domingo, 1 de julho de 2012

Dois anos de zine!

We´re in Panama, issue 25

Ei-la, a zine comemorativa do segundo segundo aniversário de "We´re in Panama!". Quem diria? Dois anos! Leiam-na aqui, partilhem-na no facebook e não se esqueçam de participar no jogo. Mandem-me as vossas fotografias a lerem a zine até ao dia 1 de Agosto. O vencedor receberá uma surpresa na volta do correio - à moda antiga! E quem não gosta de receber uma encomenda postal? (Eu gosto, e quem me quiser mandar cartas, já sabe: Apartado 0831-00385, República de Panamá) E com isto... já estamos em Julho!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Há feiras e feiras

Esta semana, aqui na Cidade do Panamá, decorre uma feira da legalização promovida pelos serviços de migração, para proporcionar uma oportunidade de regularização àqueles que se encontram em situação irregular. Normalmente são pessoas de países circundantes, da América Central, que emigram para o Panamá, onde a divisa de facto é o dólar.

(Cumpre aqui abrir um parêntesis para explicar que uma das negociatas dos tempos do canal implicou que a moeda nacional, o Balboa, fosse sempre equivalente ao dólar, e que o papel moeda que circula seja o dólar. Cá no Panamá há emissão de moeda metálica, com tamanhos e valores iguais aos da moeda metálica dos Estados Unidos. Fecha parêntesis e segue.)

A miragem do dólar permite, portanto, a muitos destes emigrantes terem salários com os quais não poderiam sonhar se estivessem nos seus países de origem. Muitas vezes com uma educação ao nível do ensino primário, estas pessoas vêm fazer trabalho doméstico ou de "nanas", tornando-se muitas vezes nas educadoras das crianças de muitas das famílias locais e radicadas no Panamá.

Estes imigrantes são alvos fáceis: de posição muito humilde e com muito poucos recursos para lutar pelos seus direitos, acabam por rapidamente exceder a validade dos seus vistos de entrada no país e ficar em situação clandestina.

Na rua, por incrível que nos possa aparecer, há polícias a pedir a identificação aos transeuntes (curiosamente, não aos extraordinariamente mal educados condutores, que muitas vezes nem encartados são), o que acaba por colocar estas pessoas numa situação ainda mais vulnerável.

Mas o Panamá precisa destes emigrantes e por isso, apesar de não lhes fazer a vida muito fácil, organiza feiras de legalização periódicas. E aqui chegamos ao presente.

Começou na segunda-feira passada mais uma feira da legalização. Para terem uma ideia, uma empregada doméstica cá tem um salário de 300 dólares, mais coisa menos coisa, e o investimento para terem a sua situação regularizada - por apenas dois anos! - é equivalente a mais de quatro salários. Sabem o que isso significa? Que não tendo acesso a crédito, precisam de um patrão que aceda a adiantar o dinheiro para que possam sonhar com andar pela rua tranquilas.

Mas as dificuldades não acabam aqui: também precisam de um patrão que as liberte uma semana inteira, já que a feira é tão desorganizada que as pessoas fazem filas desde Domingo, dormem lá, tiram senhas, esperam, revezam-se para poderem ir comer ou à casa de banho. Hoje, sexta-feira, e já passados quatro dias inteiros, dizem que talvez amanhã, sábado, pela uma da tarde, estejam despachados.

Que dizer? O panorama é este, e as pessoas que recorrem a estas feiras estão numa situação tão vulnerável que não ousam queixar-se. O que querem é sair de lá com o tão desejado carimbo no passaporte, para poderem estar tranquilas. Por apenas dois anos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ovelhas há muitas

My #knitting is this big. Chamamos-lhe Ovelha Avó.

Desde Janeiro que estou a tricotar esta ovelha, digo, este cobertor. Ao início, era apenas meia dúzia de pontos na agulha circular. Depois começou a crescer e entrou na sua fase espanta-espíritos.

