terça-feira, 6 de julho de 2010

Em Nova Iorque fui ver museus

No Guggenheim

Como qualquer pessoa que abra um guia de Nova Iorque sabe, a cidade tem muitos museus, qual deles o mais apetecível. Então museus de arte, arte aplicada ou design, nem se fala: a escolha fica difícil. Por isso, decidi impor a minha regra de um museu por dia e segui para bingo, isto é, escolhi os museus que mais queria ver. Obviamente deixei muita coisa para trás, o que foi uma pena, mas o que vi, vi com atenção, dedicação e tempo até de me arrepiar e largar a ocasional lagrimita. Acho que a escolha foi acertada.

No Guggenheim

O primeiro museu que visitei, o Guggenheim, tem aquela estrutura em espiral que já conhecia de mil filmes, fotografias e reportagens. Poder-se-ia pensar que é uma desilusão quando lá chegamos, que já nada é surpresa, que só lá vamos "confirmar", em vez de descobrir. Mas não. É lindo e arrepiante estar dentro daquela construção.

Confesso: não delirei com a exposição em si, "Haunted". Não que não seja interessante. Só não é o tipo de expressão artística que me chama. Por outro lado, a exposição estava narrada partindo do piso térreo para cima, subindo os seis andares na estrutura em espiral. Ora, muitas vezes, as plaquinhas com a informação sobre a peça estavam à esquerda da respectiva peça, ou seja, acima da dita. Isto significa que o observador é forçado a subir para ler a placa e a voltar a descer um bocadinho para apreciar a peça. Uma canseira.

Mas, e há sempre um mas, nas salas anexo do museu estavam algumas exposições temporárias. A de Julie Mehretu deixou-me completamente aparvalhada, encantada, hipnotizada e mesmo fantabulizada. É um conjunto de pinturas gigantes onde a cada olhar, e a cada distância, se descobre um novo nível de leitura. Fiquei muito tempo naquela sala branca, observando as pinturas e as pessoas que olhavam, se aproximavam, se afastavam dos quadros gigantescos, que nos engoliam e regurgitavam. Murmurei várias vezes: "compro todos, podem entregar lá em casa".

No dia seguinte, a escolha recaiu sobre o Museu de Arte e Design, ou MAD (aprecio o sentido de humor). Comparado com outros gigantes do panorama local, este museu é pequenino, característica que me agrada sobremaneira. Tirando a falta do ocasional banquinho para o descanso periódico, é um museu com o tamanho perfeito, já que podemos ver todas as exposições sem nos fartarmos de tanta cultura. Porque a cultura, meus amigos, dá muita bolha no pé, essa é que é essa.

Uma das exposições era sobre (pausa para o pigarreio) objectos feitos com coisas mortas. Chama-se Dead or Alive e, apesar de ser, como explicar, estranha, é muito, muito interessante. Há objectos que são verdadeiramente lindos, e só quando percebemos que aquelas coisas são insectos verdadeiros (nhaca) ou penas de pombos (nhaca nhaca) é que sentimos - literalmente - comichão.

Gostei também da mostra sobre bicicletas feitas à medida: quem diria que seria tão interessante?

A loja deste museu é uma terrível perdição: entre outros livros, encontram-se à venda catálogos de exposições antigas - e qual delas a melhor. Para terem uma ideia, a minha mala voou para Nova Iorque com quatro quilos (não estou a exagerar) e voltou com mais vinte. Livros. Livros. Livros. E só comprei os que sabia que não ia encontrar por internet.

No MoMA

O último museu que vi foi o MoMA. Zanguem-se os puristas do Met; não deu. Estive lá da outra vez em que fui, em miúda, com os meus pais, e tenho a imagem de um museu gigantésimo, com muita arte egípcia (de que gosto) e muita, muita ala para ver. Esqueçam a bolha do pé. No Met, é mesmo chaga.

Posto isto, fui ao MoMA. Muito bem acompanhada, naveguei por todas aquelas salas, pisos, escadas, tudo lindo, tudo branco, e tirei partido do horário ampliado às quintas-feiras, só durante os meses de Verão.

Também aqui, muitíssima emoção ao ver As Oliveiras, de Van Gogh e, mais tarde, La Danse (I), de Matisse. Bem a propósito, em Julho abre uma exposição só, só sobre Matisse. Um privilégio!

Parece que neste museu se concentram todas as obras que nos aparecem, ou já apareceram, nos compêndios de história da arte contemporânea: desde Picasso a Frida Kahlo, passando por Piet Mondrian e Brancusi, nesta colecção há de tudo, bem exposto, bem narrado no audio-guia gratuito e com muito espaço para gozar cada uma das obras. Lindo, e a não perder.

As exposições temporárias também são muito boas, nomeadamente as que são sobre design: "Shaping Design Modernity", "Action! Design over time" e "What was good design?MoMA´s message 1944-56"

Felizmente já nem entrei na tentação da loja do museu (vinte quilos em livros, eu seja santa), mas diz que o brownie do bar é muito bom.

Missão museológica cumprida, fui às Nações Unidas. Mas isso é conversa para outro dia.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Global Peace Index

Assim de repente, apraz-me muito partilhar que, segundo o Institute for Economics and Peace, Portugal está em 13.º lugar no que toca ao Global Peace Index. Esta honrosa posição posiciona-nos à frente de países manifestamente conhecidos como sendo pacíficos e tolerantes como o Canadá, em 14.º, ou até mesmo a Alemanha, em 16.º. Em relação à vizinha Espanha, que está em 25.º lugar, então nem se fala.

Mais uma razão para nos sentirmos muito orgulhosos de sermos portugueses e de fazermos o país que temos.

Nota: para quem quiser saber como calculam o dito índice, é visitar esta página.

Fui ali e já vim

Na semana passada fiz uma visita muito boa à minha prima, em Nova Iorque. Ainda nem aterrei bem, mas quando os meus dois neurónios voltarem ao Panamá, conto mais.

Nos entretantos, já estou com saudades!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Hoje é um dia especial!

Para além de ser o dia do solstício, é também o dia de um aniversário muito especial! Cá deste lado do charco também vamos celebrar este número redondo. Parabéns!

Portugal! Portugal!

Levantámo-nos com as galinhas para acompanhar o jogo com a Coreia do Norte. Valeu bem a pena! Agora resta esperar o jogo com o gigante-Brasil... Em todo o caso, hoje impõe-se: Portugal! Portugal! Portugal!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu o homem, fica a obra

Morreu José Saramago. Já não era novo e não estava bem de saúde, segundo o jornal, portanto, não é propriamente uma notícia inesperada. Que descanse em paz e que a família se recomponha da sua perda, são os meus desejos.

Mas o que é importante aqui é que a sua obra fica, obra essa que vamos querer continuar a ler e reler porque os seus livros são, simplesmente, fora de série.

À procura de casa (a parte I de uma série, seguramente, bem longa)

Cá no Panamá usam-se as casas gigantes, sejam elas apartamentos ou vivendas, o que importa é que sejam muito grandes. Bem aproveitadas, nem por isso, o aproveitamento de espaço não é, claramente, uma prioridade. Influências norte-americanas? Espaço a mais? Não sei. A verdade é que todo e qualquer electrodoméstico é gigante e o espaço excessivo lá se vai preenchendo.

Nas nossas buscas de casa, um dos nossos requisitos é que tenha lugar para a máquina de lavar loiça. Ora aqui, esse requisito em particular é visto como uma excentricidade de europeus. Para quê uma máquina?

Já vimos casas com espaço de dois metros de largo para o frigorífico - e não exagero, dão para guardar até roupa e livros (e tudo o que nos aprouver). Fogões igualmente gigantes, fornos enormes, micro-ondas que ultrapassam tudo o que já tinha visto. Já para não falar nas máquinas de lavar e secar roupa - duas funções que até podiam estar na mesma máquina, mas para quê, se espaço não falta?

Agora: máquina de lavar loiça é que nem pensar. Isto porque, como já devem ter adivinhado, usa-se ter uma máquina humana para lavar a loiça, máquina essa que - nas casas que visitámos - é arrumada (ou seja, dorme e vive) num quartinho microscópico, a maioria das vezes sem janela nem ventilação.

