assim e pronto. A páginas tantas, já não há tricot, leitura ou podcasts que me salvem do tédio total e aí entra a parte dos estalidos com o plástico.

Na última viagem, o Príncipe, rapaz de reconhecida paciência, ria-se e documentava fotograficamente a cena. Os demais passageiros davam pequeninos saltos nos seus assentos a cada um dos estalidos. Divertido, mas durou pouco - não quero ser considerada uma ameaça à segurança aeronáutica. Era só um bocadinho de película aderente, mas nunca se sabe.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Idiossincrasias de um país tropical

De novo no Panamá para tratar de assuntos burocráticos, divirto-me com algumas idiossincrasias locais. A primeira de todas é a interpretação local das estações do ano.

O Panamá encontra-se a nove graus norte, o que significa que astronomicamente estamos na Primavera. Como estamos bem pertinho do Equador, e ao nível médio das águas do mar, vivemos um clima tropical, que se caracteriza por uma estação seca e outra húmida.

Ora acontece que a estação húmida costuma coincidir com os meses de Verão; no hemisfério norte, isso acontece entre Abril ou Maio e Setembro ou Outubro. Só que, no Panamá, as coisas não são bem assim...

Chamam "Verão" (com umas enormes aspas, as maiores que tiverem aí à mão) aos meses da estação seca, que na realidade correspondem ao Inverno astronómico. A temperatura é mais baixa, não chove, e - por isso - é considerado "Verão". Já o "Inverno" (chamem as tais aspas grandes, por favor) caracteriza-se por temperatura mais alta, mais humidade relativa e pancadas de água de cerca de uma hora por dia, normalmente à mesma hora.

Só para ilustrar a história, conto-vos que este dia de "Inverno" vai com 32ºC e 59% de humidade relativa.

Inverno, Inverno, é dentro dos espaços, que são refrigerados até ao ponto de se terem de usar casacos e abrigos... de Inverno! E esta, hein?

terça-feira, 30 de março de 2010

Termina o suspense

Jamais foi minha intenção deixar os leitores do "Entre..." sem uma resposta quanto ao mistério da mudança, mas, enfim, têm sido dias tão preenchidos de documentos, listas de afazeres, correios electrónicos de um lado para o outro que há coisas que acabam por ser proteladas.

Mas já que aqui estamos, passemos então a desvendar as pistas!

Dizia eu que: o país para onde nos vamos mudar é mundialmente conhecido pelo aproveitamento feito pelo Homem de uma determinada configuração geográfica que permite agilizar as comunicações ao nível planetário.

Pois sim, existe um canal de passagem de navios na parte mais estreita da parte central do continente americano. Esse canal, de intervenção humana nesta localização específica, permite à circulação marítima um atalho muito significativo em comparação com a alternativa, que é a de viajar até ao extremo sul do continente.

Voltando às pistas, a este país aplicam-se os célebres versos "moro num país tropical/abençoado por deus/e bonito por natureza". E não nos referimos ao Brasil. Pois, o Brasil fica na América do Sul e há mais países tropicais, diria até que a maioria deles bonitos por natureza. Não nos esqueçamos do calor e da humidade, que actuam como cúmplices desse grande complot que é a biodiversidade!

Também falei do déficit de mar do qual padecemos aqui em Buenos Aires, vamos passar para uma fartura em quantidade e variedade. Ora isto já é muito revelador! Fartura de mares? Tenho para mim que é mais que um, portanto...

E aqui, a pista final do filme: neste mesmo centro histórico terá sido filmada (...) uma história de suspense com actores bem conhecidos. É isso mesmo: o Alfaiate do...

Panamá!

Como tenho leitores muito perspicazes, chegaram lá num instante. Quem não acertou, não fique triste porque contribuiu para a (minha) animação, sobretudo porque adoro - não sei se frisei suficiente a parte do "adoro" - receber aqui comentários.

Ficam aqui algumas fotografias da primeira viagem ao Panamá:

O sempre presente, célebre e fantástico ceviche.

Uma publicidade imbecil e um autocarro como nos filmes.

Um jardim em Punta Paitilla - espaços urbanos de lazer não são abundantes na Cidade do Panamá, portanto há que mimar e estimar os poucos que existem.

Punta Paitilla, vista da Avenida Balboa. Estão a ver as casas em cima do mar? Quero.