A metamorfose foi-se dando, paulatina: de nuvem passou a pequeno animal, e daí a ovelha, que foi crescendo e crescendo, à medida que fui tirando mais uma meada à caixa, a dobei e a fui somando aos milhares de malhas que o cobertor já tinha. A sua construção é circular, do centro para a extremidade; por isso, só acaba quando uma mulher quiser (ou nele se afogar), com uma borda, que também é tricotada. E estou nisso, na borda tricotada, depois de achar que dois metros e meio de diâmetro já requer uma cama nova - e um Inverno.

Enquanto testava malhas para a borda, perguntei ao Príncipe que achava e se não lhe parecia demasiado avó. Ele olhou para mim como quem estabelece o óbvio, levantou o indicador e apontou para a massa branca no meu colo: "isso tudo é a Ovelha Avó".

Ficou baptizada.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

¡Viva México!

"We´re in Panama!", issue 24

Está no ar o número 24 da zine!

Este mês, o tema é o México, essa cidade e esse país de que tanto, tanto, tanto gostei. A inspiração foi tanta que desta feita tinha muitos, muitos desenhos que não pude incluir por falta de espaço.

E também: no mês que vem celebramos os dois anos de publicação zinesca ininterrupta! Incrível, não acham? Estou a arquitectar um plano celebrativo que se estenderá, naturalmente, aos meus caríssimos leitores. Em breve darei notícias.

Boas leituras e bom fim-de-semana!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais panamices

Hoje, no elevador, confirmei que muitas pessoas no meu edifício não sabem como usar os botões da chamada de elevador. Cada patamar tem dois: um com uma seta para cima; outro com uma seta para baixo. Funcionam de uma forma bastante básica: quando uma pessoa se dirige a um andar acima daquele onde está, carrega na seta para cima; quando, por seu turno, se dirige a um andar abaixo daquele onde se encontra, carrega na seta para baixo. Elementar? Diria que sim.

Mas no Panamá as coisas são diferentes e a doutrina vigente neste edifício é um pouco alternativa: quem chama um elevador para ir para um piso acima daquele onde está carrega na seta para baixo (ou seja, de chamada para descer). Porquê? Porque o elevador precisa de descer (do andar onde ficou estacionado até ao andar onde a pessoa se encontra) para depois poder finalmente subir.

E não há forma de convencer as pessoas de que se carrega na seta para cima quando se quer subir e na seta para baixo quando se quer descer. Na cabeça delas, isso só afasta o elevador e torna a espera mais longa. Não têm a menor noção de que obrigam o elevador a paragens desnecessárias durante uma viagem no sentido contrário àquele que desejam, o que prolonga ainda mais a espera de todos.

Haja paciência.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vem aí a bela da chuvada. #panamá

De manhã, tudo indicava que aí vinha uma enorme chuvada. Mas o São Pedro  tinha outros planos, andava ocupado com qualquer outra coisa, de maneira que nos presenteou com um fantástico dia de sol e bons pedaços de céu azul, para matar a saudade.

E nem uma gota de chuva!

E o fim da tarde foi feito de pôr-do-sol dourado e cor-de-rosa. É aproveitar, minha gente, e celebrar; dias assim são uma dádiva.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

In progress. For the first time, co-authored verses in French. #embroidery #babyblanket #abbrigate

Como talvez tenham percebido pelo post anterior, estivemos com obras em casa. Acabaram ontem, e hoje vieram retirar parte das máquinas. À boa maneira panamenha, o senhor foi lá abaixo levar a máquina principal, e voltaria logo para vir buscar o resto do material. Como quem vai comprar cigarros, nunca mais voltou. E não é inédito o "esquecimento" de material em casas de clientes.