Daí a minha frustração: casa gigante, sim; quarto de empregada, sim (uma bela arrecadação, no nosso caso); sítio para a máquina de lavar loiça? Nem pensar, até porque, como me disseram hoje, seria preciso mandar cortar o mármore da bancada!...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bailoterapia

Decidi começar no Panamá uma actividade que ia começar em Buenos Aires, mas que nunca aconteceu. Afinal, como diz a minha amiga F., não há que deixar a vida para depois.

Recém-chegada à cidade, vi num cartaz "yoga y danza" e pensei que não era tarde, nem cedo, era mesmo o momento certo. Matriculei-me e comecei a ir às aulas de Bailoterapia, disciplina que eu desconhecia totalmente que existia mas que, ainda só com três semanas de aulas, já mostra o seu poderoso efeito.

Sempre me considerei bastante descoordenada. Digamos que tenho muito jeito para línguas e, vá, para pintar qualquer coisinha, mas chega à parte do movimento e ou é uma coisa bem bruta, ou então... enfim, delicadeza e graça no movimento não são atributos que possa dizer possuir.

(Pausa: estou aqui a pintar um quadro que também não corresponde totalmente à verdade. Nadei durante muitos anos e parecia um peixinho a deslizar pela água. Tão torpe - ah, nem Thorpe! - não sou. Termina a pausa, a gracinha, e voltamos à nossa programação habitual.)

Corrigindo, portanto: sempre me considerei descoordenada para dançar. Avisei o professor, não fosse ele estar à espera de um prodígio da salsa e do merengue, e ele desvalorizou. O que era necessário era pasarla bien.

Pois que "la" passo muito bem. Já descobri que quanto mais relaxar e menos olhar para os pés do professor, melhor acompanho a aula. E, claro, tenho que ignorar a companheira que dança tão exageradamente, meneia tanto a anca, que parece um caniche sob o efeito de crack.

Quanto à parte "baile" do étimo, não sei. Já a terapia, essa, funciona muito bem: saio de lá com um enorme sorriso e, chegada a noite, durmo como um bebé feliz.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Tal Canal (parte I)

Confesso que não esperava que uma visita ao Canal do Panamá me entusiasmasse tanto, mas descobri que afinal os prodígios do engenho humano me fascinam.

A República do Panamá tem a particularidade de estar instalada na porção mais fina de todo o continente americano. Claro que isso talvez não fosse assim tão interessante se essa porção fininha, de 80km de espessura, se localizasse muito mais a norte ou muito mais a sul. Ir dar a volta ao Cabo Beagle, na Terra do Fogo, seria então um caminho só um bocadinho mais longo. Mas não: o Panamá situa-se precisamente no centro do continente, na porção de terra que liga a parte norte à parte sul. Se pensarmos no vitruviano, o Panamá está no umbigo, precisamente no umbigo do mundo.

(Pausa para a banda sonora, reminiscência dos anos de adolescência com o Jovanotti a cantar, em loop dentro da minha cabeça, o "ombelico del mondo". Fim da pausa musical.)

É por essa razão que o canal tem a importância estratégica que tem, porque encurta as rotas comerciais marítimas em várias dezenas de dias. E, para os panamianos, é talvez uma das principais fontes de rendimento do país.

Voltando à tal porção finita do continente americano, também conhecido por istmo, caracteriza-se por não estar toda ao mesmo nível: mais ou menos a meio do percurso que liga o mar das Caraíbas, no Oceano Atlântico, ao Pacífico, o terreno sobe alguns metros. Ora para vencer este obstáculo, foram criadas umas estruturas elevatórias chamadas de eclusas, que não são nada mais que pequenos compartimentos artificiais que se enchem ou esvaziam de água. Ao encher, o barco que lá está dentro sobe; ao esvaziar, o barco desce. Se estivéssemos a ver o canal de perfil, veríamos que a água das chuvas se acumula no Lago Gatún, um lago artificial provocado pela barragem com o mesmo nome. Esta água serve para alimentar então as eclusas, colocadas entre o lago e os dois oceanos, um de cada lado.

No dia em que fomos visitar o Canal, ou, mais precisamente, as Eclusas de Miraflores tivemos a sorte de ver a aproximação de dois navios, um em cada sentido, passando diante de nós precisamente ao mesmo tempo. O resto? Só visto, mesmo. E é bonito, quem diria?

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
Do miradouro, olhando na direcção do Pacífico...

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
...e na direcção do Atlântico.

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
Chega um barco, vindo do Pacífico. A eclusa ainda está com pouca água...

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
...como se pode ver aqui.

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
A água flui do compartimento mais alto (à direita) para o mais baixo (à esquerda, onde está o navio) e as comportas abrem-se.

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
O navio pode passar...

Canal de Panamá: Eclusas de Miraflores
...e seguir pra bingo, que é como quem diz, em direcção ao Atlântico!

Todas as fotos, aqui.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Estou que não posso!

Pode ser que os visitantes deste blog já tenham dado conta de um botãozinho aqui à direita. Ora espreitem. Estão a ver?

Pois é, na sexta-feira passada fiquei que não podia. Não é que alguém da equipa do Travelavenue.com achou que o meu blog era digno de entrar no grupo dos favoritos de 2010? É por isso, caros leitores, que estou que não posso. Que isto era só uma coisa para a família e os amigos. Que tinha só mão-cheia de leitores. E desses, alguns comentadores. Pois que afinal estou mesmo orgulhosa, extremamente babada e algo chatinha com o tema: aqui o "Entre..." está feliz.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A fiesta começa cedo

Os dias, cá, começam bem cedo. Levanto-me entre as 6h30 e as 7h da manhã todos os dias e o sol já vai alto. Já há muito movimento na rua e, como não está frio, não custa nada sair da cama e enfiar-me no duche. Pelo contrário, até sabe bem, para refrescar.

Ora pois que ontem, Domingo, me levantei em igual horário (e sem despertador) e deparei-me com um dia longuíssimo: que fazer às sete da manhã de Domingo? Vai que li, que tricotei, que isto e que aquilo e que às 9h, já depois do pequeno-almoço, decidimos subir à piscina no terraço.

Chegamos à área social do edifício (assim se chamam as instalações comuns, como ginásio - sim! -, piscina - hahã! - ou salão para eventos - tal qual leram), bem, como dizia, chegamos à área social do edifício e formulamos um vago desejo de encontrar a piscina vazia, ou pelo menos tranquilinha, para dar para ler mais umas páginas.

Mas os panameños são fiesteros e a fiesta começa cedo. Não sei a que horas terá acabado a festa no Sábado, mas posso afiançar que às 9h da manhã já se festejava com rum e whiskey e muita dança ao som de salsa.

Uma das conclusões possíveis é: people-watching é tão divertido.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Prodígio de organização? Hmmm...

ribbing

Para que conste, já comecei a fazer as prendas de Natal. Não que seja um prodígio de organização: sou é lenta, mesmo. E, além disso, não vale muito a pena tricotar para mim, dado que (e não me canso de repetir) agora vivo num país tropical.

terça-feira, 1 de junho de 2010

No filme das férias de outra pessoa

panama surreal

No Domingo passado queríamos ir visitar o Canal, mais concretamente as eclusas de Miraflores, mas enganámo-nos no caminho, atravessámos a Ponte das Américas e fomos parar ao meio da selva. Não selva urbana; selva da verdadeira. Da estradeca, entalada entre verde e mar, víamos pássaros exóticos a voar (vi um tucano!) e botecos à beira-mar a prometer peixes e mariscos de comer e chorar por mais.

Parámos num e entrámos num mundo paralelo: uma experiência surrealista proporcionada pelo sol a pique, um mar azul a perder de vista, ilhotas no horizonte e gente a dançar no meio das mesas ao som dos ritmos caribenhos que cá se ouvem, de preferência a todo o decibel.

O ceviche de polvo, esse, estava óptimo.

sábado, 29 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (15)

15_BsAs bye bye

Confesso aqui que não sou particular fã de futebol. Não sou. Gosto de acompanhar os jogos da selecção e, obviamente, fiquei muito contente com a vitória do nosso Benfica no campeonato nacional. E por aí fica o meu entusiasmo futebolístico.