Mais aventuras se seguirão...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pequena pausa publicitária

01_leafy garden

É pequenina, prometo: é já amanhã que abre a Attraction Store, no Porto. E sabem uma coisa? Vão lá estar postais meus e várias peças abbrigate*!

Apareçam e, por favor, façam a reportagem fotográfica que eu não posso fazer!

Fim da pausa publicitária. Brevemente voltaremos à nossa programação habitual.

Edito o texto para acrescentar os detalhes da loja: encontra-se na Rua Escura, nº 45, a partir das 16h. Não faltem!

terça-feira, 23 de março de 2010

Mudanças, mudanças

Alguns dos que lêem o "Entre..." já saberão a notícia que me tem mantido bastante ocupada e, consequentemente, arredada destas lides. A verdade verdadeira é que, muito brevemente, este blogue terá de mudar de nome, porque vamos sair de Buenos Aires para ir para outra cidade - onde, por sinal, estive na semana passada pela primeira vez. O relato, a seu tempo, cá chegará.

E como é sempre divertido fazer aqui um pequenino desafio, deixo algumas pistas sobre o nosso novo destino. Quem quiser, deixe palpites nos comentários. E quem já sabe, por favor, não estrague o jogo! Pode até contribuir com mais dicas...

Vamos então: o país para onde nos vamos mudar é mundialmente conhecido pelo aproveitamento feito pelo Homem de uma determinada configuração geográfica que permite agilizar as comunicações ao nível planetário.

Além disso, a este país aplicam-se os célebres versos "moro num país tropical/abençoado por deus/e bonito por natureza". E não nos referimos ao Brasil.

Do déficit de mar do qual padecemos aqui em Buenos Aires, vamos passar para uma fartura em quantidade e variedade. Já para não falar dos magníficos pratos de peixe que lá se comem. (Por falar nisso, e bem à parte, lembro-me de ter falado num desses pratos, o ceviche, num dos primeiros posts deste blogue. E ainda num dos segundos posts. Acho que, diria mesmo que, estou bem certa de que o bom garfo que há em mim continua a vibrar de alegria sempre que pensa nessa refeição. Ai vida.)

Na semana passada, enquanto visitava a minha futura cidade adoptiva, só me lembrava de Macau: ele é a temperatura, ele é a humidade; os projectos imobiliários em altura, a proliferar quais cogumelos; o horizonte cheio de gruas e os cartazes para vender tanta casa. E ao lado de tudo isso, um centro histórico lindíssimo, em boa parte já recuperado, outra parte a caminho de o ser. E uma vista de mar maravilhosa, com sucessivas baías.

Posto isto, será que alguém adivinha? Deixo mais uma pista: neste mesmo centro histórico terá sido filmada (não vou jurar que foi, pois todos sabemos que a magia do cinema é isso mesmo, mágica) uma história de suspense com actores bem conhecidos.

Será que já disse demais?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Verão molhado

Este Verão tem sido chuvoso. Tão chuvoso, que as ruas já se inundaram várias vezes, com direito a directos televisivos e perguntas idiotas do género como é que se sente a atravessar a Avenida Santa Fé com água acima dos joelhos? Molhada, como é evidente, uma pessoa sente-se molhada. Não é o fim do mundo.

Mas a sucessão de dias cinzentos, depois dos dias cinzentos (e frios!) em Portugal, está a pedir algo de alegria.

Aqui está. Presente da minha querida amiga F., acabadinha de chegar.

presente de uma amiga brasileira :)

Quem quer umas iguais ponha o dedo no ar.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sagres

Sagres em Buenos Aires!

O navio-escola Sagres está de visita a Buenos Aires. Na sua viagem de circum-navegação participa nas celebrações dos bicentenário da independência de vários países, nomeadamente o da Argentina. Também cá estão navios de outros países e a Dársena Norte de Puerto Madero teve, este fim-de-semana, uma cara diferente.

A partida da Sagres para mais uma etapa da sua viagem de circum-navegação está marcada já para amanhã, mas durante a sua estadia aqui (e acredito que em todos os outros portos) abriu as suas portas ao público. Falo por mim, com as saudades que tenho de Portugal e de falar português a torto e a direito - ou será só de falar a torto e a direito? - visitar a Sagres e meter conversa com toda a gente é o meu programa ideal de Sábado à tarde.