De situações semelhantes foram feitas as duas últimas semanas, e por isso - e para me abstrair um pouco - deixo aqui uma fotografia duma manta que estou a bordar. É um presente para um amigo distante (no tempo e no espaço), em conjunto com outra amiga, e pela primeira vez tem versos em português e em francês. Uma manta bilingue, portanto. abbrigate*, claro.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

No Portugalize.me, "Postais que transcendem fronteiras"

Já aqui contei que escrevo um post semanal no blog Portugalize.me. Penso que o âmbito desses posts também é válido aqui no Entre..., e por isso, de agora em diante, transcrevê-los-ei aqui também neste estaminé. Espero que gostem!


*


Ele há "postais" que transcendem qualquer fronteira.

Já de volta ao Panamá, temos estado com obras em casa, em virtude (ou desvirtude) de o chão de pedra da sala se ter levantado e explodido, devido a um "assentamento" do edifício. E pensar em obras em casa dá logo dores de cabeça, seja em que latitude for.

Com obras aqui no Panamá, e com este contacto forçado com o mundo da construção civil, tem sido curioso descobrir que há estereótipos que pensava serem bem "tugas", mas, bem pelo contrário, são universais.

Comecemos então pelo Pintas. O Pintas, assim chamado devido ao seu discurso e linguagem corporal de "vocês desconhecem tudo sobre o tema e eu, em contrapartida, domino-o", chega e entra casa adentro, dono da empresa que vai executar o arranjo. Para ele, tudo é fácil, nada suja e os rapazes vão deixar tudo num brinquinho quando saírem. O melhor de tudo é a sua pontualidade, em que "agora" significa "daqui a meia hora, com sorte" e "estou no elevador da outra torre" significa "não me maces, mulher, que sou preciso noutro lugar". Há sinais que o delatam: o porta-chaves com a chave do carro que pende do bolso, deixando a marca de fora. A camisa, não entalada, a cair-lhe em grande estilo por cima das calças de ganga, que são de marca e vincadas, claro. Usa sapato fino e nota-se, de uma forma geral, que há anos que não carrega um balde, quanto mais um carrinho de mão. Não admira que não saiba que uma obra suja, olhando para o seu aprumo; ele simplesmente não frequenta. Para melhorar tudo, trata toda a gente por tu, desde o empregado ao cliente, e pergunta muitas vezes se entendemos (porque todos sabemos que nós, mulheres, pouco ou nada entendemos).

Depois temos o Empregado do Pintas, um pobre desmotivado cuja única luz na sua vida laboral é o dia do pagamento. Nesse dia, trabalha meio tempo para ir receber o cheque e distribui com intervalos generosos de tempo as tarefas pelas poucas horas em que trabalha. Do Pintas, nem o número de telefone tem; encontram-se apenas quando este aparece, qual visão, para vistoriar o trabalho, e de caminho dar-lhe ordens. O Empregado do Pintas é um pobre desmotivado, que não entende o conceito de brio nem lhe compensa trabalhar mais rápido. Por isso traz o jornal, o telemóvel, e, se possível, companhia para conversar. O seu lema é "Calma. Muita. Calma."

Finalmente temos não os senhorios (que desses, felizmente, só podemos dizer bem) mas sim a sua Representante na cidade, já que vivem fora. E a sua Representante é, também ela, um estereótipo. É reconhecida pela forma como trata mal a quem sente que está num degrau abaixo na sua linha nobiliárquica interna, aquela que só ela conhece, e com falsa deferência a quem sente que está acima. É um encanto na sua calça justíssima e de cintura demasiado baixa, e exibe a sua roupa interior como se disso dependesse a nossa felicidade. Naturalmente, interrompe os outros e não ouve nada do que lhe dizem, inventando explicações e justificações para assuntos que claramente não domina. É constantemente desmentida pelos factos, que ela ignora pacificamente. Afinal de contas, ela sabe.