Agora, convenhamos, não há melhor disparador de conversa que a simples menção de um clube de futebol, seja ele qual for. Explico: se há coisa de que gosto (e desconfio que herdei isso do meu pai) é de uma bela converseta com taxistas. Não há nada antropologicamente mais divertido que isso, tenho para mim, apesar de conhecer muita gente que não imagina tortura pior que a de ter de ir a falar enquanto não chega ao destino. Eu gosto, e muito.

Da próxima vez que entrarem num táxi proponho que olhem para o galhardete pendurado no retrovisor. E depois experimentem dizer o nome do clube.

(Num parêntesis, aproveito para revelar as minhas estratégias. Recorro principalmente a duas variantes: "então e o nosso Benfica, hã?" e a "como é que ficou o jogo do Boca?". Quem diz Boca, diz Sporting, Porto, Belenenses, Independientes ou River. Não importa. Fecho parêntesis e sigo para bingo.)

E assim, estratégia infalível, têm conversa garantida até ao final da viagem.

Buenos Aires bye bye (14)

14_BsAs bye bye

Cidade de cultura, em Buenos Aires há sempre qualquer coisa a acontecer: entre teatros, cinemas, museus, galerias de arte, centros culturais e espectáculos de rua, não há dia que passe sem actividades. A dificuldade, de facto, está na escolha.

Por isso, um dos nossos passatempos favoritos de fim-de-semana era ir ver o que havia lá perto de casa. Íamos ao Centro Cultural da Recoleta ou ao Museu de Belas Artes, ao Palais de Glace ou a alguma galeria, e havia sempre, mas sempre, qualquer coisa interessante para ver.

Uma das modalidades que a mim mais me impressionou foi a dos espectáculos de rua "a la gorra", ou seja, em que no final da apresentação é passado um chapéu para que as pessoas depositem a contribuição que entendam corresponder à qualidade do espectáculo. E não é que as pessoas colaboram, ainda por cima sem avareza?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (13)

13_BsAs bye bye

Novembro é o mês dos jacarandás em flor. É também o meu mês preferido para estar em Buenos Aires: não só há uma histérica nuvem lilás por toda a cidade, há também um ambiente de alegria pela chegada do bom tempo, do fim do ano, da proximidade das festas a marcarem o início do Verão e das férias.

É verdade que as ruas ficam um bocadinho pegajosas com as flores que caem, mas tudo vale a pena só para termos aquele espectáculo durante um par de semanas.

Buenos Aires bye bye (12)

12_BsAs bye bye

Algumas esquinas de Buenos Aires emanam uma aura de charme decadente. Talvez seja pela grandiloquência desta arquitectura estilo parisiense, aparentemente fora de lugar, mas tão bonita, neste ponto da América Latina. Esta é uma cidade cheia de encantos, e os edifícios que resistiram à construção dos arranha-céus são disso testemunho.

O centro, contudo, está degradado. Seja pela poluição que aí se faz sentir, seja porque agora já não é o lugar da moda para se ver e ser visto, na Calle Florida há um certo charme decadente no ar. Os antigos armazéns Harrod´s, hoje vazios, são disso exemplo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (11)

11_BsAs bye bye 01

11_BsAs bye bye 02

Um dos meus espaços predilectos em Buenos Aires, a flor é... a flor. É uma flor de metal, artificial, portanto, que mimetiza a natureza ao abrir e fechar conforme a intensidade da luz: à noite fecha-se, durante o dia está aberta. Curiosamente é também um pouso habitual para aves, o que faz com que quase todas as fotografias que tirei tenham um passarinho empoleirado numa das pétalas.

Mesmo ao lado passa uma avenida muito circulada, a Figueiroa Alcorta. Mas neste parque não se sente nada do movimento louco da estrada: há calma, espaço, verde, alguma sombra e a imponência da flor no seu espelho de água. Quando me treinei para correr os 10km, frequentava muito este jardim porque podia fazer um caminho bonito com algumas subidas e descidas, com uma gravilha macia ao impacto de cada passo e, sobretudo, sem cheiro a cocó de cão. Na Primavera, levávamos uma mantinha e o jornal do dia e íamos para lá apanhar um bocadinho de sol. Enfim, a flor é um espaço de muitas e boas memórias porteñas e continua a ser a imagem de fundo do meu computador. Vou ter saudades!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (10)

10_BsAs bye bye

Nestes anos argentinos também me despedi dos meus óculos (viva o laser!) e, de caminho, despedi-me também da melena comprida.

Curiosamente, na Argentina é muito difícil cortar o cabelo, porque argentina que é argentina usa-o longo e muuuuuito liso, perdendo diariamente horas com todos os preparativos. Ele é lavar, ele é banho de creme, ele é secar e alisar... Claramente não estava preparada para isso. Nem estou.

Chegando ao cabeleireiro, pedia que me cortassem o cabelo, sem medo, mas regra geral não tinha grande êxito. A pressão cultural é tão grande que ninguém se sentia à vontade para o fazer. Até que descobri o "meu" Walter, que logo na primeira visita desatou a desbastar-me a juba com tanto entusiasmo que até o filmei e tudo.

A partir daí, foi sempre a abrir, ou a encurtar o cabelo, e hoje demoro o total de cinco minutos completos entre lavagem, penteado e secagem. E para o calor, nem vos conto, dá cá um jeitaço.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye?

Podia ser um post da série "Buenos Aires bye bye", mas não é.

Na semana passada, a nossa última na Argentina, ficámos instalados num hotel de executivos, bem no centro. É um hotel de uma cadeia internacional, onde maioritariamente se instalam homens de negócios, tripulações de cabina em trânsito pela cidade, enfim, estão a ver o género. Não é propriamente o vão de escada ali do prédio dos fundos.

Ora precisamente neste hotel, fui interceptada duas vezes pelos seguranças para saber se era "acompanhante".

Acontece que o Sheraton Retiro, pelos vistos, é frequentemente visitado por profissionais desta área de negócio, também conhecidas como prostitutas de luxo. E aparentemente - uma pessoa está sempre a aprender - os seguranças cobram uma comissão nas tarifas das ditas profissionais para as deixarem subir aos quartos dos ditos executivos. E quem era eu para entrar por ali adentro sem pagar o que lhes era devido?

No final da estadia fui fazer a devida reclamação na recepção. Preambulei avisando que era um assunto delicado, mas nem mesmo assim consegui evitar que a recepcionista emudecesse de vergonha, acompanhado do inevitável rubor facial. "Representando el hotel, pero sobre todo como mujer, le pido mil disculpas. Hablaré con los chicos de seguridad."

E esta, hein?

Buenos Aires bye bye (9)

09_BsAs bye bye

Uma das (minhas) descobertas porteñas foi a pintura. Comecei a frequentar as aulas de pintura da Asociación de Amigos del Museo de Bellas Artes, com modelo vivo, e a minha vida foi mudando, aos poucos.

Penso que a minha profissão, a de designer de comunicação, é muito desgastante em termos criativos. A páginas tantas, no meio do turbilhão dos trabalhos, há pouco tempo para testar, experimentar novas soluções para resolver os problemas (de comunicação) propostos pelos clientes. E isso acaba por, paulatinamente, opacificar a nossa estrelinha brilhante, aquela a que podemos chamar de criatividade.

A pintura, portanto, apareceu-me como um terreno de teste, onde tudo, mas tudo mesmo era permitido. Em cada exercício que fiz predispus-me para o erro, para o teste, para tentar uma coisa diferente - tudo experiências que no trabalho como designer, a maior parte das vezes, não tenho tempo para fazer.

O tricot e as lãs também foram, curiosamente, uma forma de teste criativo e, paralelamente, de integração na cidade. Através do ravelry, comunidade tricotadeira virtual (e mundial), encontrei pessoas muito diferentes com uma coisa em comum: o gosto pelo tilintar das agulhas.

Uma coisa levou a outra e hoje tenho uma marca de roupa para pequenitos tricotada à mão, a abbrigate*. Como a necessidade aguça o engenho, um dia destes tive de arregaçar mangas e tingir lãs. Com a ajuda de um catálogo escolhi cores e fios e fui comprar as anilinas, só que, quando cheguei a casa e deitei mãos à obra, descobri que também nas lãs havia repetido o meu universo cromático da pintura, fugindo um pouco das cores que inicialmente tinha previsto obter!

