quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Blog Action Day 2008: Pobreza

Este é o meu post para o Blog Action Day 2008.





O tema deste ano é "pobreza". Não é exactamente "luta contra a pobreza"; se fosse, não sei bem o que escreveria, já que tenho a sensação de que todas as coisas que temos feito (de um modo geral e também do ponto de vista particular) não têm surtido grande efeito. A pobreza continua a grassar e, ainda por cima com esta super crise financeira, a aumentar. Não querendo entrar pela temática da crise financeira ao abrigo da minha nova atitude o que é preciso é saudinha, menina, acho que uma das coisas que realmente carece de eficácia é mesmo a luta contra a corrupção. Acho que essa, sim, poderia ajudar bastante a combater a pobreza.

Dada a minha incapacidade-barra-falta-de-vontade de discorrer sobre a luta contra a corrupção, quero apenas contar o que senti ao visitar as minas de Potosí, na Bolívia, momento sobre o qual já aqui escrevi.

Casebres à entrada de uma das minas do complexo de Cerro Rico, em Potosí, na Bolívia.

Cabe aqui explicar, em modo de preâmbulo, que a cooperativa de mineiros abriu a mina ao turismo com o objectivo não só de dar a conhecer o seu trabalho mas também porque as receitas das visitas constituem uma grossa fatia dos seus rendimentos mensais. Para dizer de outra maneira, não foi o turista ou a perversa máquina do turismo que subiram pela montanha acima para ir explorar aquelas pessoas, mas sim uma situação de que ambas as partes beneficiam.

Acho que já todos contactámos com a pobreza, de forma mais ou menos próxima ou mais ou menos permanente. Mas nesta visita às minas contactei com talvez o seu pior aspecto: a total e absoluta falta de perspectivas de melhoria. Esta ausência de perspectivas é tão imensa e tão presente que me pergunto se aquelas pessoas imaginam sequer ser possível existir outras realidades. Admito que sou ingénua e que gosto de o ser. Não acho que aquelas pessoas sejam estúpidas, pelo contrário. Acho apenas que, pura e simplesmente, não sabem nem conseguem imaginar outra vida que não aquela, e isso é que é especialmente aterrador.

Foi nas crianças que mais notei a crueldade desta premissa: aos sete ou oito anos já têm uma camada de caliça incrustada na pele, que, juntamente com a sujidade, lhes forma uma espessa crosta e uma maior carapaça. Têm uma visão cínica da vida, do futuro e muita dessa acidez é canalizada para os turistas que os visitam. Fomos recebidos por meninos sem idade a mandarem-nos pedras com uma fisga, algo que, dado o contexto, equivale vagamente a cuspir na sopa. Mas ao aproximar-nos da entrada da mina percebemos melhor o que o futuro lhes reservou: tabaco, álcool e folhas de coca, uma mistura boa para os deixar atordoados e conformados com a vida. Para eles existe um buraco escuro cheio de pó, dinamite, arsénico e outras coisas que tais, que lhes garantem uma vida curta e um obstrução pulmonar crónica.

Foram estes miúdos sem caras, sem expressões e sem olhar que me fizeram tremer e desejar ardentemente chegar à cidade seguinte no nosso percurso, a cidade universitária de Sucre.

E cada vez mais penso: é certo que pobreza é não ter acesso a alimento e a água potável. Mas é sobretudo a falta de sonhos, de perspectivas de uma vida melhor e de acesso à educação. A pobreza está em todo o lado.

2 comentários:

mariana.santos.ramos disse...

Sem palavras... mas muita emoção!
Beijinhos da Mãe

Bau disse...

Ai Bi!...