Tudo isto para dizer o quê? Que a expressão "só neste país...", tantas vezes ouvida na paragem do 713, não tem qualquer validade. Ele há "postais" que transcendem qualquer fronteira. (texto originalmente publicado a 21.05.2012, no blog Portugalize.me)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

San Miguel de Allende, México

San Miguel de Allende, #méxico

San Miguel de Allende, onde os nomes das lojas são pintados. #méxico

Tudo é bonito em San Miguel de Allende, #méxico

Confirma-se: o meu encanto com o México manteve-se até ao final da estadia. Por momentos tive medo que alguma coisa acontecesse e mudasse radicalmente de ideia. Mas não. Não fui assaltada, nem assediada, estive em lugares lindos, fui bem atendida em todo o lado, os carros pararam nas passadeiras e lavei os olhos - e a alma - com as casas, as cores, as vistas.

San Miguel de Allende confirmou o seu lugar no topo da tabela da minha paixão mexicana, seguida de muito, muito perto pela comida, e logo a seguir pela Cidade do México - ou por alguns bairros da Cidade.

San Miguel de Allende, coisa mailinda. #méxico

Quando chegámos, fomos recebidos por uma procissão na praça principal, com direito a guitarrada e cantoria, ao mesmo tempo que na Igreja Matriz se celebrava um casamento e um grupo de mariachis, à porta, esperava pelos noivos.

San Miguel de Allende, #méxico

A cidade está muito bem conservada, desde as suas cinquenta e três mil igrejas (não sei ao certo, mas são muitas), às livrarias e centros culturais, uma biblioteca pública cheia de livros e de gente, lojas e lojinhas bonitas, com pátios e fontes, e ruas empedradas e inclinadas, para ajudar a digerir a tortilha e o gelado.

San Miguel de Allende, #méxico

Assim nos recebeu o #méxico

Ficámos instalados numa casona colonial linda, de portas pintadas e quartos a dar para o pátio, pertinho do centro e dos correios, onde me deliciei na minha plática com o funcionário. Ao saber que os postais eram para pessoas fofinhas, deu-me uns selos lindos e adequados (e cor-de-rosa) para neles colar. Espero que cheguem brevemente, porque sei que são muito apreciados.

San Miguel de Allende é daquelas terras onde me imagino a voltar uma e outra vez.

Dados: ficámos alojados na Casa Schuck (muito recomendável), comemos na Hacienda de Guadalupe (também deliciosa, mas desconfio que em qualquer boteco mexicano se come bem). Fizemos compras em várias lojinhas, onde sempre, sempre nos trataram com imensa simpatia e atenção. Ah, serviço mexicano, já tenho saudades.

Mais fotografias mexicanas aqui.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Cartas do México

Street bench, Mexico city

A Rua da Amargura afinal existe (em San Angel, Cidade do México)

Até o chão é lindo em San Angel, #méxicodf

Nunca uma cidade me surpreendeu tanto, e tão positivamente. Terá sido porque as minhas expectativas eram realmente baixas, depois de tantos avisos quanto à segurança, ao trânsito intenso, à poluição do ar. Imaginava uma cidade gigantesca (que é), onde não podia caminhar pela rua, nem andar num autocarro, muito menos ter cara de estrangeira (que também tenho).

Mas não: após alguns dias aqui, estou fascinada com esta cidade. Cada bairro (e são muitos) é como uma pequena cidade dentro da cidade, e portanto atmosfera muda de rua para rua. É uma cidade cortada por vários eixos, de vários quilómetros, onde o trânsito é, de facto, ensurdecedor. E um quarteirão ao lado, nem mais nem menos, estamos no interior do bairro, ouvem-se os passarinhos e circula o ocasional carro, que abranda para me deixar atravessar.