Parece-me que a conclusão a retirar é que não podemos mesmo fugir à nossa natureza.

Nota: quem tiver vontade de ver o que andei a pintar durante estes dois anos, clique aqui e comente abaixo!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (8): Feliz Bicentenário!

08_BsAs bye bye

No dia 25 de Maio de 2010, este jovem país que é a Argentina celebra 200 anos de existência independente da coroa espanhola. A todos os argentinos eu desejo um feliz dia de aniversário da sua pátria: não é todos os dias que um país completa dois séculos de existência. Desejo-lhes que todos os sonhos argentinos se cumpram e que o país se transforme na casa sonhada de tantas gerações de locais e de imigrantes.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (7)

07_BsAs bye bye

Uma das boas descobertas argentinas (descoberta para mim, claro, para os outros já não era novidade) foi o trabalho de artista Liniers. A primeira coisa que vi dele foram umas páginas com reproduções do seu diário de viagem (que mais tarde se transformariam em livro) e de aí em diante foi um caminho só de ida. Gosto muito da sua técnica, mas o que realmente me chama é o humor tipo "nuvem cor-de-rosa": um humor positivo, que não rebaixa ninguém. Parte de episódios quotidianos, coisas aparentemente sem importância e que, através da caneta dele, se revelam situações hilariantes em que todos nos reconhecemos.

Um dia, Liniers começou a pintar nos concertos de Kevin Johansen e os The Nada e eu lá fui. Descobri uma banda sonora com o mesmo tipo de humor e fiquei fã.

Na fotografia, uma exposição de vinhetas do Liniers, sobre oceanos e ecologia, na cidade de Puerto Madryn, onde fomos em Outubro passado para ver baleias.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (5)

06_BsAs bye bye

Se há coisa que esta cidade tem de espectacular são os jardins públicos e parques que salpicam de verde a malha quadriculada. Os Bosques de Palermo são um conjunto de vários espaços que constituem um corredor verde pela cidade. A maioria dos jardins é de acesso livre e gratuito, à excepção do Jardim Japonês, com entrada paga. Alguns jardins têm horário controlado, como o meu favorito, o Rosedal de Palermo.

06_BsAs bye bye: Rosedal de Palermo

O Rosedal é um enorme jardim só com rosas, tal como indica o nome. Na Primavera, quando as flores estão a desabrochar, forma-se um festival histérico de luz e cor só comparado com o violeta dos jacarandás. É um espaço lindo, lindo, aonde se acede através de uma ponte estilo jardim romântico inglês, que atravessa o lago que limita o jardim. É um favorito dos porteños em dias de sol - e como poderia ser de outra maneira? É lindo, lindo e grátis, que mais se pode pedir?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (6)

05_BsAs bye bye

Não há visita a Buenos Aires sem uma ida ao tango. Seja ele show do dito, armado especialmente para turista ver, seja ele de rua ou até uma versão mais alternativa, esta cidade sem o tango não seria a mesma coisa.

Não posso dizer que as minhas habilidades tanguísticas se tenham desenvolvido muito durante a minha estadia cá. O que posso dizer é que vi alguns shows de tango e em todos, todos eles, mais ou menos pirosos, fiquei hipnotizada pela liquidez dos movimentos. Em alguns momentos, fiquei na dúvida sobre se eram bailarinos ou artistas de circo, hipnotizadores ou prestidigitadores.

O código do tango é uma depuração da corte à maneira latina: o homem olha; se a mulher corresponde, ele levanta-se, atravessa a sala e vai buscá-la para dançar. Se ele já lá está à beira dela, fica difícil dizer que não; a vontade feminina manifesta-se a montante, não cruzando o olhar, ou mirar especificamente o parceiro desejado. Esta dança de olhares, prévia à dança na pista, é sempre, sempre um espectáculo digno de ser observado, exclusivo das milongas mais tradicionais.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (4)

04_BsAs bye bye

Estar longe do meu país deu-me - talvez mais do que esperava - um ataque de patriotismo agudo. Durante estes anos aqui em Buenos Aires, onde assumem sempre (mas sempre!) que sou brasileira, encontrar coisas que me façam lembrar de Portugal deu-me muita alegria.

(Abro aqui um pequeno parêntesis para explicar que não tenho absolutamente nada contra o Brasil ou os brasileiros e não considero minimamente ofensivo que pensem que sou brasileira. Não é nada disso. É só a coisa de "assumir", ou seja, para um argentino, só porque falo português, sou brasileira. E não, juro que no mundo há outros lugares onde também se fala português, nomeadamente... em Portugal.)

Todos sabemos que a distância nos dá uma perspectiva mais clara do panorama, seja ele uma situação familiar ou até a de um país. E estar aqui na Argentina trouxe-me talvez uma maior apreciação pela vida que Portugal proporciona aos seus habitantes. Não vou dizer que é um país nórdico no que toca a salários ou à altíssima eficiência do serviço nacional de saúde, mas também não é a desgraça de que os meus compatriotas tanto falam. Viajar - e viver no estrangeiro - dá-nos ferramentas de comparação entre a nossa e a de outro lugar. Em todo o lado há coisas melhores e outras piores; faz-nos falta a nós, portugueses, apreciar mais as coisas que temos e valorizar-nos mais perante o exterior. E esta também foi uma aprendizagem com os argentinos, que têm de si próprios uma imagem muito boa (talvez exagerada) mas que lhes dá uma confiança imensa e um espírito de iniciativa invejável.

A distância também nos faz entender até que ponto somos de um certo lugar: nunca me tinha sentido tão portuguesa quanto aqui, na Argentina. Mas também sei que, um dia quando voltar a Portugal, me vou sentir mais estrangeira que nunca.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (3)

03_BsAs bye bye

Árvores, árvores, árvores. Buenos Aires tem muitas árvores. Aliás, uma daquelas estatísticas que os argentinos em geral e os porteños em particular gostam de fazer é que é a cidade da América Latina com mais árvores.

(Claro que esta afirmação não tem absolutamente nada de científico e denota até uma pequenina ironia da minha parte, já que uma das características locais é que os próprios são sempre os "mais" de alguma coisa. Alguns exemplos: o terceiro maior relógio do mundo, com figurinhas a sair e tudo, está numa terrinha perdida no planalto andino, na província de Jujuy, e vem a seguir ao de Bariloche e ao Glockenspiel de Munique! A avenida mais longa está, obviamente, aqui na Argentina, e é uma avenida que começa em Buenos Aires, se transforma em estrada nacional e chega até Mendoza, a mais de mil quilómetros daqui. Claro, este recorde é disputado entre as duas cidades, já que ambas se orgulham do mesmo... Enfim, já deu para ver o exagero da coisa, não?)

Voltando às árvores em Buenos Aires, realmente são numerosas e fazem muita, muita diferença. Esta é uma cidade que de ares bons tem muito pouco, já que o parque automóvel tem uma idade média muito alta. É decrépito, ruidoso, fumarento, enfim, responsável pela maioria da poluição urbana. As árvores, essas, para além de ajudarem a limpar o ar, constituem também um isolante acústico significativo. Caminhar num passeio com árvores não tem absolutamente nada que ver com a situação análoga numa rua desprovida de verde.

E por isso, adoro as árvores nesta cidade. São lindas todo o ano, cada uma em seu momento.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (2)

02_BsAs bye bye: gyozas no Jardín Japonés

A comida japonesa crua nunca me atraiu por aí além. Pelo menos até chegar a Buenos Aires, cidade num país onde a cultura de comer peixe é inexistente. As honrosas excepções são o sushi, japonês, e o ceviche, peruano.

Para uma adepta fervorosa do peixe como elemento fundamental da alimentação, o panorama cá não era muito animador. E foi aí que dei o passo e me apaixonei loucamente por toda a comida japonesa (a cozinhada e a crua também). Agora, se pudesse, comia sushi... quase todos os dias.

Na fotografia em questão estão umas gyozas deliciosas que comemos no restaurante que está instalado dentro do Jardim Japonês, um oásis plantado no meio da selva urbana.