E assim foi. Havia um mar de gente à espera para visitar os vários barcos atracados no porto, que estava lindo. Entre mastros e velas e arranha-céus, a paisagem porteña estava definitivamente diferente.

a bordo da Sagres

A bordo da Sagres, os marinheiros de serviço metiam conversa com os visitantes, ajudavam na subida e descida dos íngremes degraus e respondiam com infinita paciência a todas as perguntas que lhes faziam. Desconfio que, tal como nós, houve mais algumas pessoas que foram para lá exibir as suas t-shirts de Portugal e os seus xailes típicos, com vontade de destravar a língua e praticar as conjugações verbais lusas. Em terra onde sempre nos confundem com brasileiros (mais uma vez, não que isso seja um problema, só é é muuuuuito cansativo), receber uma embaixada itinerante é motivo de muita alegria.

Sagres em Buenos Aires!

Da cozinha do navio vinha um cheiro delicioso a peixe fresco. Enquanto salivávamos, um dos cozinheiros cortava lâminas a um polvo já cozido. Perguntámos-lhe de onde vinha aquela iguaria e ficámos a saber que foi trazido de Portugal. Quem diria? Mas, bem vistas as coisas, o pouco polvo que por cá se arranja também vem das nossas bandas (mais frequentemente, da Galiza). A dificuldade, mesmo, foi afastar-nos daquele polvinho que se deixava fatiar como manteiga... É verdade que na Sagres dão a provar as delícias da culinária portuguesa?, quisemos saber depois de ler o folheto que distribuíam aos visitantes. E sim, mas só às personalidades convidadas. E claramente o Sr. Embaixador não se lembrou de nós.

Sagres em Buenos Aires!

Uns suspiros de saudade mais à frente, vimos várias barricas de vinho que também fazem a viagem de circum-navegação. Desconheço que costume é este o de trazer o vinho a dar a passear (Tio Rui?), mas achei uma maneira bem interessante de o fazer envelhecer. Já imagino a descrição: ...vinho circum-navegador, envelhecido em casco de carvalho, com toques de sal e de vento e um final de maresia. Já sabem, quando, no futuro, beberem um moscatel de Setúbal, procurem-lhe os vestígios da ondulação.

Dada a volta à Sagres ainda visitámos outras embarcações, mas não amor como o primeiro, que neste caso se deveria substituir por não há orgulho como o patriótico.

E, já no regresso a casa, registámos esta imagem:

Outra Sagres, também em Buenos Aires...

E esta, hein?

Mais fotos aqui.

Parabéns...

...ao filme "El secreto de sus ojos", o filme argentino que recebeu o oscar para melhor filme estrangeiro. Quem não viu, vá ver!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Porque o mundo é dos lutadores...

...um bom exemplo. Gostei de conhecer esta história e admiro mais e mais quem persegue os seus sonhos e trabalha com afinco para os concretizar. Sem queixinhas!

(vou-me esforçar muito para imitar!)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Uruguai

DSC06742_2-pola

Não sei bem se se sou só eu a sofrer de déficit de mar, mas que sofro, sofro. E quando vejo o mar, quando sei que vou estar na praia, que vou ver ondas e sentir o ar cheio de sal na cara, encho-me de uma euforia qualquer que nem sabia que podia sentir. A verdade é que peixe que sempre viveu com as ondas a dois passos não sabe viver em cidade como esta, a pelo menos quatro horas de distância da praia mais próxima.

O Verão em Buenos Aires é abafado e asfixiante: à muita humidade que vem do rio juntam-se temperaturas altas e ausência de ar condicionado. Não é muito agradável. É nesta altura do ano que eu sou fã de centros comerciais porque, adivinharam, lá a temperatura é mais baixa que em casa. Felizmente, aqui relativamente perto, temos a costa uruguaia, linda, linda, vagamente parecida com a costa portuguesa, mas em grande, em extenso e com vacas.

Voámos para Punta del Este, cidade que poderia parecer uma qualquer Quarteira ou Albufeira do sul do Portugal, mas que é de longe muito mais cuidada, organizada, e sem nada daquele urbanismo bárbaro e selvagem que desfigurou uma boa parte da orla costeira do nosso país. No Uruguai, começaram tarde, mas felizmente com bastante cuidado. Nem tudo é perfeito - afinal de contas, temos uma via rápida a passar entre as casas e a praia, sem qualquer acesso pedonal que comunique a zona residencial com o areal. Mas, de resto, arruma num cantinho os projectos imobiliários balneares que vemos em Portugal. Além disso, o Uruguai tem a seu favor a baixa densidade de construção: apesar de serem um dos países mais pequenos da América do Sul, têm muito espaço para pouca gente (e muita vaca).