A #cotel, no #panamá, já recebia esta mensagem. #méxicodf

Walking here is a pleasure, there are details to be found everywhere. #méxicodf

There's beautiful type everywhere. #méxicodf

"...and your address is, please?" #méxicodf

 Em muitas ruas me sinto em Buenos Aires, mas sem estar. As caras aqui, contrariamente ao que acontece na cidade meridional, são mestiças, desde o executivo até ao vendedor de rua. As pessoas são de uma simpatia que há muito não vejo - talvez desde que estive a fazer compras no comércio de bairro lisboeta. A vendedora de tecidos artesanais esteve a mostrar-me as diferentes moedas, quando lhe disse que ainda não as conhecia muito bem; foi até buscar a de 20 centavos de peso (1 cêntimo de euro) para que eu a conhecesse. Mostrou-me tudo o que fazia com os tecidos que vendia, desde o avental que trazia até à encomenda de guardanapos para um restaurante. Mais do que uma transacção, foi uma bela conversa. Saí com a alma cheia de sorrisos e voltei à rua, onde me senti tranquila, segura, e onde ainda não ouvi um único piropo (assédio, gente, assédio).

E já que falamos em costumes machistas, ou a ausência deles, também me surpreendeu muitíssimo que aqui os casais homossexuais dêem livremente as mãos em público, se beijem e abracem, sem serem olhados de relance ou serem apontados. Para mim, mais que um sinal dos tempos é indício de desenvolvimento social. Não sei se será assim em todo o lado, mas aqui, certamente, é.

The Metrobus is the best in terms of public transportation! #méxicodf

Até agora, usei o Metrobus, transporte público colectivo idealizado em Curitiba e importado por tantas cidades (Bogotá é uma delas). Trata-se de um "metro" de superfície, em que as carruagens, na verdade, são autocarros. O acesso é feito através de estações elevadas, de acesso reservado, e os veículos circulam em faixas dedicadas e isoladas, nas maiores avenidas. Não exagero quando digo que passam com intervalos de 15 a 30 segundos e as viagens têm um custo de 5 pesos (30 cêntimos de euro). Além disso há o Metro, que usarei amanhã e que tem uma extensa (e segura) rede.

É por tudo isto que a Cidade do México me conquistou de supetão, quando menos esperava. Estou fã, fã - e se tiver oportunidade, volto.

The Angel on Paseo La Reforma, México City

A colecção de fotografias, no flickr, encontra-se aqui.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

Seguindo as recomendações dos amigos chapines (guatemaltecos), assim que aterrámos no aeroporto La Aurora (que nome lindo!), na Cidade da Guatemala, encaminhámo-nos directamente para a antiga capital do país, cujo nome é, sem surpresas, Antigua Guatemala.

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

O nome pode não ser surpreendente, mas a cidade é. Mais tarde ficámos a saber que já não era a primeira capital, mas sim a terceira, depois de Iximchel (que não visitámos) e Ciudad Vieja (que visitámos, de bicicleta, e fica a poucos quilómetros de Antigua). A cidade está rodeada por três vulcões, visíveis de todos os pontos da sua planta e que muito ajudam à orientação. Ao sul, o vulcão de Água, assim chamado devido a um triste acontecimento em 1541, quando uma imensa enxurrada de água estagnada acumulada na cratera, juntamente com lama e terra, inundou a então capital. A sua destruição ditou a mudança da capital de Ciudad Vieja para Antigua. Os outros dois vulcões são a oeste da cidade: Fuego e Acatenango, que subimos.

Antigua é o arquétipo de cidade colonial espanhola, com a sua praça mayor - aqui, denominada de Parque Central, já que é arborizada - onde se localizam os palácios de governo e a catedral. É, literalmente, o centro da cidade e também o seu eixo: a partir daí, as avenidas denominam-se pelo seu número, seguido de "norte" ou "sul" e as ruas, por seu turno, pelo ordinal, seguido de "nascente" ou "poente". E por se tratar de uma grelha, a orientação é facílima em Antigua, sem surpresas.