Boas notícias

Quero aqui fazer um post pequenino para alegrar as hostes, ou talvez para contrariar todos os "Velhos do Restelo" deprimidos que só falam da crise em Portugal e da desgraceira em que o país se encontra. Hoje, na minha visita ao jornal Público online, encontrei duas notícias que me parecem realmente boas: a primeira dá conta de que Portugal teve o maior crescimento dentro da UE, no primeiro trimestre do ano. Não digo que o crescimento seja enorme, mas contraria realmente todos os pessimistas que teimam em colar-nos à Grécia. A segunda notícia, também muito boa mas noutro campo totalmente diferente, conta que pela primeira vez há colónias de flamingos a nidificar em Portugal, a saber, na Lagoa dos Salgados, no Algarve.

O resultado destas notícias foi claramente verbalizado pelo dono de um quiosque ali na esquina, que disse, à boa maneira do piropo argentino, con una sonrisa así ya me alegraste el día!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Buenos Aires bye bye (1)

01_BsAs bye bye

Um dos meus espaços favoritos em Buenos Aires é, sem dúvida, o Malba, o Museu de Arte Latino-Americana. Tem uma planta quase triangular - ou pelo menos o átrio é triangular - o que o transforma imediatamente num edifício invulgar. O espaço é luminoso e cheio de reflexos, mesmo nos dias cinzentos. E na Primavera, os jacarandás em flor da rua ao lado enchem a vista do visitante.

A colecção permanente é interessante, mas vale sobretudo pelas exposições temporárias e pela animação cultural. A cafetaria era muito boa e acessível, agora é boa e muito cara.

Buenos Aires bye bye

Ainda no registo "aqui há dias" que referi no post anterior, vejo que não há nada de tempo (há já um ano e meio, eu seja santa!) publiquei aqui no "Entre..." uma série de fotografias subordinadas ao tema "Buenos Aires by night". Pois agora que a data da partida se aproxima, parece-me pertinente uma outra série, desta feita "Buenos Aires bye bye".

00_BsAs bye bye

Reúno aqui coisas que para mim foram importantes neste período, que esta cidade me proporcionou, ou que aprendi enquanto cá estive. Espero que gostem!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Noutro dia

Noutro dia fui despedir-me das minhas colegas da pintura, um grupo heterogéneo em termos etários. Há de tudo, como na feira, mas a maioria é mais velha que eu. E algumas, bem jovens por sinal, são ainda mais velhas que as mais velhas que eu.

Isto para contar que uma delas, ao saber que eu ia para o Panamá, me contou a experiência de viagem que lá teve. Pois que certo dia tinha visto uma carteira bonita numa loja e queria sair do hotel, tranquilamente, para a ir comprar. Na recepção, não a deixaram sair sozinha, assim sem mais nem menos, e chamaram-lhe um táxi para a levar, para a esperar e para a trazer de volta sã e salva.

Eu disse-lhe que agora já não era assim, que me tinha parecido um lugar pacato, tranquilo, com um ambiente de cidade pequena, e que os relatos dos conhecidos que lá viviam há algum tempo eram coincidentes com esta minha opinião. Ela então conta que isto já se tinha passado há coisa de quinze anos, que nessa altura era assim. Não neguei, óbvio, há quinze anos estava muito longe de pensar que algum dia iria viver no istmo.

Aí a minha colega fez contas, fez contas e depois mencionou, assim como quem menciona qualquer coisa que aconteceu "noutro dia", que tinha sido em 1978.

Foi há 32 anos, portanto. No ano em que eu nasci. Diz que agora é diferente.

(E quão diferente é o Portugal de 2010 do de 1978?)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

De avião

Lembro-me de quando era mais miúda que as viagens de avião eram, para mim, uma festa. A viagem, em boa verdade, já era parte das férias. O aeroporto, os destinos longínquos e exóticos, o check-in e as etiquetas, os cartões de embarque e os passaportes, tudo isso era uma antecipação da euforia das férias.

Hoje, confesso, cada vez me custa mais entrar num avião. Talvez seja porque o faço com mais frequência, mas suponho que a minha idade e o cada vez menor conforto da viagem também sejam factores a contabilizar. Lembro-me dos tempos em que levava uma garrafa de água de litro e meio, comprada no supermercado (e não com o preço pornográfico a que é vendida nos aeroportos), e isso não fazer nenhum guarda levantar o sobrolho. Lembro-me de talheres de metal (ainda os há, bem sei, mas já começam a ser espécie rara) e de jogos distribuídos às crianças. E agora, só conheço o desconforto, o pouco espaço, a falta de posição na cadeira. Às vezes calha-nos um daqueles Airbus maravilhosos com ecrã individual e cabine com redução de ruído; às vezes calha-nos ter o lugar do lado vazio; outras vezes, não.

Pois desta feita vinha eu entalada entre a janela e um senhor obeso. Sim, obeso, ao ponto de não conseguir baixar a mesinha e de ter de se levantar para poder carregar em qualquer dos comandos colocados no apoio de braços. Foi quase dramático: o senhor, super incomodado com a falta de espaço, nem sabia o que fazer. A páginas tantas deixou cair qualquer coisa e foi um sarilho para a recuperarmos. Eu não tinha apoio de braços (o senhor precisava dele como espaço vital, temos de nos lembrar que, afinal de contas, ele mal cabia na cadeira) e praticamente não alcançava o espaço à frente do meu lugar. Tinha mesmo pouca margem de manobra.

Com o jantar e o tabuleiro que não chegava a assentar na horizontal - o volume ventral não o permitia - comecei a sentir claustrofobia. A verdade é que não estava a ver bem como íamos fazer uma viagem de treze horas naquelas condições.

E aqui entra a questão: as pessoas mais volumosas devem ou não comprar dois lugares?

Vou falar da minha experiência: por favor, sim.

Sabem aqueles bebés que estão tão incomodados com o voo que choram as tais treze horas sem parar? Os pobres pais já não sabem o que fazer e as pessoas à volta já bufam de impaciência? Pois estar ao lado de um passageiro volumoso, para mim, é pior. É pior porque fico sem espaço. Com barulho enfio uns tampões nos ouvidos e sigo para bingo; sem espaço, dá-me uma sensação de estar fechada (que estou) que me deixa à beira do pânico.

Como é evidente, isto é uma discriminação das pessoas mais volumosas. Eu sei, eu sei. Mas também sei que nem elas, nem eu viajamos com um mínimo de conforto quando temos de estar de coud-à-coud (fica mais bonito assim) por um bocadinho de apoio de braço.

Em jeito de conclusão, e só para descansar as leitoras mais preocupadas (aham... suponho que vocês sabem quem são), mudei de lugar para outra fila mais atrás, com direito a pernas na coxia e lugar livre ao lado. Muito, muito melhor.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Recuando no tempo*

*e voltando aos tempos da colónia de férias. E sim, é um grande retro-salto!

Quem é que daqui participou em colónias de férias de Verão? E quem daqui tinha as refeições embrulhadas em película aderente?

Pois eu tinha. E não havia maior diversão que fazer estalar pequenos balõezinhos peliculeiros e delirar com o barulho. Não havia. É que às vezes apanhávamos trânsito, a viagem demorava e as cantorias esgotavam-se. E ao final da tarde já estávamos todos demasiado cansados para passatempos construtivos.

O mesmo fenómeno se dá nos voos entre Buenos Aires e o Panamá. São sete horas de viagem desgastante feitas dentro de um avião para viagens curtinhas, muitas vezes sem uma televisãozinha sequer para passar o tempo. A Copa, valha-nos isso, é super pontual, mas não há volta a dar-lhe aos 5334km entre os dois pontos. É mesmo assim e pronto. A páginas tantas, já não há tricot, leitura ou podcasts que me salvem do tédio total e aí entra a parte dos estalidos com o plástico.

Na última viagem, o Príncipe, rapaz de reconhecida paciência, ria-se e documentava fotograficamente a cena. Os demais passageiros davam pequeninos saltos nos seus assentos a cada um dos estalidos. Divertido, mas durou pouco - não quero ser considerada uma ameaça à segurança aeronáutica. Era só um bocadinho de película aderente, mas nunca se sabe.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Idiossincrasias de um país tropical

De novo no Panamá para tratar de assuntos burocráticos, divirto-me com algumas idiossincrasias locais. A primeira de todas é a interpretação local das estações do ano.