O mar é lindo e bravo, numas praias, lindo e manso, noutras. Ficámos acidentalmente alojados no meio da nata da sociedade argentina veraneante, mas numa ilha em forma de pousada com um ambiente tão familiar que a criançada ia jantar já de pijama. Já disse que foi uma maravilha? Foi uma maravilha. Perguntem à mãe do Príncipe, ela confirma.

DSC06681_2-pola

DSC06674_2-pola

Um dia, de carro, fizemos um passeio que nos levou a sítios que nem apareciamm assinalados no mapa: entre uma estrada de lama e a praia estendiam-se dunas sem fim, de vegetação rasteira - e algumas vacas - e, lá ao fundo, o mar bravo e de ondas altas.

Continuando costa acima, em direcção ao Brasil, fomos de terrinha em terrinha parar ao Cabo Polónio, uma aldeia perdida dentro de um parque natural onde a luz eléctrica só chega ao farol. Paragem preferida dos hippies, que convidam os visitantes a desapegar-se dos bens materiais, é uma terra linda vista de longe, mal-cheirosa vista de perto. Parece que a falta de energia eléctrica também é sinónimo de falta de esgotos. Outra particularidade desta aldeia é o acesso, que é feito nuns camiões adaptados com uma estrutura metálica tipo galeão: os passageiros empoleiram-se lá e assim fazemos os poucos quilómetros que nos separam da entrada do parque, numa paisagem de pinhal, terra batida e praia a perder de vista. A vantagem clara é que não há carros a circular - e nada paga a alegria de estar lá em cima, a ver o mar e a receber o vento salgado na cara. Maravilha.

olha o Cabo Polónio!

a caminho do Cabo

A praia no Cabo Polónio

Voltar a Buenos Aires é um choque: depois do ritmo relaxado que se respira na margem oriental do Rio da Prata, esta cidade, que tem tudo menos "bons ares", é abafada, movimentada, demasiado densa. Mas é casa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Boas ideias precisam-se

Hoje, enquanto fazia uma ilustração, estava a ouvir o episódio "DNTO fights back!", do programa da rádio pública canadiana. Já falei aqui deste podcast noutras vezes e hoje não é excepção: há sempre qualquer coisa em cada um dos episódios que me faz pensar.

Desta feita, o músico Dave Carroll conta-nos por que razão escreveu uma música especial, a "United breaks guitars". Resumindo a história, no final de certa viagem de avião com a United Airlines, este músico recupera a sua guitarra e vê que ela está partida. Depois de fazer a queixa à companhia aérea, recebe a não-resposta, ou a resposta-não, que a companhia não se responsabiliza e que ele não vai ser compensado pelo dano material que sofreu.

Sentindo-se impotente perante a apatia corporativa e a falta de serviço ao cliente, senta-se e faz o que sabe fazer, que é escrever canções. Publica o vídeo da dita canção no youtube e tunfas, o número de cliques aumenta exponencialmente e consegue o que as reclamações não tinham conseguido.

Esta história fez-me lembrar a saga que os meus pais têm estado a viver com a PT. Não, não estou a falar de todas essas telenovelas político-corruptivas que se lêem sem fim nos media portugueses, estou mesmo a falar de puro serviço ao cliente. Resumo a história que o meu pai conta aqui e aqui: antes do fim de ano, os meus pais decidem-se a instalar o pacote de internet com fibra óptica da PT, daqueles que incluem telefone e televisão.

Os técnicos comparecem na data indicada e procedem à instalação da box na cozinha (e não na sala), já que, segundo eles, os cabos são grossos e não passam pelos canais já existentes. Além disso, fazer furos na parede não é da sua responsabilidade, argumentam.

Posto isto, não se sabe bem como, o telefone de Lisboa, com número começado pelos dígitos 21, passa misteriosamente a atender por outro número também atribuído ao meu pai (em segunda habitação), com os dígitos 275, indicativo de Castelo Branco. Encurtando razões, o telefone 275 (em Castelo Branco) deixa de funcionar e o 21 (de Lisboa) passa a ter o número 275. Confuso? Para nós também.