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

As ruas são calcetadas à maneira antiga e a construção, bastante preservada, é colonial; em cada rua há uma igreja, mais ou menos recuperada, ou um mosteiro reconvertido em hotel. É esta riqueza de património - e a sua conservação - que conquistaram a certificação da Unesco como Património da Humanidade.

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

É uma cidade que conta com boa infra-estrutura turística e que tem muitas escolas de espanhol como língua estrangeira. Por isso, a sua população flutuante consiste de muitos estrangeiros que aí permanecem por temporadas, fazendo da cidade uma base para as explorações da região dos vulcões.

Antigua Guatemala

Antigua Guatemala

Os restaurantes são muitos e variados e, para nossa imensíssima alegria, descobrimos que os guatemaltecos gostam de sopa. Há sopa a toda a hora e a toda a refeição, normalmente acompanhada por uma fatia ou duas de pão. Pela primeira vez, comi sopa de tortilla negra, uma sopa de vegetais com pedaços de tortilha feita com milho negro (seguramente tem um nome específico, que eu desconheço).

Antigua Guatemala

Passámos dois dias em Antigua, onde nos cruzámos várias vezes com as procissões por ocasião da Semana Santa. Quem quiser apreciar a religião de forma bem teatralizada, muito tétrica, ver homens mascarados de carrascos e meninas pequeninas com andores pesadíssimos aos ombros, não pode perder Antigua nesta época. Para mim, todo este espectáculo é um pouco excessivo, mas quando me cansava mudava de rua e via outra fachada linda.

Depois destes dois dias, usámos a cidade como ponto de partida para explorar os arredores. Contratámos passeios com duas agências, uma delas recomendada abaixo, e aproveitámos o calor com que nos receberam no Hotel Cirilo, um lugar que aconselho vivamente a quem gostar de alojamento cómodo, limpo, com um acolhimento familiar e com todos os confortos de um hotel de primeira categoria.

As nossas recomendações são:
Hotel Cirilo
Old Town Outfitters (a agência de viagens com passeios bem alternativos)

Temos muitas recomendações de restaurantes, mas essas ficarão para outro momento.

E para quem quiser ver mais fotografias, a colecção flickriana - ainda em actualização - encontra-se aqui. Muitas fotos são do Príncipe, a quem agradeço; ele tem um olho perspicaz e é rápido nos reflexos, tendo tirado fotografias espectaculares durante as férias.
Antigua Guatemala

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Portugalizo-me

Fly London

Aqui há umas semanas, a Raquel Félix iniciou um muito interessante projecto de valorização das marcas portuguesas e da nossa apreciação das mesmas, tanto dentro como fora de portas. Lançou o blog Portugalize.me e muito amavelmente convidou-me para contribuir semanalmente. Este é o mais recente post que lá escrevi e a ilustração também é minha - quem me conhece, sabe o amor que tenho por estas sandálias!

Leiam e subscrevam!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Vulcão Acatenango, Guatemala

A subida ao Acatenango foi das melhores experiências de viagem que tive até hoje. Melhor? Bem, talvez marcante ou emocionante sejam mais apropriados. Ou, reconsiderando, e usando uma expressão da minha querida C1, "pode ser melhor".

O dia começou pela fresca: às 4h30 da manhã, ainda escuro como bréu, apanharam-nos no hotel. Em Antigua, o frio da madrugada aperta. Por isso estávamos com as várias, digo, todas as camadas que tínhamos levado para a viagem. Na mão, o pequeno-almoço num saquinho. Entrámos na van com a nossa banana, o pão com doce de manga e o sumo de pêssego sem imaginarmos o que nos esperava.

Sunrise en route to Acatenango volcano, Guatemala

O sol nasceu no caminho entre Antigua e a aldeia que nos serviu de campo de base. Apareceu atrás de uma colina, laranja, lindo, prometendo um dia especial. Oseas, o guia, no banco do condutor, parou para nos dar aquele regalo por nos termos levantado tão cedo. Nós fotografámos.