O Panamá encontra-se a nove graus norte, o que significa que astronomicamente estamos na Primavera. Como estamos bem pertinho do Equador, e ao nível médio das águas do mar, vivemos um clima tropical, que se caracteriza por uma estação seca e outra húmida.

Ora acontece que a estação húmida costuma coincidir com os meses de Verão; no hemisfério norte, isso acontece entre Abril ou Maio e Setembro ou Outubro. Só que, no Panamá, as coisas não são bem assim...

Chamam "Verão" (com umas enormes aspas, as maiores que tiverem aí à mão) aos meses da estação seca, que na realidade correspondem ao Inverno astronómico. A temperatura é mais baixa, não chove, e - por isso - é considerado "Verão". Já o "Inverno" (chamem as tais aspas grandes, por favor) caracteriza-se por temperatura mais alta, mais humidade relativa e pancadas de água de cerca de uma hora por dia, normalmente à mesma hora.

Só para ilustrar a história, conto-vos que este dia de "Inverno" vai com 32ºC e 59% de humidade relativa.

Inverno, Inverno, é dentro dos espaços, que são refrigerados até ao ponto de se terem de usar casacos e abrigos... de Inverno! E esta, hein?

terça-feira, 30 de março de 2010

Termina o suspense

Jamais foi minha intenção deixar os leitores do "Entre..." sem uma resposta quanto ao mistério da mudança, mas, enfim, têm sido dias tão preenchidos de documentos, listas de afazeres, correios electrónicos de um lado para o outro que há coisas que acabam por ser proteladas.

Mas já que aqui estamos, passemos então a desvendar as pistas!

Dizia eu que: o país para onde nos vamos mudar é mundialmente conhecido pelo aproveitamento feito pelo Homem de uma determinada configuração geográfica que permite agilizar as comunicações ao nível planetário.

Pois sim, existe um canal de passagem de navios na parte mais estreita da parte central do continente americano. Esse canal, de intervenção humana nesta localização específica, permite à circulação marítima um atalho muito significativo em comparação com a alternativa, que é a de viajar até ao extremo sul do continente.

Voltando às pistas, a este país aplicam-se os célebres versos "moro num país tropical/abençoado por deus/e bonito por natureza". E não nos referimos ao Brasil. Pois, o Brasil fica na América do Sul e há mais países tropicais, diria até que a maioria deles bonitos por natureza. Não nos esqueçamos do calor e da humidade, que actuam como cúmplices desse grande complot que é a biodiversidade!

Também falei do déficit de mar do qual padecemos aqui em Buenos Aires, vamos passar para uma fartura em quantidade e variedade. Ora isto já é muito revelador! Fartura de mares? Tenho para mim que é mais que um, portanto...

E aqui, a pista final do filme: neste mesmo centro histórico terá sido filmada (...) uma história de suspense com actores bem conhecidos. É isso mesmo: o Alfaiate do...

Panamá!

Como tenho leitores muito perspicazes, chegaram lá num instante. Quem não acertou, não fique triste porque contribuiu para a (minha) animação, sobretudo porque adoro - não sei se frisei suficiente a parte do "adoro" - receber aqui comentários.

Ficam aqui algumas fotografias da primeira viagem ao Panamá:

O sempre presente, célebre e fantástico ceviche.

Uma publicidade imbecil e um autocarro como nos filmes.

Um jardim em Punta Paitilla - espaços urbanos de lazer não são abundantes na Cidade do Panamá, portanto há que mimar e estimar os poucos que existem.

Punta Paitilla, vista da Avenida Balboa. Estão a ver as casas em cima do mar? Quero.

Mais aventuras se seguirão...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pequena pausa publicitária

01_leafy garden

É pequenina, prometo: é já amanhã que abre a Attraction Store, no Porto. E sabem uma coisa? Vão lá estar postais meus e várias peças abbrigate*!

Apareçam e, por favor, façam a reportagem fotográfica que eu não posso fazer!

Fim da pausa publicitária. Brevemente voltaremos à nossa programação habitual.

Edito o texto para acrescentar os detalhes da loja: encontra-se na Rua Escura, nº 45, a partir das 16h. Não faltem!

terça-feira, 23 de março de 2010

Mudanças, mudanças

Alguns dos que lêem o "Entre..." já saberão a notícia que me tem mantido bastante ocupada e, consequentemente, arredada destas lides. A verdade verdadeira é que, muito brevemente, este blogue terá de mudar de nome, porque vamos sair de Buenos Aires para ir para outra cidade - onde, por sinal, estive na semana passada pela primeira vez. O relato, a seu tempo, cá chegará.

E como é sempre divertido fazer aqui um pequenino desafio, deixo algumas pistas sobre o nosso novo destino. Quem quiser, deixe palpites nos comentários. E quem já sabe, por favor, não estrague o jogo! Pode até contribuir com mais dicas...

Vamos então: o país para onde nos vamos mudar é mundialmente conhecido pelo aproveitamento feito pelo Homem de uma determinada configuração geográfica que permite agilizar as comunicações ao nível planetário.

Além disso, a este país aplicam-se os célebres versos "moro num país tropical/abençoado por deus/e bonito por natureza". E não nos referimos ao Brasil.

Do déficit de mar do qual padecemos aqui em Buenos Aires, vamos passar para uma fartura em quantidade e variedade. Já para não falar dos magníficos pratos de peixe que lá se comem. (Por falar nisso, e bem à parte, lembro-me de ter falado num desses pratos, o ceviche, num dos primeiros posts deste blogue. E ainda num dos segundos posts. Acho que, diria mesmo que, estou bem certa de que o bom garfo que há em mim continua a vibrar de alegria sempre que pensa nessa refeição. Ai vida.)

Na semana passada, enquanto visitava a minha futura cidade adoptiva, só me lembrava de Macau: ele é a temperatura, ele é a humidade; os projectos imobiliários em altura, a proliferar quais cogumelos; o horizonte cheio de gruas e os cartazes para vender tanta casa. E ao lado de tudo isso, um centro histórico lindíssimo, em boa parte já recuperado, outra parte a caminho de o ser. E uma vista de mar maravilhosa, com sucessivas baías.

Posto isto, será que alguém adivinha? Deixo mais uma pista: neste mesmo centro histórico terá sido filmada (não vou jurar que foi, pois todos sabemos que a magia do cinema é isso mesmo, mágica) uma história de suspense com actores bem conhecidos.

Será que já disse demais?

quarta-feira, 10 de março de 2010

Verão molhado

Este Verão tem sido chuvoso. Tão chuvoso, que as ruas já se inundaram várias vezes, com direito a directos televisivos e perguntas idiotas do género como é que se sente a atravessar a Avenida Santa Fé com água acima dos joelhos? Molhada, como é evidente, uma pessoa sente-se molhada. Não é o fim do mundo.

Mas a sucessão de dias cinzentos, depois dos dias cinzentos (e frios!) em Portugal, está a pedir algo de alegria.

Aqui está. Presente da minha querida amiga F., acabadinha de chegar.

presente de uma amiga brasileira :)

Quem quer umas iguais ponha o dedo no ar.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sagres

Sagres em Buenos Aires!

O navio-escola Sagres está de visita a Buenos Aires. Na sua viagem de circum-navegação participa nas celebrações dos bicentenário da independência de vários países, nomeadamente o da Argentina. Também cá estão navios de outros países e a Dársena Norte de Puerto Madero teve, este fim-de-semana, uma cara diferente.

A partida da Sagres para mais uma etapa da sua viagem de circum-navegação está marcada já para amanhã, mas durante a sua estadia aqui (e acredito que em todos os outros portos) abriu as suas portas ao público. Falo por mim, com as saudades que tenho de Portugal e de falar português a torto e a direito - ou será só de falar a torto e a direito? - visitar a Sagres e meter conversa com toda a gente é o meu programa ideal de Sábado à tarde.