Muitas reclamações depois, o caso continua parado e parece que sem fim à vista. A PT, que devia tratar bem os seus clientes, não atende o telefone: manda os operadores fazer o serviço e, claro, estes operadores empregados de outra empresa qualquer, a quem a PT adjudicou o atendimento telefónico, não sabem de nada nem podem saber. Os técnicos, também de empresa exterior à PT, não sabem de nada, que em não sei quantas décadas de trabalho jamais lhes aconteceu algo assim.

E no meio disto tudo, estamos na mesma, com os números trocados e com as contas telefónicas (de três números, em vez de dois, sabe-se lá porquê) a chegar, essas, pontualmente.

Posto isto, deixo aqui o pedido de um brainstorming virtual: quem dá boas ideias para resolvermos o problema? Comentem, por favor, e deixem-nos ideias giras para fazermos novas (e mais eficazes) reclamações. Obrigada!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Adoro fazer anos

E ontem fiz anos. Adoro! Que venham muitos mais, pelo menos tão bem comemorados como este, sempre com a companhia do meu Príncipe.

A vida é bela.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Hipódromo de Palermo

winning ticket at hipódromo de Palermo

Uma das vantagens de termos visitas é que vemos coisas que de outra forma não veríamos. Não veríamos, por exemplo, a minha imensa classe (chamam-lhe "sorte de principiante" mas a mim parece-me que é despeito) a ganhar a primeira aposta que faço ao chegar ao Hipódromo de Palermo, no Sábado passado.

Já era conhecida a minha estratégia para ganhar no poker - para quem não sabe, é tricotar ao mesmo tempo. E fazer muito, muito, muito bluff, pois não há quem resista. Mas agora confirmou-se o meu estatuto de amuleto da sorte quando o meu cavalo ganhou e eu rendi ao senhor meu esposo 360% de lucro. É isso mesmo.

Acabadinhos de chegar, eu ainda nem tinha percebido como é que a coisa funcionava. Lá me explicaram bem explicadinho, houve até quem cobiçasse os caderninhos que os outros visitantes tinham, com as descrições dos cavalos de cada uma das corridas do dia. Chegámos ao quiosque das apostas e eu peço o oito, o meu número preferido e redondinho.

- Ese caballo no corre.

Ora, ora, que não corre. No dois.

E adivinhem só, o dois ganhou. Nem o vi chegar à meta, porque me diverti a olhar para as pessoas à minha volta, aos gritos, à medida que os cavalos se aproximavam da meta. É realmente interessante ver veias a saltar do pescoço, punhos no ar e os gafanhotos do entusiasmo a saltarem de tantas bocas.

O que faltou, mesmo, foi o chapelinho à Ascott. Fica para a próxima!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Converseta

Ontem entrei na farmácia aqui da esquina para comprar um par de coisas que precisava. O farmacêutico começou a aviar o meu pedido, entre muitos sorrisos. Pensei que teria coisas nos dentes - não é inédito - ou estaria mal vestida, pois vinha do ginásio. Pergunta-me:

- Disculpe, señora, que le pregunte: usted no es de acá.

Não, realmente não sou, não, sou portuguesa.

- Ah, de Portugal! Tamaña belleza no podía ser de acá.

E é isto. Vai uma pessoa à farmácia e tem o farmacêutico, com idade para ser meu pai, nestes delírios.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Importante

Andei a pensar que volta é que daria ao assunto para o tornar mais apelativo, menos urgente, menos dramático e a verdade é que não cheguei a nenhuma conclusão. Por isso, digo-o da melhor forma que encontro, que é a directa: é urgente e muitíssimo importante que o máximo de pessoas se inscreva como dador de medula óssea.

É óbvio que se trata de uma decisão pessoal e que também depende de factores como a idade, se a pessoa é saudável, entre outros. Mas partindo do princípio que a maioria das pessoas é saudável, conto-lhes o que penso sobre o assunto.

Para o paciente, encontrar um dador compatível é uma questão de vida ou de morte; para o dador, é uma picada no momento da inscrição e um procedimento simples (com algumas picadas, é certo) que raramente necessita internamento. Os benefícios para o paciente ultrapassam muito largamente os potenciais riscos do dador, já que não é necessária uma intervenção invasiva para extrair as células necessárias para o transplante.

No acto da inscrição, os dados do dador são guardados numa base de dados internacional (Bone Marrow Donors Worldwide), o que significa que um paciente que esteja num determinado país tem muito mais hipóteses de encontrar um dador compatível porque a pesquisa abrange todos os países incluídos na dita base de dados.