Going up, many hours to go. #Guatemala #Acatenango

Chegámos então ao nosso ponto de partida, uma aldeia com uma latrina comum onde de um ganchinho pendiam folhas de jornal. A 2200 metros sobre o nível médio do mar, naquele aglomerado de meia dúzia de casas vivem os agricultores que cultivam as terras aráveis da encosta do vulcão. E também lá vive o nosso segundo guia, um maia de nome Sixto, que até aos dezoito anos pensou chamar-se Enrique.

Começámos a subida aos infernos. Sim, quem pensa que o inferno é exclusivamente subterrâneo está redondamente enganado. O vulcão Acatenango é um inferno, mas também é um paraíso.

Aos vinte minutos de caminhada, por entre campos de batata, de feijão e de milho, eu sentia que a minha garganta se fechava com o bater frenético do coração. Nem eram as pernas: era o coração que se tentava habituar ao esforço, num ar que já era rarefeito. Tive de parar com frequência para poder abrir uma estreita passagem para o ar. Pensei, muito seriamente, que não poderia continuar. O grupo ia lá à frente; comigo, o Príncipe e Sixto, que prontamente me arranjou uma cana-cajado. Continuei.

Na paragem seguinte, Oseas, o guia, contou-me o segredo: dar passos curtos, lentos, a um ritmo constante e sem paragens. E a verdade verdadeira é que, passado um bocado, me senti bem. Cansada, mas bem. As pernas obedeciam-me, o coração tinha voltado ao lugar dele, no peito. As costas estavam feitas um rio, reajustaram-se camadas de roupa e aí continuámos nós.

Depois dos campos cultivados passámos a uma etapa de bosque de montanha tropical. A vegetação, cerrada, oferecia-me mais oxigénio que os campos cultivados. Os trilhos eram, a dada altura, perfeitos caminhos de cabras, descidos aos saltinhos por quem havia pernoitado na cratera. Quando nos cumprimentavam, só lhes conseguia dizer que os admirava.

E sabem? A vantagem de viajarmos por países cuja língua conhecemos é exactamente essa: as pessoas respondiam-me, alentavam-me, diziam-me que faltava pouco para a próxima estação de descanso.

Walking on clouds (almost). #acatenango #guatemala

E entre estações de descanso, lá subimos mais metros e chegámos à parte de pinhal. Pela estação seca e pela altitude, muito menos denso que o bosque abaixo. A esta altura, as nuvens começaram a vir namorar-nos de perto. Às vezes víamos a pessoa da frente; às vezes não.

Misty, cloudy, wet. #acatenango #guatemala

Passado algum tempo (horas, minutos?) chegámos ao ponto máximo da montanha em que nos encontrávamos e começámos a contorná-la num trilho estreitinho mas muitíssimo agradável de pequenas subidas e trechos planos. As minhas pernas já não sabiam mexer-se sem ser a subir, por isso obrigava-me apenas a separá-las em passos largos, para aproveitar a inércia do movimento.

Depois desta etapa de paraíso começou a verdadeira subida: no terreno de terra vulcânica solta, a sensação era a de andar na praia, na areia seca, como se estivéssemos a subir uma duna interminável.

Having lunch. One hour to go. #guatemala #acatenango

Ao fim de cinco horas de subida, e a uma da cratera, Oseas preparou-nos um almoço de tortilha com guacamole, tomate e frijoles refritos para retemperar forças. A esta altitude, quando o sol brilhava, o calor era abrasador. Quando vinham as nuvens, o frio congelava-nos. Em dois ou três minutos a sensação térmica variava da praia para o ski, do Verão para o Inverno. Quando dei por mim, tinha os lábios completamente roxos. Temi que tivesse que ver com o mal de altura, mas tive sorte: contra o frio basta pôr mais uma camada e calçar umas luvas, emprestadas.