E assim foi. Havia um mar de gente à espera para visitar os vários barcos atracados no porto, que estava lindo. Entre mastros e velas e arranha-céus, a paisagem porteña estava definitivamente diferente.

a bordo da Sagres

A bordo da Sagres, os marinheiros de serviço metiam conversa com os visitantes, ajudavam na subida e descida dos íngremes degraus e respondiam com infinita paciência a todas as perguntas que lhes faziam. Desconfio que, tal como nós, houve mais algumas pessoas que foram para lá exibir as suas t-shirts de Portugal e os seus xailes típicos, com vontade de destravar a língua e praticar as conjugações verbais lusas. Em terra onde sempre nos confundem com brasileiros (mais uma vez, não que isso seja um problema, só é é muuuuuito cansativo), receber uma embaixada itinerante é motivo de muita alegria.

Sagres em Buenos Aires!

Da cozinha do navio vinha um cheiro delicioso a peixe fresco. Enquanto salivávamos, um dos cozinheiros cortava lâminas a um polvo já cozido. Perguntámos-lhe de onde vinha aquela iguaria e ficámos a saber que foi trazido de Portugal. Quem diria? Mas, bem vistas as coisas, o pouco polvo que por cá se arranja também vem das nossas bandas (mais frequentemente, da Galiza). A dificuldade, mesmo, foi afastar-nos daquele polvinho que se deixava fatiar como manteiga... É verdade que na Sagres dão a provar as delícias da culinária portuguesa?, quisemos saber depois de ler o folheto que distribuíam aos visitantes. E sim, mas só às personalidades convidadas. E claramente o Sr. Embaixador não se lembrou de nós.

Sagres em Buenos Aires!

Uns suspiros de saudade mais à frente, vimos várias barricas de vinho que também fazem a viagem de circum-navegação. Desconheço que costume é este o de trazer o vinho a dar a passear (Tio Rui?), mas achei uma maneira bem interessante de o fazer envelhecer. Já imagino a descrição: ...vinho circum-navegador, envelhecido em casco de carvalho, com toques de sal e de vento e um final de maresia. Já sabem, quando, no futuro, beberem um moscatel de Setúbal, procurem-lhe os vestígios da ondulação.

Dada a volta à Sagres ainda visitámos outras embarcações, mas não amor como o primeiro, que neste caso se deveria substituir por não há orgulho como o patriótico.

E, já no regresso a casa, registámos esta imagem:

Outra Sagres, também em Buenos Aires...

E esta, hein?

Mais fotos aqui.

Parabéns...

...ao filme "El secreto de sus ojos", o filme argentino que recebeu o oscar para melhor filme estrangeiro. Quem não viu, vá ver!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Porque o mundo é dos lutadores...

...um bom exemplo. Gostei de conhecer esta história e admiro mais e mais quem persegue os seus sonhos e trabalha com afinco para os concretizar. Sem queixinhas!

(vou-me esforçar muito para imitar!)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Uruguai

DSC06742_2-pola

Não sei bem se se sou só eu a sofrer de déficit de mar, mas que sofro, sofro. E quando vejo o mar, quando sei que vou estar na praia, que vou ver ondas e sentir o ar cheio de sal na cara, encho-me de uma euforia qualquer que nem sabia que podia sentir. A verdade é que peixe que sempre viveu com as ondas a dois passos não sabe viver em cidade como esta, a pelo menos quatro horas de distância da praia mais próxima.

O Verão em Buenos Aires é abafado e asfixiante: à muita humidade que vem do rio juntam-se temperaturas altas e ausência de ar condicionado. Não é muito agradável. É nesta altura do ano que eu sou fã de centros comerciais porque, adivinharam, lá a temperatura é mais baixa que em casa. Felizmente, aqui relativamente perto, temos a costa uruguaia, linda, linda, vagamente parecida com a costa portuguesa, mas em grande, em extenso e com vacas.

Voámos para Punta del Este, cidade que poderia parecer uma qualquer Quarteira ou Albufeira do sul do Portugal, mas que é de longe muito mais cuidada, organizada, e sem nada daquele urbanismo bárbaro e selvagem que desfigurou uma boa parte da orla costeira do nosso país. No Uruguai, começaram tarde, mas felizmente com bastante cuidado. Nem tudo é perfeito - afinal de contas, temos uma via rápida a passar entre as casas e a praia, sem qualquer acesso pedonal que comunique a zona residencial com o areal. Mas, de resto, arruma num cantinho os projectos imobiliários balneares que vemos em Portugal. Além disso, o Uruguai tem a seu favor a baixa densidade de construção: apesar de serem um dos países mais pequenos da América do Sul, têm muito espaço para pouca gente (e muita vaca).

O mar é lindo e bravo, numas praias, lindo e manso, noutras. Ficámos acidentalmente alojados no meio da nata da sociedade argentina veraneante, mas numa ilha em forma de pousada com um ambiente tão familiar que a criançada ia jantar já de pijama. Já disse que foi uma maravilha? Foi uma maravilha. Perguntem à mãe do Príncipe, ela confirma.

DSC06681_2-pola

DSC06674_2-pola

Um dia, de carro, fizemos um passeio que nos levou a sítios que nem apareciamm assinalados no mapa: entre uma estrada de lama e a praia estendiam-se dunas sem fim, de vegetação rasteira - e algumas vacas - e, lá ao fundo, o mar bravo e de ondas altas.

Continuando costa acima, em direcção ao Brasil, fomos de terrinha em terrinha parar ao Cabo Polónio, uma aldeia perdida dentro de um parque natural onde a luz eléctrica só chega ao farol. Paragem preferida dos hippies, que convidam os visitantes a desapegar-se dos bens materiais, é uma terra linda vista de longe, mal-cheirosa vista de perto. Parece que a falta de energia eléctrica também é sinónimo de falta de esgotos. Outra particularidade desta aldeia é o acesso, que é feito nuns camiões adaptados com uma estrutura metálica tipo galeão: os passageiros empoleiram-se lá e assim fazemos os poucos quilómetros que nos separam da entrada do parque, numa paisagem de pinhal, terra batida e praia a perder de vista. A vantagem clara é que não há carros a circular - e nada paga a alegria de estar lá em cima, a ver o mar e a receber o vento salgado na cara. Maravilha.

olha o Cabo Polónio!

a caminho do Cabo

A praia no Cabo Polónio

Voltar a Buenos Aires é um choque: depois do ritmo relaxado que se respira na margem oriental do Rio da Prata, esta cidade, que tem tudo menos "bons ares", é abafada, movimentada, demasiado densa. Mas é casa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Boas ideias precisam-se

Hoje, enquanto fazia uma ilustração, estava a ouvir o episódio "DNTO fights back!", do programa da rádio pública canadiana. Já falei aqui deste podcast noutras vezes e hoje não é excepção: há sempre qualquer coisa em cada um dos episódios que me faz pensar.

Desta feita, o músico Dave Carroll conta-nos por que razão escreveu uma música especial, a "United breaks guitars". Resumindo a história, no final de certa viagem de avião com a United Airlines, este músico recupera a sua guitarra e vê que ela está partida. Depois de fazer a queixa à companhia aérea, recebe a não-resposta, ou a resposta-não, que a companhia não se responsabiliza e que ele não vai ser compensado pelo dano material que sofreu.

Sentindo-se impotente perante a apatia corporativa e a falta de serviço ao cliente, senta-se e faz o que sabe fazer, que é escrever canções. Publica o vídeo da dita canção no youtube e tunfas, o número de cliques aumenta exponencialmente e consegue o que as reclamações não tinham conseguido.

Esta história fez-me lembrar a saga que os meus pais têm estado a viver com a PT. Não, não estou a falar de todas essas telenovelas político-corruptivas que se lêem sem fim nos media portugueses, estou mesmo a falar de puro serviço ao cliente. Resumo a história que o meu pai conta aqui e aqui: antes do fim de ano, os meus pais decidem-se a instalar o pacote de internet com fibra óptica da PT, daqueles que incluem telefone e televisão.

Os técnicos comparecem na data indicada e procedem à instalação da box na cozinha (e não na sala), já que, segundo eles, os cabos são grossos e não passam pelos canais já existentes. Além disso, fazer furos na parede não é da sua responsabilidade, argumentam.