Não me querendo alargar em mais argumentos, deixo aqui links para quem quiser obter mais informações sobre o tema. Aproveito também para pedir a todos os que aqui vêm para considerarem seriamente a hipótese de se inscreverem como dadores. Seria bom ninguém precisar da ajuda, mas como há gente que precisa, é bom saber que podemos ajudar.

Em Portugal:
Centro de histocompatibilidade do Sul
Centro de histocompatibilidade do Centro
Centro de histocompatibilidade do Norte

No Brasil:
(Pelo que percebi, o Brasil ainda não participa nesta base de dados internacional. Mesmo assim, vale a pena inscrever-se como dador! Para quem quiser informação em português, os links acima têm todos os detalhes, bem como as respostas às perguntas mais frequentes)
INCA

Na Argentina:
Hospital de Pedriatría Dr. J. P. Garrahan

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

As alegrias da desconexão



Está visto: estar desconectada também é bom. É mesmo muito bom viver umas semanas mais afastada do computador e do blogue para depois poder voltar cheia de saudades desta minha "casa" que é o "Entre...".

Vir a Portugal é sempre uma alegria, não só porque se vêem os amigos e a família, como também porque é bom estar cá. Lisboa está cada dia mais bonita, tem cada dia mais recantos bonitos, cafés novos, lojas novas, ruas mais asseadas (é verdade, é mesmo o que observo!), autocarros silenciosos e estações de metro novas. Cada vez que venho deslumbro-me com as vistas do rio, as casas coloridas e os passeios em calçada portuguesa. Às vezes também escorrego nelas, sobretudo neste Inverno tão chuvoso, mas é sempre uma alegria acordar e ver a cúpula da Basílica.

Para quem sempre fala mal de Portugal, tenho que contar que liguei para dois atendimentos telefónicos de dois serviços públicos e ambos me responderam às minhas perguntas. Enfim, nem tudo funciona bem, como conta o Dicforte, mas há muita coisa a funcionar mesmo bem. Destaco aqui o atendimento ao cidadão da Câmara Municipal de Lisboa e o atendimento telefónico das Finanças. Ambos muito bons.

Outra maravilha, de índole totalmente diferente, foi o nevão com que fomos presenteados no fim-de-semana passado. Que sensação linda a de estar quentinha dentro de casa e ver os flocos a cair lá fora, a paisagem, gradualmente, a tingir-se de branco. E que lindo abrir a janela e não ouvir nada: nem gotas de chuva, nem água, nem carros, autocarros ou quejandos. E tricotar, tricotar, e depois sair e estrear gorrinhos (na foto, o primeiro gorro Koolhaas, feito para oferecer, mas que ficou pequenino. O segundo, já com o tamanho adequado, já está terminado e pronto a ir para o seu dono). Paisagem perfeita para a fotografia do gorro, não? Também ponto alto do passeio na neve foi o capote alentejano, que não desapontou, e ainda constatar que tenho muita pontaria (diz que avariei umas quantas máquinas fotográficas com umas bolas de neve mais certeiras...).

Enfim, muito mais há para contar sobre estes dias, mas mais relatos virão a seu tempo. Por agora, mantêm-se as tarefas de tia por mais uns dias. Em breve estarei do outro lado do oceano, já com o coração cheio de saudades, mas com muito mais disponibilidade para contar histórias aqui.

Até lá, um bom ano, cheio de coisas boas, e até breve.

P.S.: A foto acima foi tirada pela Bau.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Blitzkrieg

A Primavera instalou-se em Buenos Aires com hordas e hordas de sanguinolentos mosquitos. Ontem, vinha eu tranquilamente a pé para casa, parei um bocadinho no semáforo, até ficar branco (cá, o semáforo verde para os peões é branco). Foi questão de alguns segundos mas, quando olho para baixo, tenho qualquer coisa como seis mosquitos (não-dengosos, esperemos) pousados nas minhas pernas, a picar-me sobre a roupa e tudo, sem qualquer tipo de vergonha ou hesitação. Desatei à chapada às minhas próprias pernas, fiquei com sangue nas mãos e tudo, mas os danados dos insectos já tinham deixado as suas marcas: quando cheguei a casa, mais parecia picotada.

Foi mais um momento Calmiderm.

(é... agora que penso nisso, bem que posso abrir aqui uma série intitulada "momentos Calmiderm". De duvidoso interesse, é sabido, mas certamente profícua.)