Chegou então a última subida, porventura a mais difícil: pedra e terra solta, numa inclinação sem um arbusto ou árvore. Caminhámos pela crista da montanha: qualquer passo ao lado seria já, tecnicamente, uma encosta - bem inclinada, por sinal. A cratera esperava-nos, cada vez mais perto. Mas cada vez custava mais pôr um pé à frente do outro. No grupo, houve quem precisasse de comprimidos para combater as náuseas provocadas pela falta de oxigénio. Comigo, não sei que milagre se processou: depois do início tremido, tudo se compôs e não mais senti os efeitos do ar rarefeito.

Quase a chegar à cratera, sentia os olhos a marejar-se de lágrimas. Quem diria? Depois de ter achado que ficava logo no início, não foi com muita confiança que retomei a caminhada. Estar ali, naquele momento, quase, quase a chegar à cratera foi mágico.

We made it to the crater, at 3976m! Barely visible, Fuego volcano erupting. #acatenango #guatemala

Hail falling on the crater, mixed with ash from Fuego volcano. #guatemala #acatenango

E depois cheguei. Seis horas, 15km e 1776m de desnível mais tarde, cheguei à cratera. Dei um salto. Celebrei. Ao lado, o vulcão de Fuego fazia breves aparições por entre as nuvens. Da sua cratera saía uma linha de fumo; as suas erupções ouviam-se ali mesmo ao lado e a cinza caía-nos em cima.

Up in the sky: on the crater of the Acatenango, Guatemala

We made it to the top!

Começou a cair uma granizada valente que foi cobrindo a cratera de branco. As pedrinhas que me caíam nas orelhas doíam. Muito. E começámos a descida.

Não fazia a menor ideia de como conseguiria chegar à base, sobretudo tendo em conta que as minhas pernas já só sabiam subir. Descobrimos, com muita alegria, que a terra solta - tão terrível de subir - era muitíssimo divertida de descer, com o improvável bónus de ter de esvaziar os sapatos de pedrinhas umas vinte e três vezes por minuto. Descemos por trilhos diferentes, trilhos estreitos, largos, de terra firme e terra solta, de pedras, de raízes. O meu rabo viu o chão mais que uma vez.

Até que, finalmente, chegámos à aldeia. E aí, as minhas pernas recusaram-se terminantemente a mexer mais um milímetro que fosse.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Enquanto não chegam os relatos guatemaltecos...

"we're in Panama!" now at Ay Robot! in la Antigua Guatemala. #zine

...conto-vos que a zine deu uns bons passeios pela Guatemala e foi parar à loja de banda desenhada antigüeña "¡Ay Robot!". Se espreitarem o site, verão o balcão onde esta fotografia foi tirada.

Finalmente resolvi o problema de toner que tinha com a impressora e há novamente distribuição de exemplares pela cidade... e pela América Central. E sabem que mais? Está quase a fazer dois anos de vida! Dois! Viva!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Um cheirinho da Guatemala, "Guate" para os amigos

Mint tea in a new country.

Procession during holy week in Antigua Guatemala.

"we're in Panama!" now at Ay Robot! in la Antigua Guatemala. #zine

Inner patio of Café Condesa, la Antigua Guatemala.

How green can watercress soup be? And how red can strawberry juice be? #guatemala

Going up, many hours to go. #Guatemala #Acatenango

Misty climb

Holy week procession in la Antigua Guatemala.

See you, Tikal

We climbed two of these volcanoes. :)

Estamos de regresso da Guatemala, depois de nove dias de passeios, subidas, descidas, bicicletas e muitos, muitos quilómetros nas pernas. Antes de entrar nos relatos detalhados, deixo aqui um cheirinho do que foram estes dias. Podem, se quiserem, ver mais fotos aqui.

Na última foto que aqui vêem, vimos o último pedacinho de céu azul durante vários meses; aqui no Panamá já começou a estação das chuvas, o que significa que só lá para final de Dezembro teremos um dia de "sol firme e céu azul".