Posto isto, não se sabe bem como, o telefone de Lisboa, com número começado pelos dígitos 21, passa misteriosamente a atender por outro número também atribuído ao meu pai (em segunda habitação), com os dígitos 275, indicativo de Castelo Branco. Encurtando razões, o telefone 275 (em Castelo Branco) deixa de funcionar e o 21 (de Lisboa) passa a ter o número 275. Confuso? Para nós também.

Muitas reclamações depois, o caso continua parado e parece que sem fim à vista. A PT, que devia tratar bem os seus clientes, não atende o telefone: manda os operadores fazer o serviço e, claro, estes operadores empregados de outra empresa qualquer, a quem a PT adjudicou o atendimento telefónico, não sabem de nada nem podem saber. Os técnicos, também de empresa exterior à PT, não sabem de nada, que em não sei quantas décadas de trabalho jamais lhes aconteceu algo assim.

E no meio disto tudo, estamos na mesma, com os números trocados e com as contas telefónicas (de três números, em vez de dois, sabe-se lá porquê) a chegar, essas, pontualmente.

Posto isto, deixo aqui o pedido de um brainstorming virtual: quem dá boas ideias para resolvermos o problema? Comentem, por favor, e deixem-nos ideias giras para fazermos novas (e mais eficazes) reclamações. Obrigada!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Adoro fazer anos

E ontem fiz anos. Adoro! Que venham muitos mais, pelo menos tão bem comemorados como este, sempre com a companhia do meu Príncipe.

A vida é bela.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Hipódromo de Palermo

winning ticket at hipódromo de Palermo

Uma das vantagens de termos visitas é que vemos coisas que de outra forma não veríamos. Não veríamos, por exemplo, a minha imensa classe (chamam-lhe "sorte de principiante" mas a mim parece-me que é despeito) a ganhar a primeira aposta que faço ao chegar ao Hipódromo de Palermo, no Sábado passado.

Já era conhecida a minha estratégia para ganhar no poker - para quem não sabe, é tricotar ao mesmo tempo. E fazer muito, muito, muito bluff, pois não há quem resista. Mas agora confirmou-se o meu estatuto de amuleto da sorte quando o meu cavalo ganhou e eu rendi ao senhor meu esposo 360% de lucro. É isso mesmo.

Acabadinhos de chegar, eu ainda nem tinha percebido como é que a coisa funcionava. Lá me explicaram bem explicadinho, houve até quem cobiçasse os caderninhos que os outros visitantes tinham, com as descrições dos cavalos de cada uma das corridas do dia. Chegámos ao quiosque das apostas e eu peço o oito, o meu número preferido e redondinho.

- Ese caballo no corre.

Ora, ora, que não corre. No dois.

E adivinhem só, o dois ganhou. Nem o vi chegar à meta, porque me diverti a olhar para as pessoas à minha volta, aos gritos, à medida que os cavalos se aproximavam da meta. É realmente interessante ver veias a saltar do pescoço, punhos no ar e os gafanhotos do entusiasmo a saltarem de tantas bocas.

O que faltou, mesmo, foi o chapelinho à Ascott. Fica para a próxima!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Converseta

Ontem entrei na farmácia aqui da esquina para comprar um par de coisas que precisava. O farmacêutico começou a aviar o meu pedido, entre muitos sorrisos. Pensei que teria coisas nos dentes - não é inédito - ou estaria mal vestida, pois vinha do ginásio. Pergunta-me:

- Disculpe, señora, que le pregunte: usted no es de acá.

Não, realmente não sou, não, sou portuguesa.

- Ah, de Portugal! Tamaña belleza no podía ser de acá.

E é isto. Vai uma pessoa à farmácia e tem o farmacêutico, com idade para ser meu pai, nestes delírios.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Importante

Andei a pensar que volta é que daria ao assunto para o tornar mais apelativo, menos urgente, menos dramático e a verdade é que não cheguei a nenhuma conclusão. Por isso, digo-o da melhor forma que encontro, que é a directa: é urgente e muitíssimo importante que o máximo de pessoas se inscreva como dador de medula óssea.

É óbvio que se trata de uma decisão pessoal e que também depende de factores como a idade, se a pessoa é saudável, entre outros. Mas partindo do princípio que a maioria das pessoas é saudável, conto-lhes o que penso sobre o assunto.

Para o paciente, encontrar um dador compatível é uma questão de vida ou de morte; para o dador, é uma picada no momento da inscrição e um procedimento simples (com algumas picadas, é certo) que raramente necessita internamento. Os benefícios para o paciente ultrapassam muito largamente os potenciais riscos do dador, já que não é necessária uma intervenção invasiva para extrair as células necessárias para o transplante.

No acto da inscrição, os dados do dador são guardados numa base de dados internacional (Bone Marrow Donors Worldwide), o que significa que um paciente que esteja num determinado país tem muito mais hipóteses de encontrar um dador compatível porque a pesquisa abrange todos os países incluídos na dita base de dados.

Não me querendo alargar em mais argumentos, deixo aqui links para quem quiser obter mais informações sobre o tema. Aproveito também para pedir a todos os que aqui vêm para considerarem seriamente a hipótese de se inscreverem como dadores. Seria bom ninguém precisar da ajuda, mas como há gente que precisa, é bom saber que podemos ajudar.

Em Portugal:
Centro de histocompatibilidade do Sul
Centro de histocompatibilidade do Centro
Centro de histocompatibilidade do Norte

No Brasil:
(Pelo que percebi, o Brasil ainda não participa nesta base de dados internacional. Mesmo assim, vale a pena inscrever-se como dador! Para quem quiser informação em português, os links acima têm todos os detalhes, bem como as respostas às perguntas mais frequentes)
INCA

Na Argentina:
Hospital de Pedriatría Dr. J. P. Garrahan

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

As alegrias da desconexão



Está visto: estar desconectada também é bom. É mesmo muito bom viver umas semanas mais afastada do computador e do blogue para depois poder voltar cheia de saudades desta minha "casa" que é o "Entre...".

Vir a Portugal é sempre uma alegria, não só porque se vêem os amigos e a família, como também porque é bom estar cá. Lisboa está cada dia mais bonita, tem cada dia mais recantos bonitos, cafés novos, lojas novas, ruas mais asseadas (é verdade, é mesmo o que observo!), autocarros silenciosos e estações de metro novas. Cada vez que venho deslumbro-me com as vistas do rio, as casas coloridas e os passeios em calçada portuguesa. Às vezes também escorrego nelas, sobretudo neste Inverno tão chuvoso, mas é sempre uma alegria acordar e ver a cúpula da Basílica.

Para quem sempre fala mal de Portugal, tenho que contar que liguei para dois atendimentos telefónicos de dois serviços públicos e ambos me responderam às minhas perguntas. Enfim, nem tudo funciona bem, como conta o Dicforte, mas há muita coisa a funcionar mesmo bem. Destaco aqui o atendimento ao cidadão da Câmara Municipal de Lisboa e o atendimento telefónico das Finanças. Ambos muito bons.

Outra maravilha, de índole totalmente diferente, foi o nevão com que fomos presenteados no fim-de-semana passado. Que sensação linda a de estar quentinha dentro de casa e ver os flocos a cair lá fora, a paisagem, gradualmente, a tingir-se de branco. E que lindo abrir a janela e não ouvir nada: nem gotas de chuva, nem água, nem carros, autocarros ou quejandos. E tricotar, tricotar, e depois sair e estrear gorrinhos (na foto, o primeiro gorro Koolhaas, feito para oferecer, mas que ficou pequenino. O segundo, já com o tamanho adequado, já está terminado e pronto a ir para o seu dono). Paisagem perfeita para a fotografia do gorro, não? Também ponto alto do passeio na neve foi o capote alentejano, que não desapontou, e ainda constatar que tenho muita pontaria (diz que avariei umas quantas máquinas fotográficas com umas bolas de neve mais certeiras...).

Enfim, muito mais há para contar sobre estes dias, mas mais relatos virão a seu tempo. Por agora, mantêm-se as tarefas de tia por mais uns dias. Em breve estarei do outro lado do oceano, já com o coração cheio de saudades, mas com muito mais disponibilidade para contar histórias aqui.

Até lá, um bom ano, cheio de coisas boas, e até breve.

P.S.: A foto acima foi tirada pela Bau.